História não se muda!

Austria-Hungria

No dia 12 de janeiro deste ano de 2018, a presidência nacional sancionou um projeto de lei que atribui à cidade de Santa Teresa, no Espírito Santo, o título equivocado de município pioneiro da imigração italiana no Brasil.

Equívoco? Sim. A Lei Federal 13.617/2018, sancionada pelo presidente Michel Temer e publicada no Diário Oficial da União, infelizmente não se baseia em fatos históricos.

Os principais motivos do equívoco são:

1 – A escolha de Santa Teresa se baseou na data de chegada do navio La Sofia ao Espírito Santo, ligado àquela que ficou conhecida como Expedição Tabacchi, ocorrida em 1874. Todavia, a expedição foi chefiada por um cidadão austríaco natural de Trento e chamado Pietro Tabacchi e a viagem foi feita com maioria absoluta de imigrantes austríacos.

2 – A primeira experiência de colonização com imigrantes de língua italiana é de 1836 (ou seja, 38 anos anos antes), com a fundação da Colônia Nova Itália, no território que atualmente se encontra no município de São João Batista, em Santa Catarina.

 

Então por que Santa Teresa?

Não é de hoje que alguns capixabas têm divulgado ser Santa Teresa a “primeira cidade italiana do Brasil”. O problema não está na reivindicação em si, mas no material usado para tal argumentação. No ano de 2015, o Blog Tiroleses do Brasil já havia alertado sobre o equívoco em um texto.

O documento que garantiu à cidade capixaba o título foi, infelizmente, mal interpretado do ponto de vista histórico. Trata-se de um pedido de ressarcimento escrito em português e feito em nome de um colono tirolês chamado Francesco Merlo (portanto, um austríaco de língua italiana) que queria a devolução do dinheiro gasto para emigrar da Europa para o Brasil a bordo da Expedição Tabacchi de 1874.

No primeiro trecho seu pedido, consta a seguinte informação:

“Francesco Merlo, colono italiano estabelecido na Colônia de Santa Leopoldina, no Districto de Timbuhy à margem da estrada de Santa Thereza, que tendo sido por Pedro Tabaqui (sic) em Trento na Itália comunicado para vir para seu estabelecimento a fim de ser colono”.

Pedido de Francesco Merlo 1875

O leitor atento não questionará o documento, mas o problema está exatamente na “comprovação”, isto é, na interpretação do documento. Isso só é possível a partir dos fatos históricos.

Talvez a “pista” mais óbvia esteja no próprio documento! Ali encontremos a informação sobre o imigrante ter pedido a restituição do valor que gastou para imigrar: 122 florins.

Qual era a moeda corrente do então Reino da Itália em 1874? Era a Lira Italiana. Mas o imigrante Francesco Merlo não pagou a passagem com nenhuma lira. Ele pagou com 122 florins. E qual nação utilizava o florim? O Império Austríaco.

Francesco Merlo chegou ao Brasil em 1874 a bordo do navio La Sofia, juntamente a esposa Dalila Cappelletti e mais quatro filhos. Francesco e sua esposa vieram de Covelo, no Tirol Italiano ou Tirol Meridional, território que pertenceu à Áustria de 1363 a 1918 (555 anos) e atualmente compõe a Província Autônoma de Trento, na Itália.

Todos os membros da família entraram no Brasil apresentando passaporte austríaco. O pedido do imigrante é datado de 1874, mas foi deferido pelo então presidente da Província do Espírito Santo em 1875. Não foi escrito pelo imigrante e isso se nota facilmente ao compararmos a caligrafia. Francesco Merlo apenas assinou o documento, haja vista que o valor gasto com a viagem não foi reembolsado por Pietro Tabbachi.

Passaporte imigrante Tirol Santa Teresa

Passaporte de imigrante austríaco de Strigno, distrito de Borgo (Valsugana). Escrito em alemão e italiano, idiomas oficiais da província do Tirol e do Império Austríaco.

 

 

Como era possível que um imigrante austríaco fosse identificado como “colono italiano” e que no documento conste a informação “Trento na Itália”?

Por mais estranho que possa parecer em um primeiro momento, tais informações não indicam contradição em se tratando do Tirol e do Império Austríaco.

A expressão Itália, até 1918, não indicava somente o Reino da Itália, mas toda a Península Itálica, onde há séculos convivem diferentes realidades étnicas e linguísticas. Vale lembrar que o Império da Áustria, unido ao Reino da Hungria, era formado por austríacos de língua alemã, italiana, friulana, ladina, tcheca, eslovaca, eslovena, polonesa etc.

 

Italia 1874 Tirol

Mapa da Itália geográfica (1874). No alto, a região sul do Tirol incluída geograficamente na Itália e politicamente no Império da Áustria.

 

O território de Trento era conhecido como Tirolo Italiano (em alemão Welschtirol ou Welsch-Südtirol) não apenas pelo idioma predominante, mas também por uma questão geográfica, embora estivesse unido à Áustria desde 1363. Vale lembrar que o Império Austríaco e o Reino da Hungria estavam unidos em um acordo político chamado de Austro-Húngaro, mas que não mesclava as monarquias que tinham seu próprio parlamento e leis, mesclando o exército e algumas outras funções. O Tirol era um território austríaco e seus habitantes eram cidadãos da Áustria.

Linguas imperio

Povos e língua do Império Austro-húngaro.

 

A atual Áustria é um pequeno país com maioria de população de língua alemã. Trata-se de uma realidade de 1920, ou seja, criada após a Primeira Guerra Mundial (1914 – 1918) e após o fim da monarquia austríaca. O que havia antes da Primeira Guerra era uma monarquia com vários idiomas oficiais, reconhecidos em par de igualdade pelo antigo Parlamento de Viena.

Pietro Tabacchi

Pietro Tabacchi

A Expedição Tabacchi foi assim chamada porque chefiada pelo imigrante austríaco Pietro Tabacchi (Trento, ? – Santa Cruz, 1874), filho de Bartolo Tabacchi e Giuseppina Vettorazzi. Comerciante assim como o pai, após a falência de seus negócios na terra natal, transferiu-se para o Brasil para se livrar dos credores e, desde meados de 1855, comercializava madeiras nobres no Espírito Santo. É o primeiro tirolês de língua italiana de que se tem notícia no Brasil. Em 1874, Tabacchi trouxe imigrantes tiroleses (austríacos) e vênetos (italianos) para se trabalharem na Colônia Nova Trento (fazenda Santa Cruz), de sua propriedade. A colônia recebeu este nome em homenagem à cidade natal do fundador, mas tratou-se de uma experiência frustrada porque boa parte dos colonos não concordou com as cláusulas contratuais estabelecidas e se revoltaram. Por conta das várias reivindicações dos colonos houve, inclusive, com algum auxílio do Consulado Austríaco no Rio de Janeiro.

Diante do ocorrido, Pietro Tabbachi fez circular um aviso:

aviso Pietro Tabacchi 1874

 

A situação se tornou quase que fora de controle e as consequências foram desastrosas para Pietro Tabacchi que faleceu devido a um infarto (atribuído às preocupações que teve). Em uma nota publicada no ano de 1876, a representação consular austríaca se manifesta sobre os espólios do imigrante tirolês Pietro Tabacchi.

Pietro Tabacchi austriaco

 

Eis a lista com o sobrenome e nome dos imigrantes (chefes de família) da Expedição Tabacchi (1874), seguida do nome da localidade de origem, província e nação:

Abdermarcher Domenico – Roncegno (Tirol, Império Austríaco)
Angeli Giobatta – Novaledo (Tirol, Império Austríaco)
Armallao Andrea – Borgo Valsugana (Tirol, Império Austríaco)
Armellini Marcellino – Roncegno (Tirol, Império Austríaco)
Bassetti Giovanni – Lasino (Tirol, Império Austríaco)
Beber Valentino – Tenna (Tirol, Império Austríaco)
Bertotti Giuseppe – Cavedine (Tirol, Império Austríaco)
Betti Giovanni – Tenna (Tirol, Império Austríaco)
Bolin Valentino – ? (Vêneto, Reino da Itália)
Bolognani Fioravante – ? (Tirol, Império Austríaco)
Bolognani Giovanni – ? (Tirol, Império Austríaco)
Boneccher Antonio – Borgo Valsugana (Tirol, Império Austríaco)
Boneccher Prospero – Borgo Valsugana (Tirol, Império Austríaco)
Bortolletti Simone – Vezzano (Tirol, Império Austríaco)
Capelletti Giobatta – Roncegno (Tirol, Império Austríaco)
Comper Leonardo – Besenello (Tirol, Império Austríaco)
Corn Domenico Valentino – Roncegno (Tirol, Império Austríaco)
Corn Guerino – Novaledo (Tirol, Império Austríaco)
Corn Pietro Paolo – Roncegno (Tirol, Império Austríaco)
Corradi Benedetto – Stenico (Tirol, Império Austríaco)
Damasco Paolo – Villa del Banale (Tirol, Império Austríaco)
Delana Giovanni – ? (Tirol, Império Austríaco)
Demoner Giuseppe – ? (Vêneto, Reino da Itália)
Fedele Andrea – Telve (Tirol, Império Austríaco)
Felicetti Domenico – Roncegno (Tirol, Império Austríaco)
Franceschini Leonardo – Vigolo? (Tirol, Império Austríaco)
Furlan Antonio – Novaledo (Tirol, Império Austríaco)
Fusinato Osvaldo – Roncegno (Tirol, Império Austríaco)
Gaiotto Antonio – Borgo Valsugana (Tirol, Império Austríaco)
Giacomozzi Domenico – Segonzano (Tirol, Império Austríaco)
Giuliani Luigi – Roncegno (Tirol, Império Austríaco)
Guazzo Marco – Borgo Valsugana (Tirol, Império Austríaco)
Ladini Sebastiano – Vêneto (Reino da Itália)?
Lazzari Annibale – ? (Tirol, Império Austríaco)
Lira Giacomo – Castelnuovo (Tirol, Império Austríaco)
Margoni Costante – ? (Tirol, Império Austríaco)
Martignoni Giuseppe – Novaledo (Tirol, Império Austríaco)
Martinelli Domenico – Centa (Tirol, Império Austríaco)
Merlo Enrico – Covelo (Tirol, Império Austríaco)
Merlo Francesco – Covelo (Tirol, Império Austríaco)
Merlo Giuseppe – Covelo (Tirol, Império Austríaco)
Merlo Paolo – Covelo (Tirol, Império Austríaco)
Merlo Tommaso – Covelo (Tirol, Império Austríaco)
Moratelli Tiziano – Novaledo (Tirol, Império Austríaco)
Motter Clemente – Borgo Valsugana (Tirol, Império Austríaco)
Palaoro Daniele – Novaledo (Tirol, Império Austríaco)
Paoli Giuseppe – Novaledo (Tirol, Império Austríaco)
Passamani Domenico – Tenna (Tirol, Império Austríaco)
Perli Giobatta – Roncegno (Tirol, Império Austríaco)
Perotti Valentino – ? (Tirol, Império Austríaco)
Piovesan Pietro – ? (Treviso, Reino da Itália)
Romagna Ermenegildo – Roncegno (Tirol, Império Austríaco)
Rosanelli Giacomo – Tenna (Tirol, Império Austríaco)
Serafini Antonio – Tenna (Tirol, Império Austríaco)
Slomp Bortolo – Levico (Tirol, Império Austríaco)
Slomp Giovanni – Levico (Tirol, Império Austríaco)
Stroppa Prospero – Borgo Valsugana (Tirol, Império Austríaco)
Tesainer Giuseppe – Roncegno (Tirol, Império Austríaco)
Toler Pietro Giovanni – Roncegno (Tirol, Império Austríaco)
Tonini Annibale – Novaledo (Tirol, Império Austríaco)
Tonini Giobatta – Novaledo (Tirol, Império Austríaco)
Tonini Lazaro – Novaledo (Tirol, Império Austríaco)
Valandro Francesco – Castelnuovo (Tirol, Império Austríaco)
Venzo Giovanni – Borgo Valsugana (Tirol, Império Austríaco)
Verones Domenico – Covelo (Tirol, Império Austríaco)
Verones Vincenzo – Covelo (Tirol, Império Austríaco)
Zambelli Giuseppe – ? (Tirol, Império Austríaco)
Zamprogno Luigi – Montebelluna (Treviso, Reino da Itália)
Zamprogno Sebastiano – Montebelluna (Treviso, Reino da Italia)
Zen Andrea – Novaledo (Tirol, Império Austríaco)
Zottele Fortunato – Roncegno (Tirol, Império Austríaco)
Zottele Pietro – Roncegno (Tirol, Império Austríaco)
Zurlo Abramo – Novaledo (Tirol, Império Austríaco)

 

Imigrante Venancio Loss

Imigrante austríaco do Tirol radicado em Santa Teresa/ES.

 

 

 

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4 comentários sobre “História não se muda!

    • Bom dia Everton
      Agradecemos pelo farto material encaminhado e informamos que já publicamos diversas matérias sobre o assunto. Inclusive nessa edição vai sair matéria sobre isso.
      Att
      Helder

      Curtido por 1 pessoa

  1. A verdade é uma só. A mentira tem que ser muito bem combinada.
    Percebe-se, no presente caso, que não foi adequadamente combinada.
    Sou capixaba e resido em Minas Gerais e também entendo que isso deve ser imediatamente revertido.

    Abraço a todos!!

    Valentim Calenzani – 4/7/18

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