Neste ano de 2026, o Grupo Folclórico Tirol (Volkstanzgruppe Tirol Schuhplattler) da cidade de São Paulo festeja seus 40 anos de fundação. Quatro décadas de dedicação e alegria preservando o folclore tirolês na maior metrópole da América Latina. Este texto e fotos são uma homenagem de quem fez (e faz) parte dessa história.
Não é tarefa fácil “resumir” a trajetória de um dos mais tradicionais grupos folclóricos do estado de São Paulo, do qual fiz parte ativamente durante muitos anos e pelo qual trago um imenso orgulho. O Grupo Tirol (em alemão Volkstanzgruppe Tirol – Schuhplattler) comemora neste ano de 2026 seus 40 anos, estando desde sua fundação ligado à Sociedade Filarmônica Lyra de São Paulo, a mais antiga entidade cultural alemã da capital paulista, fundada em 1884. Um grupo dinâmico, que durante sua trajetória de quatro décadas se apresenta em diversos eventos culturais paulistas e de outros estados do Brasil.
O repertório do Grupo Tirol apresenta uma dos mais tradicionais estilos de danças folclóricas da Europa: o Schuhplattler, um “sapateado” que remonta à Idade Média, ainda praticado no Sul da Alemanha, partes da Áustria e no norte da Itália (Tirol Meridional), sendo considerado uma das mais antigas manifestações folclóricas ainda praticadas na Europa. Com a grande imigração européia, ocorrida entre o final do século XIX e início do século XX, o Schuhplattler atravessou o Atlântico e chegou até o continente americano, sendo praticado também no Brasil, haja vista que nosso país recebeu muitos imigrantes vindos das regiões alpinas onde este peculiar sapateado é praticado.
Com um repertório variado de danças da Áustria e do sul da Baviera, o grupo preserva há 40 anos esse legado e se encontra em constante atividade, mantendo a herança cultural dos imigrantes por meio da dança, retratando a simplicidade e alegria dos povos dos Alpes, herança essa que foi trazida pelos imigrantes austríacos que adotaram o Brasil como sua nova pátria.
As origens…
O fundador do Grupo Tirol, Winfried Treichl (Schwaz, 02/03/1927 – São Paulo, 26/10/1998), foi um grande conhecedor dos folclores tirolês e bávaro, além de exímio professor da prática do Schuhplattler. Nascido na cidade de Schwaz, no Tirol, chegou com seus pais e irmãos ao Brasil após a Primeira Guerra Mundial. Em 1929, a família Treichl se estabeleceu primeiramente na cidade catarinense de Rio das Antas e, em 1940, juntaram-se aos demais colonos austríacos que fundaram a Colônia Dreizehnlinden, a atual cidade catarinense de Treze Tílias.
Década de 1950: Toni Knittel e seu conjunto
Ainda jovem, Winfried se transferiu para São Paulo e na cidade grande participou do grupo folclórico tirolês coordenado pelo imigrante Anton Knittel, conhecido por Toni e seu Conjunto.
Anton Knittel (Elbigenalp, 14/03/1905 – São Paulo, 02/11/1968), trouxe para o Brasil a prática do Schuhplattler, tal como aprendera em sua terra natal, a cidade de Elbigenalp no Tirol. A família de Toni Knittel residiu em São Paulo e foi muito conhecida entre os imigrantes austríacos e alemães, inclusive entre muitos trezetilienses que se transferiam para São Paulo buscando trabalhar na cidade grande; muitos desses jovens, filhos de imigrantes, recebiam apoio da família Knittel e acabavam participando do grupo folclórico de Toni.
Anton Knittel foi também um grande pesquisador do Schuhplattler, tornando-se professor e amigo de Winfried, que passou a fazer parte do grupo folclórico que alegrava as festas da comunidade austro-alemã paulistana entre as décadas de 1940 e 1960.
Acompanhado pelos irmãos acordeonistas Rolando e Ottorino Sterzi, imigrantes italianos da região do Vêneto e grandes conhecedores das melodias dos Alpes, Toni e seu conjunto ficou muito famoso, fazendo até apresentações musicais em rádio.

No ano de 1968, faleceu Anton Knittel e seu grupo folclórico infelizmente se desfez. Winfried não dançou por quase vinte anos, mas seu sobrinho Alois Unterberger Filho, nascido em Treze Tílias, participou do grupo folclórico alemão Sonnenschein que ensaiava na Sociedade Filarmônica Lyra. Winfried chegou a ensinar uma dança para o grupo (Watschinger-Plattler) e desejava voltar a praticar as antigas danças austríacas. Deste desejo, surgiu a ideia de formar com seu sobrinho Alois um novo grupo folclórico: nascia, assim, o Grupo Tirol na Sociedade Filarmônica Lyra de São Paulo.
1986 -2026: 40 anos de Grupo Tirol
O Grupo Tirol foi fundado em 6 de junho de 1986 pelo imigrante tirolês Winfried Treichl e por seu sobrinho, Alois Unterberger Filho, com o intuito de preservar na comunidade germânica paulista a prática do sapateado em sua maneira original.
Com o novo grupo , a prática do Schuhplattler se manteve com a mesma originalidade do antigo grupo de Toni Knittel, apresentando-se em eventos da comunidade germânica de São Paulo, mas também em outras cidades paulistas.
Em uma dessas viagens (ainda com o grupo folclórico alemão), Winfried e Alois participaram da tradicional Festa das Nações de Piracicaba, onde lhes chamou a atenção a Barraca Tirolesa, que nos anos de 1980 era coordenada pelos moradores dos bairros Santana e Santa Olímpia, que formam a Colônia Tirolesa de Piracicaba; daquele primeiro contato, teve início uma amizade duradoura com várias famílias tirolesas de Piracicaba.
Alguns anos depois, Winfried fundou outro Grupo Tirol na Colonia Tirol del Paraguay, iniciada na década de 1980 na região de Iguazu, no Paraguai, pelo padre Johann Otto Küng (que atuara primeiramente em Treze Tílias, onde fundou a Laticínios Tirol). Ali, Winfried Treichl iniciou outro grupo folclórico para que as tradições da dança também fossem mantidas entre os descendentes germânicos.

E assim, sob a coordenação de Winfried Treichl, o Grupo Tirol recebeu novos integrantes e alegrou diversos eventos culturais de São Paulo. Todavia, no dia 26 de outubro de 1998, logo após uma apresentação no Hotel Transamérica, com recebimento de uma homenagem do consulado austríaco em comemoração ao Dia Nacional da Áustria, Winfried Treichl falecia sofreu um enfarte cardíaco, falecendo no local do evento; um choque enorme para os integrantes do grupo e amigos presentes, que muito dele gostavam. Sua lembrança ficará para sempre na memória de todos os integrantes do grupo folclórico, como fundador e professor.
Após o ocorrido, o Grupo Tirol quase chegou ao fim, mas foi neste ano que o autor deste texto passa a fazer parte da história do grupo e, talvez por isso, também colaborou para que continuasse. Lembro-me muito bem que, no ano de 1999, eu estava na sede da Sociedade Orquidófila de Santo André, entidade muito frequentada por descendentes de imigrantes que tinham por hobby o cultivo de orquídeas. Um dos sócios, o saudoso Sr. André Zimmermann, filho de alemães e esposo da Sra. Ruth, filha de austríacos que frequentavam o Clube Babenberg, descendo as escadas da sociedade orquidófila, disse-me: “Altmayer, você que é de família tirolesa, por que você não participa dos Schuhplattler?”. O jovem, que tinha então 15 anos, recebeu então das mãos de Herr Zimmermann um exemplar do jornal de língua alemã Brasil Post, onde havia uma matéria com uma foto do Grupo Tirol. E eu lhe respondi: “por que não? Vou ver se falo com alguém do grupo”.
Em uma das páginas do jornal constava o contato do Clube Lyra, para o qual liguei pedindo informações sobre o grupo folclórico tirolês. Apenas na terceira ligação passaram-me o contato de Alois Untgerberger, que me contou o ocorrido com seu tio e convidou-me para a única apresentação que o Grupo Tirol faria após o ocorrido de outubro de 1998: seria uma apresentação no mês de dezembro no Clube Austro-Brasileiro Babenberg, por iniciativa do Consulado Austríaco de São Paulo que oferecia um café de Natal para imigrantes austríacos e suas famílias. Após assistir à apresentação, sentei-me com os integrantes do grupo que ainda demonstravam certa tristeza pela morte de Winfried. Soube naquele momento que queria participar do grupo e comecei a ensaiar no ínicio do ano 2000, aprendendo os passos da dança desde o básico com Alois Unterberger, que foi um professor e se tornou um grande amigo meu e de minha família, assim como eu me tornei amigo de sua família.
A partir do ano 2000, o grupo continuou sob a coordenação de Alois Unterberger Filho, com apresentações em eventos culturais. A partir daí, entraram novos integrantes, fazendo com que a iniciativa de Winfried Treichl continuasse e se perpetuasse na capital paulista.


Vale lembrar que o Grupo Tirol teve um papel importante na fundação do grupo folclórico do Colégio Benjamin Constant, em São Paulo. Os integrantes Alfredo e Clara Link fundaram em 1999, no tradicional colégio alemão da Vila Mariana, o grupo folclórico Tanzfreunde (“amigos da dança”) para integrar pais e alunos do colégio. Membros do Grupo Tirol ajudaram em ensaios e apresentações do novo grupo folclórico que nascia na cidade de São Paulo. Alguns anos mais tarde, a coordenação do Grupo passou para Ana Silvia Walchhütter, esposa de Jeferson Walchhütter, que também participavam do Grupo Tirol.
No ano de 2005, o Grupo Tirol entrou na Internet com um site próprio desenvolvido por mim, Everton Altmayer, com os textos em português, alemão e italiano e contando com um número considerável de acessos.


No ano de 2007, o Grupo Tirol comemorou seus 20 anos de fundação em um evento festivo no Clube Babenberg, intitulado uma Noite Tirolesa (Tiroler Abend), juntamente com o Circolo Trentino de São Paulo que então comemorava seu aniversário de fundação. O evento contou com mais de duzentas pessoas, amigos vindos de diversas cidades.



A partir do final de 2009, o Grupo Tirol passou por algumas transformações. No final daquele ano eu me mudei para a cidade de Treze Tílias, em Santa Catarina. Os integrantes Jeferson e Ana Silvia Walchhütter, que já coordenavam o grupo folclórico do Colégio Benjamin Constant, passaram a se dedicar mais ao grupo que coordenavam, participando em apresentações com o Grupo Tirol.
Mesmo morando em Santa Catarina, participei de algumas apresentações com o Grupo Tirol, como na tradicional Festa da Polenta da Colônia Tirolesa de Piracicaba.

Em 2011, Alois Unterberger se mudou com sua família para a cidade de Joaçaba, em Santa Catarina e a coordenação do Grupo Tirol passou, então, para os irmãos Humberto e Gustavo Schulz, auxiliados por seus pais Helmut e Carmen, dando prosseguimento aos ensaios e apresentações e levando a alegria do grupo para os palcos de diversos eventos culturais.


Em 2013, Daniel Langhi e Flavia De Petri assumiram a coordenação do Grupo Tirol, que cresceu com a entrada de novos integrantes, levando a alegria da dança folclórica durante várias apresentações em diversos eventos culturais paulistanos e de demais cidades. O Grupo Tirol ganhou uma página de fotos no Facebook e até organizou o Carnaval dos Habsburgo, inspirado na corte de Viena, em parceria com o grupo folclórico Gold und Silber da Sociedade Filarmônica Lyra de São Paulo.


Quando Daniel Langhi e Flavia De Pedri se transferiram para a Alemanha por conta de compromissos profissionais, Vivian Langhi assumiu a coordenação do Grupo Tirol, organizando os ensaios e apresentações. O Grupo Tirol continuou levando a alegria da cultura tirolesa para eventos culturais da cidade paulistana.

Após o período de coordenação de Vivian Langhi, assumiram a coordenação do grupo Ana Silvia e Jeferson Walchhütter, que retornaram ao Grupo Tirol após o término do período de coordenação do Grupo Tanzfreunde. O Grupo Tirol fez importantes apresentações, alegrando eventos típicos da cidade de São Paulo e de outras cidades, representando o folclore tirolês e austríaco.


No final de 2024, Ana Silvia e Jeferson Walchhütter anunciaram que não poderiam mais coordenar o grupo, por motivos de rotina profissional e de saúde. Após algumas reuniões em que auxiliei o grupo nas estratégias para uma reorganização, a integrante Waltraud Kaun assumiu a coordenação do Grupo Tirol, que continua alegrando diversos eventos e festas típicas da cidade de São Paulo e região.
O Grupo Tirol tem também seu novo perfil no Instagram com fotos e novidades sobre suas apresentações.

Homenagem aos 40 anos do Grupo Tirol
Neste ano de 2026, o Grupo Tirol será homenageado durante a Maifest, evento cultural que acontece entre os dias 16 e 17 de maio no bairro do Brooklin, na zona sul de São Paulo. A Maifest, com curadoria cultural de Luiz Delfino Cardia, é um evento tradicional do bairro e durante a edição de 2026, fará uma homenagem à Áustria festejando juntamente com o Grupo Tirol seu aniversário de fundação. Um momento especial deste que é, sem dúvidas, um grupo folclórico especial!
Parabéns, Grupo Tirol!
Everton Altmayer

















































