A cultura trentina

A estereotipação de uma cultura ancestral quase sempre nasce de um processo duplo: desconhecimento histórico e necessidade identitária. Quando uma comunidade perde — ou transforma — elementos essenciais de sua identidade original, surge a tentação de substituí-los por símbolos mais visíveis, populares ou socialmente valorizados. O caso dos tiroleses de língua italiana da região de Trento é um exemplo emblemático desse fenômeno no Brasil.


Contexto histórico: quem eram os tiroleses trentinos?

Até 1918, a região de Trento (o atual Trentino) fazia parte do Império Austríaco. Seus habitantes eram cidadãos austríacos, ainda que a maioria deles falasse o italiano e os dialetos da região, de origem latina. Culturalmente, os tiroleses estavam inseridos no universo político, administrativo e simbólico da Áustria daquela época, onde o idioma italiano era uma língua oficial do império. Além disso, durante quase mil anos, a região do Tirol histórico esteve unida à Áustria — trata-se de região alpina ligada à tradição cultural alpina e centro-europeia.


Quando milhares desses tiroleses de língua italiana emigraram para o Brasil, especialmente no final do século XIX, eles vieram com passaportes austríacos, sob bandeira austríaca e com mentalidade moldada por séculos de pertencimento ao mundo alpino austríaco. Sua religiosidade, arquitetura rural, organização comunitária e trajes típicos eram profundamente marcados por essa matriz tirolesa.

A língua italiana nunca foi um contraposto ao mundo em que viviam, mas fazia parte dele como autêntico patrimônio cultural do Império Austríaco. Grandes personagens da história austríaca tinham como língua materna o italiano, dentre eles o tirolês Carlo Martini, pai do código civil austríaco, cuja estátua se encontra em um dos mais importantes monumentos na cidade de Viena.


Contudo, após a Primeira Guerra Mundial (1914 – 1918), o território tirolês foi dividido; a parte norte continuou com a Áustria e a parte sul foi anexada ao Reino da Itália. Poucos anos depois, o fascismo se tornou o regime oficial na Itália e, a partir daí, iniciou-se um processo intenso de italianização política e cultural dos tiroleses, com milhares de casos de violência física e psicológica, assassinatos e punições severas contra a identidade local. A memória austríaca foi sendo silenciada ou reconfigurada, considerada um “tabu” a ser esquecido.

A região do Tirol histórico.

A discussão sobre identidade cultural dos tiroleses de língua italiana vindos da região de Trento exige distinguir três momentos:
1 – a cultura que trouxeram da Europa;
2 – a cultura que efetivamente se preservou no Brasil até meados do século XX;
3 – a reconfiguração identitária ocorrida a partir da organização associativa formal, especialmente após a criação dos chamados círculos trentinos.

Até aproximadamente os anos 1970, nas antigas colônias do Sul e Sudeste do Brasil, ainda se encontravam traços relativamente orgânicos da cultura trazida pelos imigrantes da região trentina do Titol (então cidadãos do Império Austríaco):

1 – Dialeto e oralidade
O dialeto trentino, chamado pelos descendentes dialèt tiroles — com suas variações locais — era falado no ambiente doméstico como língua principal das famílias. Não se tratava do italiano padrão, mas de falares regionais alpinos próximos aos dialetos do norte da Itália (Vêneto e da Lombardia), mas com influências germânicas que diferem o dialeto trentino dos falares vênetos e lombardos, ou do talian falado no Sul do Brasil. A língua dos tiroleses funcionava como marcador de pertencimento comunitário.

2 – Religiosidade e organização comunitária
A fé católica estruturava a vida social: festas de padroeiro, mutirões, confrarias e práticas devocionais eram herdadas da tradição alpina. A religiosidade era sóbria, menos teatral que certas expressões mediterrâneas e brasileiras.

3 – Ética do trabalho e estrutura familiar
Predominavam valores como austeridade, disciplina, cooperação comunitária e forte coesão familiar — características frequentemente associadas à cultura rural alpina centro-europeia.

4 – Arquitetura e práticas agrícolas
Casas, organização do lote, cultivo da videira e policultura familiar mantinham continuidade com o modelo camponês trazido do Tirol histórico.

Importante notar: até esse período, a identidade era vivida de forma prática, cotidiana, pouco folclorizada. Não havia uma necessidade intensa de “representar” a cultura — ela simplesmente era vivida.

A partir da década de 1970, com maior mobilidade social, urbanização e perda progressiva do dialeto, surge um movimento de revalorização das origens. Nesse contexto, são criados os círculos trentinos, frequentemente em conexão com instituições da própria região de Trento, já integrada à República Italiana. Tais iniciativas tiveram êxitos consideráveis:
✓ estimularam a pesquisa genealógica;
✓ reforçaram laços com a província autônoma de Trento;
✓ incentivaram intercâmbios culturais e reconhecimento jurídico da descendência.

Contudo, junto com esse movimento, ocorreu uma reconfiguração identitária significativa.

A “italianização retrospectiva”
Passou-se a enfatizar a identidade italiana nacional de maneira quase exclusiva. O fato histórico de que os imigrantes eram juridicamente austríacos no momento da emigração foi progressivamente relativizado ou tratado como detalhe secundário.
A identidade alpina centro-europeia foi sendo reinterpretada dentro de uma narrativa italianizada contemporânea.

Importação de novos tabus
Relatos históricos locais indicam que certos temas — antes tratados com naturalidade nas comunidades — passaram a ser evitados ou reinterpretados:
✓ A referência ao pertencimento ao Império da Áustria passou a ser, em alguns ambientes (sobretudo em círculos trentinos), desconfortável ou indesejado.
✓ A complexidade da identidade tirolesa de fronteira foi simplificada, evitando-se valorizar a cultura que mescla aspectos italianos e germânicos.
✓ Questões relacionadas à ambivalência cultural (germânico-latina) tornaram-se menos visíveis
.

Polenta trentina e tarantela: mistura indigesta.

Criou-se, em alguns casos, uma narrativa mais alinhada à realidade atual Província Autônoma de Trento, onde os tabus criados pelo fascismo causam até hoje problemas na identidade local. Assim, a realidade dos descendentes se tornou menos centrada na experiência histórica concreta dos imigrantes do século XIX, dos quais descendem.

Folclorização e estereotipação
A cultura deixou de ser vivida como prática cotidiana e passou a ser encenada em eventos. Trajes típicos padronizados, músicas adaptadas e símbolos nacionais italianos ganharam centralidade.
O risco desse processo é transformar uma herança histórica complexa em uma identidade performática, moldada por expectativas contemporâneas — inclusive turísticas e institucionais, porém muitas vezes rasas e sem embasamento.

No Brasil, ao longo das gerações, muitos descendentes passaram a se identificar genericamente como “italianos”. Essa identificação não é ilegítima do ponto de vista linguístico ou regional contemporâneo — afinal, hoje a região Trento pertence à Itália, todavia é uma região autônoma com tutela internacional da Áustria.

Passaporte austríaco de imigrante da família Avancini.

O problema surge quando ocorre uma substituição completa da matriz histórica original por um imaginário italiano estereotipado. Alguns exemplos:

✓ Festividades “trentinas” que incorporam trajes típicos do sul da Itália (como vestidos inspirados na Sicília ou na Campânia), que nada têm a ver com o vestuário alpino tirolês.
✓ Ênfase exagerada em símbolos como a “tarantella”, que não pertence à tradição cultural alpina.
✓ Uso da bandeira italiana como símbolo exclusivo da identidade dos antepassados, ignorando que eles emigraram sob a bandeira austríaca.
✓ Representações caricatas do “italiano expansivo”, substituindo uma tradição alpina marcada por sobriedade, ruralidade montanhesa e forte senso comunitário centro-europeu.


Nesse processo, cria-se uma identidade reconstruída, mais próxima de um estereótipo midiático da italianidade do que da cultura efetivamente vivida pelos antepassados.


A perda da complexidade histórica

Estereotipar é simplificar. E simplificar é apagar camadas históricas. Os tiroleses da região trentina eram fruto de uma região de fronteira, onde coexistiam influências germânicas e latinas. Sua identidade era híbrida, alpina, centro-europeia — não meramente “italiana” no sentido nacional moderno. Reduzir essa herança a uma imagem padronizada de “colono italiano” significa apagar:
✓ A experiência secular de viver sob o Império Austríaco.
✓ A organização social típica do Tirol.
✓ O contexto histórico que moldou a decisão de emigrar e a construção das comunidades.

Quando a identidade ancestral é substituída por uma versão romantizada e comercializável, ocorre uma forma sutil de descaracterização cultural.


Identidade não é fantasia!

É compreensível que comunidades busquem pertencimento. No Brasil, a identidade italiana tornou-se socialmente valorizada, visível e celebrada. Entretanto, há uma diferença entre evolução cultural legítima e apagamento histórico involuntário.
A cultura pode se transformar — e sempre se transforma. O problema não está na adaptação, mas na distorção consciente ou inconsciente que substitui a verdade histórica por conveniência simbólica.
Quando as novas gerações desconhecem que seus antepassados eram juridicamente austríacos, culturalmente tiroleses e politicamente vinculados a Viena, perde-se uma dimensão fundamental da própria história familiar.


A importância de respeitar a verdade histórica

Respeitar a verdade histórica não significa negar a identidade italiana atual do Trentino, nem impedir celebrações festivas. Significa reconhecer que:


✓ A história é complexa.
✓ As identidades mudam ao longo do tempo.
✓ A origem dos imigrantes não pode ser reescrita para se adequar a narrativas simplificadas.


Preservar o legado cultural autêntico exige pesquisa, memória e honestidade histórica. Implica recuperar documentos, estudar a história do Tirol, compreender o contexto do Império Austríaco e da atual Região Autônoma Trentino-Tirol do Sul, sabendo distinguir o que é tradição ancestral do que é construção recente.


Uma comunidade que conhece sua verdadeira origem fortalece sua identidade. Já aquela que se apoia em estereótipos corre o risco de transformar sua herança em folclore genérico.

Honrar os antepassados é mais do que vestir um traje típico ou cantar uma canção festiva. É compreender quem eles realmente foram, sob qual bandeira viveram, quais valores cultivaram e qual mundo deixaram para trás ao atravessar o oceano.

Somente com esse respeito à verdade histórica é possível preservar um legado cultural autêntico — não como peça de museu, mas como memória viva, consciente e digna.

Uma consideração sobre “A cultura trentina”

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