O tirolês que fundou Gramado – RS

O Blog Tiroleses no Brasil publica uma importante contribuição do amigo e pesquisador César Girardi, descendente de tiroleses da cidade de Porto Alegre, Rio Grande do Sul. Neste texto, discute-se a verdadeira origem de José Nicoletti Filho, considerado o fundador da cidade de Gramado, imigrante nascido Giuseppe Luigi Nicoletti na localidade de Sporminore, no Tirol, Império Austríaco.

JOSÉ NICOLETTI FILHO (1871-1937)

Quem foi o renomado Major Nicoletti? Foi um revolucionário, sub-intendente, topógrafo, delegado e líder comunitário que fundou um dos municípios mais visitados do Brasil, a cidade de Gramado no Rio Grande do Sul.

Trata-se de um imigrante austríaco, nascido Giuseppe Luigi Nicoletti em Sporminore, Província do Tirol, a 23 de fevereiro de 1871 e falecido em Gramado aos 66 anos, em 5 de dezembro de 1937.

Major José Nicoletti Filho.

A família Nicoletti era composta por Giuseppe Nicoletti, sua esposa Teresa Costa e os filhos Teresa, Maria, Giuseppe e Carolina. Em 1876, juntamente com outras famílias, os Nicoletti deixaram o Tirol, no Império Austríaco, chegando ao porto do Rio de Janeiro em 31 de julho de 1876, a bordo do navio Ester, procedente de Gênova.

Registro de entrada da família Nicoletti no Rio de Janeiro, na lista dos imigrantes do Tirol, Áustria.

Após o desembarque, seguiram para as colônias do Rio Grande do Sul e se estabeleceram em Caxias do Sul, na VIIª légua, travessão Dom Pedro II, lote 35.

Levantamento dos lotes na Colônia Caxias, habitada por várias famílias tirolesas.

Quando os Nicoletti emigraram no Brasil, o pequeno Giuseppe tinha então 5 anos de idade.

As famílias que povoaram a Colônia Caxias, no Rio Grande do Sul. Clique na imagem para ampliá-la

O filho Giuseppe ficou conhecido no Brasil como José Nicoletti Filho e passou os primeiros anos de sua vida junto à família, trabalhando na área rural. José cresceu, seguiu carreira militar, casou-se e se divorciou. Mais tarde, teve pelo menos 4 filhos com Amélia Huff: Anita, Célia, Diva e José Nicoletti Neto.

Retrato do major José Nicoletti Filho.

Em 1895, José se filiou ao Partido Republicano, sendo convidado para trabalhar no policiamento da região serrana e na posterior nomeação do presidente do estado como membro da Comissão Executiva aos Novos Núcleos Serranos e seus Vilamentos.

Em 1904, o Major Nicoletti assumiu todas as funções do 5º Distrito de Taquara, hoje município de Gramado, sendo considerado o fundador do município.

Em 1912, lançou a idéia da construção de uma ponte no lugar denominado Raposo, na divisa de Caxias do Sul com Gramado, antigo passo de um antigo caminho de tropeiros. O trecho foi construído a pás e picaretas e com o tempo foi alargado para a passagem de carretas. As peças de aço Krupp foram importadas diretamente da Alemanha e levadas pela via férrea cuja construção ele também coordenara. Hoje, a “Ponte do Raposo” se chama oficialmente “Ponte Major José Nicoletti”.

Ponte Major José Nicoletti, entre Gramado e Caxias do Sul.

Junto ao arcebispo de Porto Alegre, Dom João Becker, José Nicoletti participou da fundação da Igreja Matriz São Pedro de Gramado. A praça em frente à paróquia também tem leva o nome, fruto da admiração e prestígio que tinha entre a comunidade gramadense.

Igreja de São Pedro.

O major Nicoletti é também o Patrono do 1º BPAT da Brigada Militar do Rio Grande do Sul.

Busto do Major José Nicoletti Filho em Gramado. Na placa, consta que sua família era parte da Imigração Italiana, mas eles eram austríacos de língua italiana.
A placa junto ao busto do Major Nicoletti indica que a família chegou durante o fluxo da “Imigração Italiana”. Contudo, é possível considerá-la como fluxo de imigrantes de língua italiana, pois juntamente com os tiroleses , cidadãos austríacos, também vieram imigrantes saídos do Vêneto, da Lombardia e demais regiões do Reino da Itália.

A casa onde o primeiro administrador de Gramado viveu foi registrada como patrimônio cultural e está, atualmente, sendo restaurada para a instalação do futuro Museu Major José Nicoletti, que irá contar a história da família Nicoletti e demais famílias que contribuíram para que a bela cidade de Gramado se tornasse uma cidade com projeção nacional e internacional.

Antiga residência do Major José Nicoletti Filho.

ERRO NA WIKIPEDIA

No portal Wikipedia, o Major Nicoletti é apresentado como sendo um imigrante oriundo do Veneto, ou seja, nascido na Itália, o que é um erro que deve ser corrigido, em respeito a esse tirolês de cepa austríaca.

Site da Wikipedia indicando erroneamente a nacionalidade de José Nicoletti Filho.

A confusão também se faz porque muitas pessoas não sabem que no antigo Império Austríaco, o idioma italiano também era oficial e que os tiroleses de língua italiana eram cidadãos da Áustria. No Brasil, quem falava italiano era automaticamente considerado “imigrante italiano” e quem falava alemão era “imigrante alemão”. Mas a Áustria era um país com vários idiomas oficiais e seus cidadãos se consideravam austríacos. Com a Primeira Guerra, o antigo império foi dissolvido e o Tirol ficou dividido entre a Áustria e a Itália.

O passado austríaco dos tiroleses foi apagado após a região ter sido incorporada pela Itália, agravando-se durante o período do fascismo de Mussolini, que proibiu o dialeto, bem como o uso das palavras Tirol e tirolês para se referir à população da região trentina, com o objetivo de italianizar a região. Em função disso, muitos descendentes de tiroleses aqui no Brasil desconhecem suas verdadeiras raízes, as austríacas, pensando serem descendentes de imigrantes italianos.

Sobre essa injustiça histórica e desconhecimento, tal realidade só se restabelece quando um descendente de tiroleses (trentinos) vai em busca da dupla cidadania italiana, pois sabe que seus antepassados vieram de cidades que hoje estão na Itália. Mas, ao chegar junto ao consulado, recebe a informação de que “seus antepassados não eram italianos”, porque saíram do Império Austro-Húngaro.

É preciso respeitar e conhecer o passado, ou nas palavras do escritor trentino Giuseppe Matuella, autor de livros sobre o Tirol: L’amore per le proprie radici e l’onestà di rispettare quelle degli altri (“Amor pelas próprias raízes e honestidade para respeitar a dos outros”).

César Girardi

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Nota do Blog Tiroleses no Brasil

O sobrenome Nicoletti é famoso no Tirol, pois recorda Angela Nikoletti, professora perseguida, presa e morta durante a ditadura fascista por continuar a ensinar clandestinamente o idioma alemão aos seus alunos. Naquele tempo, os professores tiroleses eram substituídos por professores vindos de outras regiões da Itália, no intuito do governo em obter mais êxitos na doutrinação política das crianças.

Visto que Angela era professora em Margreid/Magrè, cidade próxima à cidade de Bolzano, o idioma alemão era falado pelos alunos, mas proibido pelo novo regime. Angela se negou a deixar de ensinar as crianças e foi por isso presa e torturada. Na prisão, a jovem professora escrevia poemas sobre a liberdade e o Tirol. Todos os anos, em sua cidade natal, ocorre uma homenagem pública em sua memória.

Angela Nikoletti, professora e vítima da ditadura fascista contra os tiroleses.

5 comentários em “O tirolês que fundou Gramado – RS”

  1. Me chamo Pedro Guetter, sou de Curitiba, tenho 70 anos, e quando adolescente ouvia de meu pai Emilio Guetter (nascido em 1917 em Curitiba e falecido em Curitiba em 1982), histórias de meu avô João Guetter (Johannes Kitner) imigrante do antigo Império Austro-Húngaro, que viera da Europa em 1894, com 19 anos, se estabeleceu em Curitiba onde se casou e constituiu família e vindo a falecer em 1952. Meu pai comentava que este meu avô vivera no Tirol. Tenho uma certidão de batismo deste meu avô onde consta que ele foi batizado na cidade de Ternopol, hoje pertencente à Ucrânia. Lamentavelmente nossa família pouco ou quase nada tem de informações sobre este meu avô João. Talvez alguém que lê este blog possa me auxiliar em informações que me ajudem a descobrir outras deste meu ancestral

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  2. Meu bisavô  Alfredo Baptista Sasso veio do Tirol para o Brasil antes da proclamação da República. Com a Proclamação foi naturalizado brasileiro devido a lei da época, ele não requereu sua cidadania original. Como posso pedir cidadania italiana? . A Áustria não aceita esta minha cidadania, já me informei. Gostaria que me orientassem sobre o que posso fazer????

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  3. Que legal descobrir que o fundador da minha cidade natal nasceu e veio da mesma região do norte da Itália (na época império Austro Húngaro), que o meu trisavô e meu tataravô, ambos vieram de Rovereto e também no mesmo ano que o Major! Feliz coincidências!!! Eu sei daquelas dificuldades de conseguir tanto as cidadanias italianas quanto austríaca, mas tem outra parte da minha família da qual não erdei o sobrenome da minha nonna que era Benetti, que vieram do Veneto, será que por esse outro lado conseguiria a cidadania???

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