Mi son tiroles – parte 2

Para ler a primeira parte da série, clique aqui.

“Tirol Italiano, Círculo de Trento” – Água-forte de Joseph Weger (1827) [6]

Um dos motivos pelo qual muitos trentinos atualmente rejeitam o uso do adjetivo tirolês para se referirem a si próprios é o fato de que, em todo o mundo, costuma-se associar os usos e costumes tiroleses (p.ex. música, construções, trajes típicos, culinária, etc.) à língua alemã; de forma que a própria expressão tirolês italiano seria, para essas pessoas, uma contradição em termos. Essa visão é completamente equivocada, sobretudo porque as fronteiras linguísticas no Tirol mudaram diversas vezes ao longo dos séculos de História.

Na província de Bolzano, por exemplo, a região do Vinschgau hoje é quase exclusivamente germanófona; porém até o século XVIII ali se falava a antiga língua ladina. Já os vales do Leno (Vallarsa e Trambileno), na Província de Trento, hoje quase exclusivamente italófonas, falavam um dialeto alemão (cimbro) até o início do século XIX. [1]

À esquerda: distribuição linguística no Tirol Meridional durante o século XIV. À direita: línguas faladas no Tirol em 1918. [1]

À esquerda: distribuição linguística no Tirol Meridional durante o século XIV. À direita: línguas faladas no Tirol desde 1918. [1]

Esse interessante aspecto será abordado em outra ocasião. Este texto se propõe a mostrar que essa contraposição entre italiano (ou seja, falante de uma língua itálica) e tirolês (habitante do Tirol), embora equivocada, não é um fenômeno recente. Já em fins do século XVIII, um grupo de intelectuais da cidade de Rovereto, reunidos na Accademia degli Agiati, publicavam trabalhos defendendo uma presunta italianità das regiões de língua italiana do Tirol que seria incompatível com o pertencimento ao condado tirolês. Um dos membros mais célebres da Accademia degli Agiati, que existe ainda hoje, foi o poeta Clementino Vannetti, filho de dois dos fundadores. Vannetti ficou famoso, particularmente, por responder com ferocidade “a qualquer um que se referia a Rovereto ou roveretanos como tiroleses.” [2] Ele gastava boa parte do seu tempo escrevendo sobre isso a diversos intelectuais. Um deles era o estudioso Girolamo Tiraboschi, livreiro da corte de Modena e considerado um “gigante da história literária italiana”. [2]

Giuseppe Valeriano Vannetti e Bianca Laura Saibante, pais de Clementino Vannetti e fundadores da Accademia degli Agiati. [5]

Em seu livro Governance & Grievance: Habsburg Policy and Italian Tyrol in the Eighteenth Century, a autora americana Miriam J. Levy relata um curioso episódio, ocorrido em 1780. Tiraboschi estava finalizando uma nova versão do seu respeitado e muito conhecido Storia dela letteratura italiana e ao mencionar os autores de Trento e Rovereto, incluiu-as como cidades do Tirol. Vannetti escreveu várias vezes a Tiraboschi protestando, o que rendeu uma pronta resposta do intelectual de Modena:

Quando o Storia de Tiraboschi, revisado, estava pronto para ser publicado, ele respondeu aos ataques de Vannetti provocando e “tranquilizando-o”. “Você pode ficar tranquilo”, escreveu ele, que “ao republicar meu Storia eu removerei o nome Tirol e adicionarei uma nota em que direi que Trento e Rovereto pertencem ao Tirol, mas o cav[aliere] Vannetti não quer admiti-lo – e que vencido por sua impertinência eu excluí o nome.” Vanetti, para não deixar por menos, escreveu de volta aprovando as mudanças que Tiraboschi mencionara; recebeu pronta resposta do prelado modenês, novamente infantilizando-o: “Agora que você aprovou minha ideia, direi que a partir de 1º de Abril de 1783”, a data da carta de Vannetti, “Trento e Rovereto não ficam no Tirol.” [2]

O poeta Vannetti [4]

Numa das muitas ocasiões em que “corrigiu” seus amigos intelectuais quanto ao adjetivo “correto” a se utilizar para se referirem aos roveretanos, Vannetti escreveu um soneto que passou para a posteridade devido a um verso em particular: “Italiani noi siam, non tirolesi”. Essa frase tornou-se um mantra para os intelectuais irredentistas que, em fins dos século XIX e início do século XX, desejavam a anexação do Tirol Italiano ao Reino da Itália. Ela também resumia o modo de pensar de Vannetti, que de acordo com um historiador do início do século XX tinha “‘uma sensação de horror… a visão horrível de um espírito tirolês bastardo unido em dois corpos diferentes e em rota de colisão’. Ele provavelmente teria considerado a frase ‘Tirol Italiano’ uma contradição em termos.” [2] Impossível evitar comparações com a postura de alguns “trentinos” de hoje.

As motivações de Vannetti para uma postura tão radical ficam mais claras se analisamos a versão completa (e menos conhecida) do famoso poema, escrito durante a visita do ator florentino Antonio Morrocchesi a Rovereto em 1790:

À esquerda: versão completa do famoso soneto de Vannetti. À direita: tradução.

À esquerda: versão completa do soneto de Vannetti. À direita: tradução. [1]

Das últimas duas estrofes, fica claro que Vannetti era movido, entre outras coisas, por uma uma visão abertamente racista dos alemães (especialmente dos tiroleses alemães). De fato, Miriam Levy escreve que

[…] as admoestações de Vannetti a amigos e conhecidos para que falassem corretamente sobre a “italianità” de sua pátria eram acompanhadas por sua perseguição, incitações e insultos aos alemães, especialmente os tiroleses alemães. Sempre que podia – em prosa, verso, jornais, cartas, reuniões de acadêmicos, audiências públicas – ele destinava sua amarga sátira à ridicularização dos alemães. [2]

Numa dessas ocasiões, em 1789, o poeta foi duramente repreendido pelo mesmo Girolamo Tiraboschi, livreiro da corte em Modena. Vannetti havia enviado a ele uma poesia,

[…] afirmando que havia encontrado o poema na biblioteca pública. Era um poema que por acaso não era muito elogioso aos alemães. (Vannetti frequentemente atribuía seus trabalhos a outros autores, desconhecidos). Tiraboschi não se deixou enganar pelo estratagema e reprimiu fortemente o poeta em sua resposta: “Você quer fazer graça às custas dos pobres alemães… parece-me que seu ódio é bastante geral. Algum mal deve ter sido feito a você pelos saxões, os bávaros, os alemães do Palatinado, de Brandenburgo, de Hanôver e dos Eleitorados, porque você os coloca todos em um mesmo saco e culpa-os todos por algo que é na verdade somente culpa de um ou de alguns poucos.” [2]

Girolamo Tiraboschi. Fonte: Wikimedia Commons
Girolamo Tiraboschi. [4]

Neste ponto, é necessário lembrar que Vannetti e os demais membros da Accademia degli Agiati pertenciam à elite intelectual e econômica do Tirol Italiano. Nos seus escritos, fica claro que parte da sua postura racista tinha como origem as disputas políticas e econômicas (sobretudo entre os produtores de vinho das regiões de Rovereto e Bolzano) que estavam em curso no Tirol e na Áustria.

Parece seguro afirmar que os camponeses da época não compartilhavam dessa visão da elite da região. Como exemplo, temos a canzonetta ai bravi e fedeli Tirolesi”, escrita em 1796 (somente 6 anos depois do soneto de Vannetti) e cantada pelos bersaglieri que partiam para defender as fronteiras do Tirol da invasão francesa. Entre outras coisas, os versos diziam

Tirolesi, tirolesi
Presto all’armi: ecco i Francesi;
Deh lasciate i patrj muri,
E al ribombo dei tamburi
Su correte a trionfar.
[…]
Quando in campo scenderete
Ricordatevi che siete
Tirolesi ed Italiani
E menate ben le mani
Senza un’ombra di timor. [3]

Além disso, quase cem anos depois, no período da Grande Emigração, termos do tipo “Tirol Italiano” ainda eram de uso comum entre a população camponesa, como atestam os registros do uso dessa e de outras expressões similares no Brasil. Esse assunto será tratado com mais detalhe na parte 3 desta série de posts.

Para ler a terceira parte da série, clique aqui.

 REFERÊNCIAS

[1] ALTMAYER, Everton. O dialeto trentino da Colônia Tirolesa de Piracicaba. São Paulo: DLM/FFLCH USP, 2014 (tese de doutorado). [2] LEVY, Miriam J. Governance and Grievance: Habsburg Policy and Italian Tyrol in the Eighteenth Century. West Lafayette: Purdue University Press, 1988
[3]  DALPONTE, Lorenzo. Uomini e genti Trentine durante le invasioni napoleoniche 1796-1810. Trento: Edizioni Bernardo Clesio, 1984
[4] Wikimedia Commons
[5] Accademia Roveretana degli Agiati di Scienze, Lettere ed Arte.
[6] Welschtiroler Schützenbund. Almanacco delle Compagnie Schützen del Tirolo Meridionale. Trento: Egon, 2012.

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Um comentário sobre “Mi son tiroles – parte 2

  1. […] De certo modo, a crise identitária vivida na Europa foi “importada” pelas organizações trentinas e passaram a fazer parte da realidade cultural das comunidades brasileiras de origem tirolesa. Os mitos criados pelo fascismo, tais como “tirolês é somente o habitante do Tirol na Áustria”, “trentinos não são tiroleses” ou “tiroleses falam alemão e trentinos falam italiano” foram trazidos e disseminados entre as comunidades tirolesas do Brasil que, até então, viviam e preservavam aquela velha identidade do Tirol Italiano, parte de uma província austríaca que – como a história demonstra – jamais tomou qualquer iniciativa para se separar do Tirol alemão ou do Império Austríaco. Sobre o assunto, recomendamos o seguinte texto. […]

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