Perguntas do descendente de “trentinos”

perguntas

O Blog Tiroleses no Brasil propõe 10 PERGUNTAS sobre os imigrantes do Tirol que chegaram no Brasil principalmente em 1875 e, desde a década de 1970, são chamados de “trentinos”.

1) Os trentinos eram imigrantes austríacos ou italianos?

Sem dúvida, imigrantes austríacos porque filhos, netos, bisnetos, tetranetos de austríacos. Os imigrantes “trentinos” não eram imigrantes italianos – e não por causa de questões “partidárias” ou de “opinião”. Eram imigrantes austríacos porque nasceram na Áustria e não se definiam “trentinos”, mas Tiroleses.
Toda a região do Tirol esteve unida à Áustria de 1363 até 1918, ou seja, durante bons 555 anos – por mais tempo do que a idade atual do Brasil.
Em 1867, o Império da Áustria se uniu ao Reino da Hungria. Não formavam um único país e, por isso, os imigrantes não eram “austro-húngaros”, mas austríacos.
Somente após o final da Primeira Guerra Mundial, em 1918, a parte sul do Tirol (Trento e Bolzano) foi anexada pela Itália como conquista de guerra..

Austria-Hungria

Os territórios do Império da Áustria-Hungria.

 

2) Os trentinos sempre falaram o idioma italiano. Como podem ser imigrantes austríacos?

Assim como este texto está em português, mas não estamos em Portugal. A Áustria de cem anos atrás tinha mais de dez idiomas oficiais. A Suíça atual tem quatro idiomas oficiais (alemão, francês, italiano e romanche).
O Tirol é uma região trilíngue onde se fala o alemão, o italiano e o ladino. E pertenceu unido à Áustria por mais de 500 anos com seus três idiomas.
Todo imigrante tirolês que chegou ao Brasil até 1918 entrou com passaporte austríaco. E se ele era da região de Trento, seu passaporte estará em alemão e italiano.

Inno Austriaco - versione italiana

Livro escolar. Versão em italiano do hino imperial austríaco à época da imigração. Era ensinado nas escolas.

 

3) Por que meu avô diz que eles saíram da Itália?

Porque no século 19 a “península Itália” não era sinônimo de “país Itália”, muito menos de “nacionalidade italiana”. Era uma expressão geográfica, assim como Península Ibérica, que identifica Portugal e Espanha, ou como Escandinávia, que identifica a Noruega, a Suécia e a Dinamarca. Por isso era costume dizer que os imigrantes eram do Tirol Italiano, ou seja, a parte meridional do Tirol que era uma província do Império Austríaco.
O país Itália é recente, fundado a partir do reino de Savóia que anexou (com guerras) outros reinos e fundou o Reino da Itália em 1861. Poucos sabem que a causa da emigração foi a crise ocasionada quando o Vêneto foi anexado à Itália em 1866 e o crack na bolsa de Viena em 1873. Desde então, passaram-se apenas 9 anos até a grande emigração de 1875, tempo suficiente para a nova administração falir o Vêneto e a Lombardia e impor um verdadeiro boicote aos produtos tiroleses, gerando pobreza na fragilizada economia do pós-guerra. E deu no que deu: milhares de vênetos, lombardos e tiroleses emigraram para a América.

Italien 1356 2

Mapa de 1856 indicando a Itália geográfica. O Reino Lombardo-Vêneto unido à Áustria, mas somente a parte sul do Tirol (Trento) indicada como Deutschland (Alemanha, terra alemã), porque o Império Austríaco fazia parte da Confederação Germânica. De 1815 a 1866, o Vêneto esteve unida à Áustria, mas não fazia parte do território hereditário austríaco.

 

4 ) Os imigrantes trentinos se sentiam austríacos?

Sim e há muitos documentos e relatos da época que comprovam esse fato. Na história, Trento jamais se rebelou contra Viena e suas histórias se entrelaçam. Por exemplo: o bispo que batizou o imperador Francisco José de Habsburgo (esposo da famosa imperatriz Sissi e muito respeitado pelos imigrantes) era de Trento. O pai da legislação austríaca foi Carlo de Martini, um tirolês de língua italiana.
E vale lembrar que, apesar da difícil condição no campo, os imigrantes tiroleses eram alfabetizados. Isso por causa da política escolar austríaca do século XVIII, quando a Imperatriz Maria Teresa implantou a escola obrigatória no Sacro Império (do qual a Áustria era parte integrante). Na região trentina do Tirol, o ensino era feito em língua italiana, um dos idiomas oficiais do império.
Existem muitos relatos, registros e publicações que retratam o patriotismo austríaco dos imigrantes tiroleses no Brasil, até com casos de exageros. Existem relatos de “brigas” e “confusões” entre colonos tiroleses e italianos durante os anos da Primeira Guerra Mundial. Naturalmente, o bom convívio prevaleceu entre os imigrantes (com casamentos, inclusive), mas os tiroleses jamais renegaram suas origens e sua pátria austríaca, onde o idioma italiano era oficial à época da imigração.

consul Rio dos Cedros

Poema em língua italiana escrito em 1905 em Rio dos Cedros, Santa Catarina, durante a visita do cônsul austríaco Carlo Bertoni ao Vale do Itajaí.

 

5) Mas os imigrantes trentinos não tinham costumes italianos?

Eles eram tiroleses de língua italiana e, obviamente, tinham costumes e tradições tanto de sua região austríaca, como costumes semelhantes (quando não idênticos) aos seus vizinhos italianos do Vêneto e da Lombardia.
A cultura do Tirol Italiano é uma “mistura” de elementos do Norte da Itália e do Sul da Alemanha e por quê? Qual o país que fica entre a Alemanha e a Itália? A Áustria!
Os pratos mais típicos de Trento também são típicos na Áustria, como os Canederli (Knödel), Polenta e cràuti (Plenten mit Sauerkraut), Strangolapretti (Spinatnockerl) e o famoso vinho Teroldego (Tiroler Gold ou Tiroler Eck).
As danças típicas da região de Trento não são as tarantelas (guarde bem isso!), mas as valsas, polcas e a pàiris (Bairsich), assim como na Áustria e demais regiões alpinas. Os trajes típicos são os mesmos usados em outras regiões do Tirol, estados da Áustria e Baviera (Alemanha).
A região de Trento sempre foi chamada Tirol Italiano por causa da língua e hábitos. Assim são as regiões de fronteira., basta pensar na Suíça, onde existem 4 idiomas..

Compartimento Territoriale Tirolo Italiano 1868

Documento austríaco de 1868 indicando a parte de língua italiana do Tirol.

 

6) Então os trentinos não fazem parte da imigração italiana?

No máximo, poderiam ser incluídos no contexto dos imigrantes de língua italiana, mas eram imigrantes austríacos.
E basta ver os números oficiais da imigração italiana para que seja tirada qualquer dúvida.
Trento não está nas estatísticas oficiais da Itália porque a região de Trento era território da Áustria.
http://it.wikipedia.org/wiki/Emigrazione_italiana#/media/File:%C3%89migration_italienne_par_r%C3%A9gions_1876-1915.jpg

 

7) Mas a Áustria demonstra interesse pelo assunto?

Existem vários estudos austríacos sobre o assunto, embora pouco conhecidos no Brasil ou, por vezes, ignorados.
http://www.lateinamerika-studien.at/content/geschichtepolitik/brasilien/brasilien-21.html

 

8) E se nós quisermos comemorar a imigração de trentinos como italiana?

Como queiram. Talvez por desconhecimento? Talvez haja confusão por conta dos estereótipos? Talvez seja mais fácil (ou conveniente) colocar todos os imigrantes de língua italiana num mesmo “balaio”?
Estamos apresentando dados históricos e culturais que se comprovam com documentos e pesquisas sérias. Por isso, podemos dizer, sem medo de errar, que os trentinos não eram imigrantes italianos.

reisepass

Passaporte austríaco de um imigrante da região trentina do Tirol.

 

9) Mas e a questão da cidadania italiana?

Trata-se de uma lei especial (379/2000), aprovada na República Italiana e com período de vigência de dez anos (finalizado em 2010). A lei permitiu a solicitação da cidadania italiana aos descendente de imigrantes austríacos saídos de regiões que foram anexadas pela Itália após a Primeira Guerra Mundial.
Temos aí uma realidade peculiar: austro-brasileiros com nacionalidade italiana. E por que não?
É claro que a dupla nacionalidade tem seu valor. Porém, um documento não é suficientemente capaz de modificar a história, cancelar a cultura e as tradições dos imigrantes, muito menos “mudar” a nacionalidade dos imigrantes austríacos. É preciso ter bom senso.

 

10) Mas hoje Trento está na Itália. O que dizer sobre isso?

Sempre esteve onde está, muito antes do país Itália existir! 😉
Já se perguntou porque Trento é a capital de uma província autônoma e parte integrante de uma região autônoma?
As províncias de Trento e Bolzano (Tirol Meridional ou Südtirol/ Sudtirolo) formam uma região autônoma cuja autonomia é tutelada desde 1946 pela República Austríaca e garantida por meio do acordo internacional.
E, juntamente com o governo do Tirol austríaco, as províncias de Trento e Bolzano têm um escritório comum em Bruxelas, na sede da União Europeia (Europaregion/Euregio Tirol). Link.

Talvez você não saiba, mas até hoje os jornais locais de Trento e Bolzano publicam quase que semanalmente notícias e artigos onde são tratados não só assuntos ligados à autonomia, mas até mesmo a polêmica questão separatista. Basta uma pesquisa breve na Internet para achar vários sites e páginas de jornais que tratam desse tema ainda atual para a população de lá. Até mesmo para a população de Trento e Bolzano, a questão da dupla cidadania (austríaca) tem sido tema de calorosos debates. Há partidos políticos e grupos culturais que “pressionam” Viena para que conceda a dupla cidadania para os habitantes da Região Autônoma Trentino-Südtirol.

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13 comentários sobre “Perguntas do descendente de “trentinos”

  1. Adorei o Post !
    Gostaria de saber, já que sou descendente de Tiroleses , posso pedir nacionalidade Austríaca ? A Itália não concede mais o passaporte para os Tiroleses ? Como ficamos ?

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    • Prezada Sra. Silva:
      O intuito deste blog é tratar de temas referentes à imigração, cultura, história e identidade dos imigrantes tiroleses.

      A resposta será curta e direta: a Sra. não tem direito à nacionalidade austríaca, pois a atual República da Áustria não reconhece a dupla cidadania a descendentes de austríacos do antigo Império por motivos ligados ao Tratado de Saint-Germain, pós-Primeira Guerra. Quanto à cidadania italiana, no ano 2000, a Itália passou uma lei possibilitando aos descendentes de emigrantes de regiões que passaram para a Itália após a Primeira Guerra e, essa lei teve prazo de 10 anos para que esse pedido fosse feito. O prazo se esgotou em 2010. Não há previsão de que esse procedimento seja reaberto.

      Em suma, a Sra. não tem direito nem à cidadania austríaca e nem italiana. No entanto,a Sra.possui, assim como nós, a cidadania brasileira, da pátria que os imigrantes escolheram para chamar de sua.

      Att.
      Everton Altmayer

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  2. QUE LEGAL, EVERTON, PUXA ANTES DE EXISTIR A ITALIA COMO PAIS JÁ EXISTIA O TIROL. ENTAO EU SOU BEM AUSTRIACA, JÁ QUE OS MEUS ANCESTRAIS SAO GIACOMELLI, RAUTA, MOSCHEN, LORENZINI E SARTORI. CONHEÇO BOA PARTE DELES E SEMPRE VOU A TRENTO E AO MEU PAEZE, BARCO DI LEVICO.

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  3. Olá, Everton. Muito obrigado pelos seus preciosos esclarecimentos.
    A família paterna (Trettel) de minha esposa é tirolesa, e a nonna sempre se considerou austríaca, jamais se considerou italiana. Nasceu em 1911, emigrou em 1924, já como italiana devido ao Tratado de Saint-Germain (16/07/20).
    Acho super legal conhecer a história – na verdade, imprescindível!

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  4. Olá. Pesquisando meus antepassados, descobri que tenho uma trisavô Austríaca Giuditta Cuppini (ou Coppini / Cupim), filha de Giovanni e Teresa. Ela se casou no Brasil em 1886, porém não encontro informações sobre a chegada da família no Brasil, nem do comune de origem. Vc tem alguma dica de onde procurar? Grata

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  5. Srs. Meu bisavó (Theodor Sulzer – nascido entre 1839(sem local especificado) e falecido em 1899 em Santos(SP)) foi professor de musica em Santos no Convento da Escola de Meninas, fundada pela Sra. Mariana Hamberguer, austríaca, de nascimento e muito ligada na época a Igreja do Sagrado Coração de Jesus. Tenho buscado informações da origem do meu bisavó, que consta na certidão de óbito como alemão naturalizado, porem como não descobri nada através das entradas de imigrantes alemães e tenho observado diversos relacionamentos dele na época com pessoas de descendência austríaca. Vocês teriam alguma indicação de algum site ou de registros, onde possa consultar se houve entrada dele como imigrante austríaco?

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    • Prezado Sr. Sulzer:

      O nome Sulzer ocorre na Áustria. Na região tirolesa existe e inclusive em Trento. Muito provavelmente Theodor Sulzer era austríaco, mas o ideal seria consultar documentos de antepassados até chegar no imigrante em questão.

      Att.

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