Mi son tiroles – parte 1

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O Blog Tiroleses no Brasil propõe uma reflexão sobre o uso de adjetivos pátrios referentes à região do Tirol, levando em conta que certa “confusão útil” se faz presente entre alguns descendentes.

O que significa exatamente tirolês e o que significa exatamente trentino? Seriam dois povos diversos? Nomes diferentes para um mesmo povo? Qual a relação que existe entre o uso de um e de outro adjetivo?

O uso de um adjetivo pátrio (gentílico) serve para identificar um povo de uma determinada localidade. Podemos dizer que o uso de um adjetivo pátrio se justifica em dois aspectos primordiais: na história do povo que se identifica e na tradição do uso do adjetivo. Um adjetivo pátrio não identifica necessariamente uma etnia, mas, como afirmado, identifica a população de determinada área ou região.

Para termos exemplos, o adjetivo pátrio gaúcho identifica o indivíduo proveniente do estado brasileiro do Rio Grande do Sul, mas também todos aqueles que vivem nos territórios sul americanos onde predomina a cultura gaúcha. Assim, o adjetivo gaúcho não se limita ao estado de RS, mas se utiliza também em áreas da Argentina, do Uruguai e em demais estados brasileiros (como Santa Catarina) onde a presença da cultura gaúcha garante seu uso. Outro exemplo é o termo escandinavo, que não especifica o habitante de um país, mas os habitantes da Escandinávia, região formada por três países: Dinamarca, Noruega e Suécia. Até o século XIX, o termo Itália identificou somente a península itálica e só passou a identificar um país após as guerras de unificação.

É importante termos em mente que o Tirol é um território peculiar porque montanhoso, trilíngue e historicamente autônomo. Suas particularidades são aquelas de uma região de encontros étnicos e linguísticos que durante séculos gozou de uma notável autonomia no interior da administração austríaca. Portanto:

tirolês = habitante do Tirol.

tirolês italiano = tirolês de língua italiana.

tirolês alemão = tirolês de língua alemã.

tirolês ladino = tirolês de língua ladina.

trentino = habitante da cidade de Trento. Historicamente, o adjetivo deriva de tridentino (do latim tridentinus) e tem seu uso relacionado à cidade de Trento. Torna-se um substantivo e um topônimo a partir do século XIX para identificar a área administrativa dependente da cidade de Trento no chamado Circolo di Trento, que compreendia, inclusive, áreas de língua alemã nos arredores das cidades de Bozen/Bolzano e Brixen/Bressanone. Daí o uso da expressão regione trentina del Tirolo.

ladino = falante do ladino dolomítico (grupo linguístico existente no Tirol, em parte do Vêneto e Friúl), idioma que possui dialetos regionais e é aparentado aos idiomas retorromanche (suíço) e ao friulano.

italiano = indivíduo pertencente ao grupo linguístico italiano (italófono), não necessariamente habitante da Itália (por exemplo, há suíços que falam o italiano). Também não designa nenhuma etnia, pois na Península Itálica existem várias etnias (nem todas aparentadas).

alemão = indivíduo pertencente ao grupo linguístico alemão (germanófono), não necessariamente habitante da Alemanha (por exemplo, a maioria da população da atual República da Áustria).

Usando de certa lógica e baseando-se no uso consagrado dos adjetivos, notamos que todo trentino é tirolês, mas nem todo tirolês é trentino. Seria como dizer que todo paranaense é curitibano. Somente o contrário será válido: todo curitibano é paranaense.

Assim, de acordo com a história e com a semântica do adjetivo, trentino é o habitante da cidade de Trento e, por ser de Trento é tirolês, pois Trento é uma cidade tirolesa.

— * —

Topônimo é todo nome que se dá a uma localidade geográfica. Aqui vemos os topônimos históricos da região tirolesa:

Tirol (al. Tirol, Tyrol; it. Tirolo) = região histórica da Europa atualmente dividida entre dois países: Áustria e Itália. Localizada nos Alpes centrais, desde o grupo montanhoso denominado Kaiser Gebirge (na fronteira com a região bávara na Alemanha) até o passo montanhoso denominado Chiusa di Ceraino (na fronteita com a província de Verona na Itália), ou seja, desde o distrito de Kufstein até a vila de Borghetto (Avio). A região do Tirol é plurilíngüe com três grupos linguísticos principais: alemão, italiano e ladino dolomítico, além de regionalismos que podem (ou não) ser identificados como dialetos deste ou daquele grupo linguístico.

A origem do topônimo Tirol remete à Antiguidade por ser de origem rética e, portanto, anterior à dominação romana nos Alpes: de *tir-ale, onde -al indicava inicialmente uma posse. Documenta-se Vicus Tirâl e Tyrol em documentos medievais anteriores ao século XII. A passagem de [a] a [o] é muito comum nos dialetos germânicos meridionais, o que possibilitou que *Tirale se tornasse Tirol.

O grande poeta Dante Alighieri apresenta a região do Tirol no Canto 20 de sua Divina Commedia, e indica a fronteira da Itália (península) com La Magna (terras alemãs do Sacro Império):

Suso in Italia bella giace un laco, a piè de l’Alpe che serra Lamagna sovra Tiralli, c’ha nome Benaco.

[Acima, na Itália bela está um lago ao pé da montanha que encerra a Alemanha  sobre o Tirol, que tem por nome Benaco]

Dicionário de Dante Alighieri

O Tirol segundo o renomado Dizionario della Divina Commedia de Donato Bocci (1873).

 

Tirol Meridional (al. Südtirol; it. Tirolo Meridionale, Sudtirolo) = termo geográfico que identifica a parte sul do Tirol. Historicamente, identificou apenas a porção de língua italiana ao sul da cidade de Bolzano, mas após a Primeira Guerra, passou a identificar todo o território anexado pela Itália.

O termo Südtirol (

O termo Südtirol (“Tirol Meridional”) identifica historicamente o Tirol Italiano.

Tirol Alemão (al. Deutschtirol; it. Tirolo tedesco) = termo utilizado para identificar a área de língua alemã do Tirol. Corresponde atualmente ao território da Província Autônoma de Bolzano (Itália) e ao estado austríaco na República da Áustria.

Uso de Tirolo tedesco (

Uso de Tirolo tedesco (“Tirol alemão”) para indicar a área de língua alemã do Tirol.

Tirol Italiano (it. Tirolo Italiano; al. Welschtirol) = termo utilizado para identificar área de língua italiana do Tirol. Historicamente, o Tirol Italiano corresponde ao autêntico Tirol Meridional. O uso do termo identifica a língua da maioria da população local daquela área tirolesa (embora ali também existam grupos minoritários falantes do alemão e do ladino dolomítico) e foi usado até 1918. Corresponde atualmente à Província Autônoma de Trento.

Uso de Tirolo Italiano para designar a área italófona do Tirol.

Uso de Tirolo Italiano para designar a área italófona.

* O termo Welschtirol (ou Wälschtirol) identifica propriamente o “Tirol de língua romance”, isto é, de língua latina. Portanto, identifica não somente a área onde se fala o italiano (e o dialeto trentino), mas também a área onde se fala o ladino dolomítico. A palavra welsch é antiga e identificava os celtas (da tribo Valic) entre os germânicos. Em inglês, o País de Gales (de origem céltica) é chamado Welsh. Posteriormente, o termo passou a indicar os falantes de línguas latinas (celtas romanizados): em polonês, a Itália é chamada Włochy; a área de língua francesa da Suíça é chamada em alemão Welschschweiz, ao passo que Welschland designa a Itália em vários dialetos do Tirol Alemão.

O termo alemão Wälschtirol identifica o Tirol Italiano. Na gravura, a cidade de Rovereto.

O termo alemão Wälschtirol identifica o Tirol Italiano. Na gravura, a cidade de Rovereto.

Trento (it. Trento; al. Trient) = principal cidade do Tirol Italiano. Discute-se ainda se uma derivação direta do latim Tridentum ou se o nome da cidade há origens anteriores à dominação romana. Provavelmente houve inculturação, pois o nome da divindade da água para os celtas é Trent e os réticos assim definiam o rio Ádige (por conta da trifurcação); os romanos, por sua vez, fizeram referência ao tridente do deus romano das águas Netuno (é ainda controversa a versão que atribui o nome a três montes locais).

A cidade de Trento retratada em um livro escolar do século XX.

A cidade de Trento retratada em um livro escolar do início do século XX.

Trentino = substantivo que deriva do adjetivo na expressão território trentino, ou seja, o território de Trento e identifica a área administrativamente dependente da cidade de Trento no Tirol.

Jornal de Trento (século XIX).

Jornal de Trento fundado em meados do século XIX.

*No idioma italiano, um adjetivo pátrio pode assumir a função de substantivo para indicar uma área geográfica. Assim, em uma frase do tipo “no território de Trento” (nel territorio di Trento), é possível utilizar “no trentino” (nel trentino), assim como “no território do Tirol”, é possível utilizar “no tirolês” (nel tirolese). Vide a descrição do Tirol no trecho retirado do Dizionario della Divina Commedia.

Gazzeta del Tirolo Italiano - Jornal da cidade de Trento (século 19)

Gazzeta del Tirolo Italiano – Jornal da cidade de Trento (século XIX).

A partir do início do século XIX, o Tirol passou a ser considerado uma região de “herança direta” da Áustria no Congresso de Frankfurt (que agregava os territórios germânicos que até 1810 compuseram o Sacro Império). Alguns políticos da cidade de Trento começaram a utilizar o adjetivo Trentino para identificar o Tirol Italiano; não negavam este, mas reforçavam o uso daquele para exigir maiores garantias políticas para as cidades de Trento e Rovereto na câmara de deputados (Dieta) sediada na capital tirolesa Innsbruck, e para garantir os direitos “dos alemães não-germânicos”. Até então, o uso do termo designava somente a cidade Trento e seus arredores.

Políticos e jornais italianos passaram a utilizar o topônimo Trentino nas propagandas que reivindicavam a anexação do território ao Reino da Itália. Se virmos a campanha italiana do período de Garibaldi, reivindicava-se o Tirol; após 1866, reivindicava-se o Trentino.

Memórias de um soldado de Garibaldi que cita o Tirol.

Memórias de um soldado de Garibaldi que combateu no Tirol (região de Trento).

Por uma questão de coerência (mas também de honestidade intelectual), seria no mínimo adequado utilizar um adjetivo pátrio de acordo com sua tradição, ou seja, de acordo com o modo no qual o adjetivo se justifica por si só, independentemente de questões puramente semânticas ou instrumentalizações políticas advindas de mudanças territoriais causadas por guerras (ou interesses de um grupo específico).

Há, ainda, os casos onde um novo adjetivo alheio à tradição do povo, lhe é imposto de modo a substituir o antigo e tradicional adjetivo que o identificava. Isso acontece, geralmente, em áreas de conflitos bélicos, políticos ou religiosos. Com o novo adjetivo, impõe-se também uma nova realidade cultural que, do ponto de vista histórico e social, será sempre prejudicial porque anula uma realidade anterior que se justificava na tradição do próprio uso.

O fascismo foi responsável por um verdadeira catástrofe cultural na região tirolesa. O decreto de 08 de agosto de 1923 (anterior ao governo fascista) previa punições (multa de 200 liras ou prisão) para quem utilizasse a palavra “Tirol” ou derivados em público.

Decreto de 1923 que proíbe o uso do topônimo Tirol e prevê punições.

Decreto de 1923 que proíbe o uso do topônimo Tirol na Itália e prevê punições.

Também os sobrenomes de origem germânica eram traduzidos ou modificados e tal ação era chamada “restituição” (numa tentativa de justificar o feito).

Italianização do sobrenome Beber para Sottopietra durante o fascismo.

Italianização do sobrenome tirolês Beber para Sottopietra durante o fascismo.

 

Multa cognomi Trieste

Decreto prevê multas altíssimas para quem utilizasse o sobrenome original (de origem eslovena) na região da Gorízia.

A esta prática totalmente absurda, dá-se o nome de Etnocídio, termo usado para descrever a destruição da cultura de um povo, em vez do povo em si mesmo. O que mais impressiona é que a lei que garante o decreto de 1923 jamais foi abolida do código penal italiano e, apesar de a denominação oficial do território meridional não ser Tirol, isso não justifica a total anulação de seu passado secular e muito menos a validade de seu uso, uma vez que é autêntico.

Em 2009, cartazes dando boas vindas aos que entravam no Tirol histórico foram colocados em todas as placas em estradas que indicavam o início da Província Autônoma de Trento.

Em 2009, cartazes dando boas vindas aos que entravam no Tirol histórico foram colocados em todas as placas em estradas que indicavam o início da Província Autônoma de Trento.

 

Tirolo Trentino

Foto de 2015 feita na estrada que liga Verona à Província de Trento.

Qualquer semelhança entre as práticas subversivas do período fascista e a atual “confusão útil” que, por vezes,  pretende impor regras aos descendentes do Brasil (quer por desconhecimento que por intenção) não será mera coincidência.

Portanto, não é nenhum erro afirmar: Mi son tiroles (“eu sou tirolês”).

Para ler a segunda parte da série, clique aqui.
Para ler a terceira parte da série, clique aqui.

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5 comentários sobre “Mi son tiroles – parte 1

    • Minha cara Daniela Loss, estou surpreso pela suas palavras, pois meu pai Sylvio Piffer, foi batisado em Cimone, era nascido no território Austríaco mas foi registrado em Cimone, nascido em 12 Outrubro de 1890, veio para o Brasil com seus tios Roque Baldo e Maria Baldo.Eu gostaria de ter melhor contato contigo se permitir.
      Entre em contato com meu E-mail:hilariopiffer@yahoo.com.br ou facebook:hiláriopiffer.Abraços Salute cara mia.

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  1. Parabenizo aos autores do Blog, que é uma importante fonte de pesquisa no sentido de esclarecer duvidas relativas à história de nossos antepassados.
    Neste sentido, os descendentes de imigrantes da região do Trento ( de onde vieram os imigrante de minha família ROVER/ ROUVER, não teriam direito à cidadania austríaca? (desculpe se a pergunta já foi feita anteriormente).

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