Os imigrantes de Rio dos Cedros SC

O Blog Tiroleses no Brasil conta a história da imigração baseando-se em fatos e documentos. Os depoimentos de pessoas idosas, geralmente filhos e netos de imigrantes, têm muito valor, mas não são suficientes, pois a história é feita tanto de lembranças, como de esquecimentos. Por conta disso, torna-se necessário contar a história também a partir de fontes documentais.

Apresentamos alguns fatos (e fotos) que contam um pouco da história da cidade catarinense de Rio dos Cedros, fundada em 1875 por imigrantes da região trentina do Tirol, no Império Austríaco, aos quais se juntaram, posteriormente, imigrantes italianos oriundos principalmente do Vêneto, além de algumas famílias de imigrantes alemães.

Paisagem rural de Rio dos Cedros.

A simpática cidade de Rio dos Cedros é conhecida no Vale do Itajaí como “Coração Trentino”, nome dado na década de 2020 visando destacar a cultura local.

A seguir veremos que, dos anos da imigração até a década de 1970, os imigrantes que fundaram a cidade não se definiam (e não eram definidos) “trentinos”, mas tiroleses ou tiroleses italianos, o que indica que a “identidade trentina”, como é conhecida atualmente, foi sendo (re)construída a partir da década de 1970.

Os imigrantes tiroleses que se estabeleceram em Rio dos Cedros chegaram ao Brasil a partir de 1875, saídos principalmente das localidades de Albiano, Besenello, Cavedine, Centa, Civezzano, Cognola, Fornace, Matarello, Ospedaletto, Pergine, Samone, Segonzano, Strigno, Torcegno, Trento, Valda e Volano.

Imigrantes tiroleses no Vale do Itajaí, em frente a uma das primeiras habitações.
Mapa da colonização de Rio dos Cedros e Caminho dos Tiroleses.

Trentinos: imigrantes austríacos de língua italiana

A identidade nacional dos imigrantes da região trentina precisa ser entendida de acordo com sua história, a partir do contexto social e político da época em que viveram. Vale lembrar que a região do Tirol histórico está atualmente dividida entre a Áustria e a Itália, mas nem sempre foi assim. Todo o território tirolês esteve unido à Áustria de 1363 até 1918, ou seja, por quase 600 anos, e a parte sul desse território passou para a Itália após a Primeira Guerra Mundial, em 1918 (oficialmente em 1921). Quando conhecemos melhor a história de Trento, vemos que ela se entrelaça com a história de outras importantes cidades austríacas como Innsbruck, Salzburgo e Viena.

A cidade de Trento retratada em um texto sobre o Tirol publicado em um livro escolar do Império Austríaco (final de 1800).

Outro fator importante é que o Tirol sempre foi uma região trilíngue, ou seja, com três idiomas oficiais: o alemão, o italiano e o ladino, além de diversos dialetos locais. Isso explica, por exemplo, o grande número de palavras de origem alemã no dialeto trentino, assim como o grande número de palavras de origem italiana no tirolês alemão.

Muitos podem se perguntar: como eram austríacos se não falavam o alemão? No entanto, vale lembrar que até 1918, o Império Austríaco possuía 12 idiomas oficiais, entres eles o idioma italiano. Ser austríaco não era sinônimo de “falar alemão”.

Idiomas no Império Austro-húngaro. A região do Tirol com três idiomas.

Embora fossem alfabetizados em italiano gramatical, os tiroleses da região trentina falavam seus dialetos locais, atualmente classificados no grupo dialetal trentino, mas que naquela época era chamado “dialet tiroles” – esse termo parece ter sido esquecido em Rio dos Cedros, mas se manteve em Rodeio e em outras localidades brasileiras. No contexto regional do Vale do Itajaí, fortemente marcado pela presença dos colonos germânicos em Pomerode e Blumenau, era muito comum que os imigrantes da região trentina e os italianos identificassem seus modos de falar como “talian“, embora não fosse o italiano gramatical, mas diversos dialetos de matriz latina. O talian riocedrense não deve ser confundido com o idioma dos descendentes de imigrantes do Rio Grande do Sul, pois são diferentes. Essa classificação indicava, na verdade, o grupo linguístico ao qual pertenciam no Vale do Itajaí e não a nacionalidade.

Livro escolar de Rovereto com o brasão do Império Austríaco. O idioma italiano era oficial na Áustria e ensinado nas escolas da região trentina do Tirol. Em meados de 1700, a Áustria implantou a escola pública obrigatória para todas as crianças. Os pais que não enviassem seus filhos para a escola recebiam uma multa. Por isso, não havia analfabetos entre os imigrantes tiroleses. A taxa de analfabetismo no vizinho Reino da Itália ultrapassava os 50%.

Portanto, é correto dizer que os fundadores de Rio dos Cedros, de Rodeio e de Tiroleses em Timbó eram austríacos, mas seu idioma não era germânico. Eles eram de língua italiana, mas não eram imigrantes da Itália. Outro fato “esquecido” é que muitos desses imigrantes também sabiam falar o alemão, idioma que era ensinado como segunda lingua nas escolas da região trentina e que foi importante nos primeiros anos da colonização, para a comunicação com os colonos alemães do Vale do Itajaí.

Famílias pioneiras na colonização de Rio dos Cedros.

Essas informações já indicam que a complexidade da assim chamada “imigração trentina”. Trata-se de uma identidade bastante específica e a história da colonização riocedrense fica “incompleta” quando não levamos em conta esses detalhes históricos, ou seja, que se tratou de uma imigração em língua italiana, mas vinda da Áustria. Essa identidade peculiar está bem documentada em diversos registros históricos, seja em escritos do Dr. Hermann Blumenau, fundador da colônia, assim como em documentos escritos pelos padres missionários franciscanos, que atuaram entre os imigrantes de língua italiana.

Passaporte austríaco de um imigrante da região trentina do Tirol.

Muitas vezes o governo brasileiro preferia categorizar os grupos de imigrantes pelo idioma falado em vez do país de origem. Foi assim que muitos imigrantes austríacos e belgas de língua alemã foram classificados como “alemães”, e austríacos de língua italiana como “italianos”. Como os tiroleses de Trento falavam o italiano e seus dialetos de raiz neolatina, as comunidades vizinhas compostas por luso-brasileiros e alemães passaram a chamá-los genericamente de “italianos”. Com o passar das décadas, a própria comunidade tirolesa absorveu o termo para se diferenciar dos colonos que falavam alemão.

No ano de 1903, as relações consulares com o Império da Áustria se intensificaram no Vale do Itajaí. Karlo Bertoni, representante consular da Áustria-Hungria, visitou a comunidade de Rio dos Cedros, sendo muito bem recebido pelos imigrantes e seus descendentes. Tratava-se da primeira visita de um representante oficial do governo austro-húngaro desde que os imigrantes haviam chegado ao Brasil em 1875.

Poema escrito pelo Prof. Virgilio Campestrini por ocasião da visita do representante consular da Áustria-Hungria, Karol (Carlos) Bertoni, que veio do Rio de Janeiro até Rio dos Cedros. O poema foi declamado pela jovem Ottilia Agostini (Carlini).
Karol Bertoni (Stanislau/Iwano-Frankiwśk, 1876 – Rio de Janeiro, 1967) foi representante consular da Áustria-Hungria no Brasil. Estudou em Viena, onde ingressou na vida diplomática, atuando em Bucareste e no Rio de Janeiro, onde se tornou cônsul-geral entre 1910 e 1911. Foi vice-cônsul em Curitiba e, em 1913, tornou-se chefe da seção consular da delegação austro-húngara em Sófia (Bulgária), onde foi nomeado cônsul-geral. Com o final do império em 1918, ingressou no ministério das relações exteriores da recém-criada Polônia, trabalhando diretamente no ministério das relações exteriores. Atuou em diversas representações diplomáticas polonesas na Europa, inclusive durante a Segunda Guerra Mundial. Transferiu-se para o Brasil em 1947, atuando junto à comunidade polonesa e faleceu em 1967 no Rio de Janeiro, onde está sepultado.

A visita de Bertoni ao Vale do Itajaí tinha uma motivação específica: incentivar a produção do bicho-da-seda entre os colonos tiroleses, para que fosse estabelecida a exportação para a Europa. Contudo, devido a vários fatores, tais como clima e logística, os colonos não conseguiram dar prosseguimento ao projeto. Outro fator que dificultava a venda era a forte influência comercial dos colonos alemães, que praticamente monopolizavam as vendas de produtos, bem como a compra da produção agrícola.

Sede da antiga cooperativa de Rio dos Cedros, uma das primeiras em Santa Catarina. O cooperativismo se tornou muito popular no Tirol a partir da segunda metade do século XIX.

Um documento que merece atenção é o estatuto da Lega Austriaco-Brasiliana di Rodeio nel Municipio di Blumenau (“Liga Austro-brasileira de Rodeio no Município de Blumenau”), fundada em 14 de dezembro de 1909 em Rodeio, que naquele tempo ainda pertencia ao município de Blumenau. O texto escrito em perfeito italiano apresenta as finalidades da sociedade austro-brasileira que teve como primeira diretoria imigrantes tiroleses residentes em Rodeio e Rio dos Cedros. Presidente: Giuseppe Sevegnani; Vice-presidente: Emanuele Moratelli; Secretário: Battista Bonatti e Tesoureiro: Antonio Nardelli.

Estatuto da Liga Austro-Brasileira de Rodeio no Município de Blumenau.
Estatuto da Liga Austro-Brasileira de Rodeio no Município de Blumenau.

As cartas escritas pelos imigrantes e pelos descendentes das primeiras gerações, bem como os artigos de jornais anteriores ao ano de 1975 (centenário) também documentam que eles se definiam a si próprios como Tiroleses ou Tiroleses italianos ao invés de trentinos. O uso da palavra (que originalmente identifica especificamente o habitante da cidade de Trento) passou a ser usado após a festa do centenário da imigração “italiana”.

Livro austríaco em italiano com uso do termo “Tirolo Italiano” para os distritos de Trento, Rovereto, Ala, Arco e Riva.

Um interessante testemunho histórico é a carta escrita pelo imigrante tirolês Giosuè Fiamonzini (Fiamoncini), encontrada nos alicerces da Igreja Imaculada Conceição, em Rio dos Cedros, quando a igreja foi demolida.

Carta do imigrante tirolês Giosuè Fiamonzini.

Tradução da Carta:

No ano do Senhor
1901
Reinando em Roma sobre seu pontificado
O Papa Leão XII.
Sendo Bispo desta Diocese por ora
José de Camargo Barros
Residente em Curitiba
Estado do Paraná
Primeiro Bispo.

Eu abaixo assinado Giosuè Fiamonzini junto com o meu filho Elia e Ermínio Stingen, também Antônio Corrente, meus ajudantes e subordinados no trabalho desta igreja, me coloco para perpetuar a lembrança para os séculos vindouros quero que saibam ter eu agido como arquiteto e diretor desta obra como o fiz assim com relação à igreja e convento de Rodeio 100 (Centro referindo-se à Igreja Matriz de Rodeio, nota Nélson) e da Igreja São Paulo n. 43. Assim também trabalhei em grande parte na igreja de Blumenau no ano de 1876 e em seguida no mesmo instituto e naquele convento. Isso que faço não é por ambição ou orgulho, mas para que nos séculos vindouros se tenha uma lembrança mais completa colocada à luz, o que o Pe. Lucínio não fez na carta colocada na pedra fundamental do presbitério (Referindo-se à Igreja Matriz de Rodeio, nota Nélson). Eu fiz também para a Virgem Santíssima Imaculada Conceição à qual esta igreja é dedicada, mas necessito também eu um dos seus filhos da felicidade perpétua no Paraíso, Amém.
Rio dos Cedros, 10 de março de 1901

Giosuè Fiamonzini
Nascido em Matarello de Trento,
Tirol Merid(ional) Áustria

Os imigrantes Giosuè Fiamonzini e esposa, Teresa Speranza.

O tirolês Giosuè Bernardo Fiamonzini, nascido em Matarello, distrito de Trento no Tirol, em 21/08/1852, recebeu o lote n. 82, no Bairro Gávea, Rodeio, onde hoje se encontra a Cia. Hering. Ergueu a primeira casa de tijolos em Rodeio, que ainda hoje existe toda restaurada, localizada no topo da colina. Ele era mestre de construção, arquiteto portador de diploma de Trento, tendo ele participado do projeto e construção de muitas obras no Vale do Itajaí, tais como a igreja matriz de Rodeio, o colégio São Paulo Apóstolo em Blumenau, a antiga Igreja Imaculada Conceição em Rio dos Cedros (1901) e a capela Nossa Senhora de Lourdes em Ipiranga, Rodeio.

Jornais brasileiros das décadas de 1870 e 1880 também testemunham a identidade dos imigrantes tiroleses em Rio dos Cedros. No ano de 1876, o imigrante Sigismondo Menestrina, natural de Sopramonte e “patriarca” de todos os Menestrina no Vale do Itajaí, anunciava o envio de dinheiro para seus parentes no Tirol. Apesar de todas as dificuldades enfrentadas no Brasil, muitas famílias procuravam ajudar os parentes que ficaram na Europa em meio as várias crises econômicas.

Fonte: Jornal “A Regeneração – Província de Santa Catharina”, fevereiro de 1876.

Grupo Folclórico Tirol: 40 anos!

Neste ano de 2026, o Grupo Folclórico Tirol (Volkstanzgruppe Tirol Schuhplattler) da cidade de São Paulo festeja seus 40 anos de fundação. Quatro décadas de dedicação e alegria preservando o folclore tirolês na maior metrópole da América Latina. Este texto e fotos são uma homenagem de quem fez (e faz) parte dessa história.

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A cultura trentina

A estereotipação de uma cultura ancestral quase sempre nasce de um processo duplo: desconhecimento histórico e necessidade identitária. Quando uma comunidade perde — ou transforma — elementos essenciais de sua identidade original, surge a tentação de substituí-los por símbolos mais visíveis, populares ou socialmente valorizados. O caso dos tiroleses de língua italiana da região de Trento é um exemplo emblemático desse fenômeno no Brasil.


Contexto histórico: quem eram os tiroleses trentinos?

Até 1918, a região de Trento (o atual Trentino) fazia parte do Império Austríaco. Seus habitantes eram cidadãos austríacos, ainda que a maioria deles falasse o italiano e os dialetos da região, de origem latina. Culturalmente, os tiroleses estavam inseridos no universo político, administrativo e simbólico da Áustria daquela época, onde o idioma italiano era uma língua oficial do império. Além disso, durante quase mil anos, a região do Tirol histórico esteve unida à Áustria — trata-se de região ligada à tradição cultural alpina e centro-europeia.

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250 anos da Reforma Escolar Austríaca (1774 – 2024)

Se nossos antepassados tiroleses eram alfabetizados, isso se deve principalmente à reforma escolar promovida em 1774 pela soberana da Áustria e rainha da Hungria, Maria Teresa de Habsburgo, que instituiu que todas as crianças de ambos os sexos entre seis e doze anos deveriam frequentar as escolas públicas.

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O tirolês que fundou Brusque – SC

O Blog Tiroleses no Brasil recorda o barão Maximilian von Schneeburg, engenheiro austríaco nascido no Tirol, fundador e primeiro diretor da então Colônia Itajahy que compreende atualmente as cidades catarinenses de Brusque, Nova Trento, Botuverá, Guabiruba e Vidal Ramos. É considerado o fundador de Brusque por dar início ao primeiro núcleo urbano daquela que se tornaria uma das principais cidades de Santa Catarina.

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1873 – 2023: 150 anos de imigração “trentina” no Rio Grande do Sul – mas os primeiros tiroleses chegaram em 1865!

Os registros históricos demonstram que o ano de 2023 marcou os 150 anos de imigração “trentina” no Rio Grande do Sul, iniciada em 1873 com a chegada de tiroleses de língua italiana à Serra Gaúcha, oriundos do antigo Império Austríaco. Todavia, já em 1865, chegaram os primeiros tiroleses de língua alemã.

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Tiroleses no Brasil tem por objetivo principal apresentar aspectos da história, cultura e identidade da Imigração Tirolesa no Brasil.

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