Do Império Austro-húngaro à Colônia Blumenau: duas marcas pouco lembradas

O Blog Tiroleses no Brasil publica uma contribuição a nós enviada por Andrey Taffner, descendente de tiroleses natural de Rio dos Cedros, em Santa Catarina, residente em Blumenau, onde atua como advogado. Seu texto traz interessantes aspectos da história da antiga Colônia Blumenau e da contribuição dos imigrantes tiroleses. Boa leitura!

Blumenau, cidade conhecida pelas marcas da colonização alemã (especialmente da região norte da Alemanha), também ostenta forte influência da colonização oriunda do extinto Império Austro-Húngaro.

Dr. Hermann Bruno Otto Blumenau (Hasselfelde, 1819 — Braunschweig, 1899), fundador da Colônia São Paulo de Blumenau, com a esposa Bertha Louise Repsold.

A partir de 1875, com o forte declínio da emigração alemã, o que tolheu de Blumenau os muito necessários braços para dar andamento ao empreendimento colonizador, abriram-se as portas para os imigrantes de língua italiana, em sua maioria oriundos do Tirol, no Império Austro-Húngaro, mas também do Vêneto e da Lombardia, no Reino da Itália.

Mapa dos lotes coloniais de Rio dos Cedros, com destaque para o Caminho dos Pomeranos e dos Tiroleses. Fonte: Arquivo da Prefeitura de Rio dos Cedros.

Esses imigrantes, seguindo o caminho já traçado pelos colonizadores alemães, estabeleceram-se no “Caminho dos Pomeranos” (Pommernstrasse), formando as comunidades que, futuramente comporiam a cidade de Rio dos Cedros. Costumavam chamá-lo de “Pomerstross”, com sua pronúncia austríaca. Mais adiante, abriram outra via de colonização, desta vez batizada pelos próprios imigrantes com o nome de “Caminho dos Tiroleses”, em homenagem à terra natal (esse caminho hoje se encontra dividido entre os municípios de Rio dos Cedros e Timbó).

Na sequência, outra linha de colonização foi aberta, formando a “Picada de Rodeio”, atual cidade de Rodeio.

Imigrantes tiroleses com seus filhos e netos em Rodeio.

Esses três caminhos são a base da colonização do Império Austro-Húngaro em Blumenau. Registra-se, porém, que outros colonizadores ainda se fixaram nos territórios das atuais cidades de Ascurra, Apiúna ou mesmo na sede de Blumenau. Essa colonização, naturalmente, deixou fortes marcas na região, até hoje percebidas, inclusive no dialeto trentino ainda falado por muitos descendentes.

Vamos nos atentar agora a duas marcas que, por vezes, passam despercebidas:

A primeira diz respeito ao Consulado Austro-Húngaro que existiu no interior da colônia.

Casa Hoeschl, na comunidade de Warnow, em Indaial. A residência sediou o consulado honorário do Império Austro-Húngaro na Colônia Blumenau.

Conforme a pesquisadora Angelina C. Wittman (1) , o casarão da família Hoeschl, na localidade de Wornow (atualmente pertencente ao município de Indaial), começou a ser construído por volta de 1870; foi casa residencial e comercial do sr. Leopoldo Franz Hoeschl, primeiro cônsul do Império Austro-Húngaro na Colônia Blumenau.

Leopold Franz Hoeschl

Leopold Franz Hoeschl, conforme autobiografia publicada na revista Blumenau em Cadernos (2), nasceu aos 27/10/1850, na cidade de Biala, atualmente denominada Bielsko-Biala e pertencente à Polônia, mas antigamente pertencente ao Império Austro-Húngaro. Ante a determinação de seu pai de emigrar para o Brasil, Leopold o acompanhou. Exerceu diversas funções em localidades como Gaspar e Desterro (Florianópolis). Já na década de 1870, adquiriu o terreno na localidade de Warnow, naquele tempo ainda pertencente a Blumenau, onde construiu sua casa comercial. Em 1893, quando Indaial se desmembrou de Blumenau (Warnow então passou a pertencer a Indaial), Leopold exerceu diversas funções políticas, de renome municipal e estadual. Em 1899, realizou viagem à sua terra natal, na Europa. Foi em tal ocasião que recebeu a honrosa incumbência de ser cônsul honorário do Império Austro-Húngaro.

Sua neta, Lieselotte Hoeschl Ornellas, deixou escrito precioso (3), que hoje pode ser consultado no Arquivo Histórico de Blumenau, no qual constam as seguintes passagens sobre esse episódio:

“Depois de ter conquistado uma situação financeira razoável, em 1899, Leopoldo pode realizar um sonho há muito acalentado, de visitar com sua esposa e seu primogênito o lugar de origem do casal. Visitaram parentes em Biale e em Halle […].

“Além das ótimas lembranças que trouxeram da viagem, o que importa ressaltar é que foi concedido a Leopoldo Hoeschl o honroso cargo de Cônsul Austríaco, por mérito de sua conhecida atuação e intercâmbio e relacionamento entre imigrantes e visitantes que vinham ao Brasil. Em decorrência disto, ao regressar, ostentava na fachada mais alta da casa do Warnow um vistoso brasão com as armas Austro-Húngaras, para seu orgulho e para alegria da família”.

Ainda segundo relato de Lieselotte Hoeschl Ornellas, o título de cônsul austro-húngaro foi reconhecido em Blumenau somente em 20/09/1909, por meio do Decreto n. 467.

Até hoje é possível admirar o que restou do antigo casarão da família Hoeschl, na localidade histórica do Warnow. É interessante notar que tal edificação, de fato, encontrava-se próximo aos imigrantes oriundos do Império Austro-Húngaro, especialmente aqueles estabelecidos na localidade de Rodeio.

Após o término da primeira guerra mundial e com a assinatura do Tratado de Saint Germain (1919), o Império Austro-Húngaro foi dissolvido. Atualmente Blumenau, a exemplo da cidade catarinense de Treze Tílias, possui representação consular austríaca.

Outra marca por vezes esquecida, diz respeito ao próprio brasão de Blumenau.

Brasão do Município de Blumenau.

O brasão foi instituído pela Lei municipal n. 19 de 01/06/1948. Anos depois, foi instituída a bandeira, da qual passou a fazer parte o brasão (Lei municipal n. 1.287, de 20/11/1964).

Dentre os muitos símbolos que o compõe, um nos chama a atenção: é a águia do Tirol. Ela parece um pouco modificada, mas isso se deve ao fato de estar mesclada com a águia da Prússia, homenageando assim duas terras de onde vieram muitos imigrantes para Blumenau.

Consta do art. 4º da Lei municipal n. 19 de 01/06/1948:

Consta do art. 4º da Lei municipal n. 19 de 01/06/1948:

“Exprime essa combinação que Blumenau, fundação do ilustre civilizador que lhe deu nome, Dr. Hermann Blumenau, contava nos seus primeiros dias, colonos sobretudo prussianos, saxônios, bávaros, tirôleses e wuertenburguêses. Essas procedências estão recordadas pelo leão leopardo que é de Brunswick (Pátria do Dr.Blumenau) e de Wuertenberg, pela águia que é da Prússia e de Tirol, pelo leão que é da Baviéra e o crancelim que é da Saxônia, colocados nos quartéis do chefe e da ponta”.

Já o escritor José Ferreira da Silva (4) relata que:

No ângulo de senestra do chefe, em campo de prata, está a águia estendida de preto, bicada, sancada e coroada de ouro, com as asas ligadas do mesmo, tendo à destra um cetro e à senestra um gládio. É a águia da Prússia e do Tirol, de onde vieram muitos imigrantes”.

Estas marcas, nem sempre lembradas, dão testemunho de uma colonização muito particular que teve papel importante no desenvolvimento de Blumenau e do Médio Vale do Itajaí.

Notas bibliográficas:

1 – WITTMAN, Angelina C. A técnica construtiva enxaimel. Blumenau: AmoLer Editora, 2019, p. 232.

2 – HOESCHL, Leopold. Figuras do Passado. Revista Blumenau em Cadernos. Blumenau, tomo III, nº 12, dez. 1960, p. 225-228.

3 – ORNELLAS, Lieselotte Hoeschl. Meu caleidoscópio: a história de Leopoldo Francisco Hoeschl e seus descendentes. Monografia disponível no Arquivo Histórico de Blumenau, p. 36-37.

4 – Livro do Centenário de Blumenau:  1850 – 2 de setembro – 1950. Blumenau: Edição da Comissão de Festejos, 1950, p. 3.

4 comentários em “Do Império Austro-húngaro à Colônia Blumenau: duas marcas pouco lembradas”

  1. Cumprimentos ao Andrey pelo bonito texto com tão preciosas informações. Não o conheço pessoalmente mas já trocamos vários e-mails. O Andrey é uma dessas pessoas que está sempre dando a sua contribuição à história dos tiroleses e italianos.

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  2. Atualmente resido em Rio do Sul, mas sou de Rodeio. Quando vou à Blumenau, sempre passo pela estrada do Warnow, pois adoro ver as casas antigas que existem nesta região.
    Vi várias vezes a casa Hoeschl, mas não sabia que esse casarão abandonado guardava uma parte tão importante da história da região.
    Parabéns ao autor deste artigo, por resgatar essa história!

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