Em memória de Guilherme Vitti

Prof. Guilherme Vitti (foto nossa).

Prof. Guilherme Vitti (foto nossa).

 

O Blog Tiroleses no Brasil gostaria de prestar uma modesta – porém cordial – homenagem à figura do Prof. Guilherme Vitti (1915 – 2015), de modo que sua memorável obra em prol da história da Colônia Tirolesa de Piracicaba seja cada vez mais conhecida e valorizada por sua importância e, sobretudo, por sua autenticidade e respeito às origens.

O portal Globo publicou uma nota sobre o falecimento de Guilherme Vitti, classificando-o como “descendente de italianos” nascido em uma “colônia tirolesa”.

Guilherme Vitti 1

Vitti frequentou o seminário, mas preferiu seguir a vida laica e se casou. Foi pai adotivo e teve netos, bisnetos e tataraneto. Como professor autodidata, atuou diretamente na criação do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba e foi um dos fundadores da Academia Piracicabana de Letras, dedicando anos de sua vida ao Arquivo da Câmara de Piracicaba. Guilherme Vitti foi o tipo de pessoa que nós entendemos por sábio. Um sábio não precisa ser necessariamente alguém culto, mas, neste caso, houve a união das qualidades. Ninguém melhor que ele soube descrever detalhes e curiosidades do passado da Colônia Tirolesa de Piracicaba e, principalmente, da comunidade de Santana. O motivo é simples e óbvio: ele vivenciou boa parte do que narrou. Dos 122 anos desde a fundação da comunidade de Santana, Guilherme acompanhou pessoalmente 100 anos, muitos dos quais dedicou . Isso fez dele uma “fonte viva” de informação.

Particularmente o autor deste texto, compartilhar alguns trechos dos trabalhos de Guilherme Vitti sobre os tiroleses de Piracicaba se torna uma dupla incumbência: implica em demonstrar seu compromisso com os motivos que justificam a imigração de seus antepassados, baseando-se em fatos e não em “achismos” e, por isso, torna-se uma retribuição, haja vista que tivemos algumas oportunidades de conversar sobre os assuntos tratados a seguir.

 

“Esperança de uma vida nova”.

Os "patriarcas" do bairro Santana, Bortolo Andrea Vitti e Maria Maddalena Saltori.

Os “patriarcas” do bairro Santana, Bortolo Andrea Vitti e Maria Maddalena Saltori.

Uma obra importante que narra o início da vida dos imigrantes tiroleses fundadores da Colônia Tirolesa de Piracicaba (principalmente do Bairro Santana) é o texto intitulado En contadin de Meano che s’ha fat bon brasiliano (“Um camponês de Meano que se tornou bom brasileiro”), escrito em dialeto ou, como afirmava o autor, “escrito no dialeto tirolês, usado por um século” no Brasil. Trata-se da história da vinda do imigrante tirolês Bortolo Vitti e de sua família para o Brasil. Durante os festejos em comemoração ao centenário da vinda dos tiroleses a Piracicaba, em 1977, o texto foi traduzido para o português e e intitulado “Esperança de uma vida nova”, que chegou a ser adaptada para uma peça de teatro outrora encenada pelos descendentes, embora com menos detalhes (sobretudo aqueles que serão apresentados abaixo).

Possuímos um exemplar original de 1977, onde, para identificar os imigrantes, não aparece a palavra “trentinos”, mas somente “tiroleses”.

A introdução da história, por si só, merece atenção:

Introdução de "Esperança de uma vida nova" (1977).

Introdução de “Esperança de uma vida nova” (1977), tradução em português do original escrito em dialeto tirolês, dito “dialèt tiroles” (ou dialeto trentino).

“O estilo romanceado do trabalho não diminui seu valor, pois, os fatos e nomes dos biografados são todos de fundo real, já que a narrativa está baseada em documentos que me foram entregues por minha avó materna, e também em informações conseguidas junto aos filhos de Bortolo, não esquecendo que os pormenores foram fornecidos por meus pais e tios mais idosos. O original está escrito no dialeto tirolês, usado por um século para se comunicarem entre si. Os trinetos já não o usam mais, tendo dificuldade em entender o dialeto. Para que eles não perdessem o conhecimento da história de seus antepassados, resolvi passar o original para o português, aliás a pedido deles. Piracicaba, agosto de 1977, ano do centenário da vinda dos tiroleses para o Brasil”.

Prof. Guilherme Vitti, bisneto de Bortolo, neto de Jorge e Angelo, filho de José e Angelina.

 

 

O texto narra a vinda da família Vitti e de demais famílias tirolesas desde a realidade vivida no Tirol, a decisão de imigrarem, as esperanças do que encontrariam na América e os primeiros anos em terras brasileiras. O valor histórico da narração ganha peso com o fato de Guilherme ter ouvido essas histórias desde a infância, contada por aqueles que vivenciaram a imigração. Guilherme era neto de dois filhos do imigrante Bortolo, por conta de casamento entre primos (seus pais).

 

O motivo da imigração.

À página 2, vemos uma narração sobre a preocupação da família Vitti em ver sua terra invadida por estrangeiros. A pressão política no Tirol após 1866 (quando os tiroleses expulsaram Garibaldi que tentou anexar Trento ao Reino da Itália) ocasionou o embargo italiano aos produtos tiroleses, gerando empobrecimento no campo. O Tirol Meridional vendia boa parte de seus produtos para as regiões do Vêneto e da Lombardia (que integraram o Império Austríaco de 1815 a 1866).

A possibilidade de uma guerra no Tirol era eminente. Apesar dos ânimos, muitos cidadãos italianos residiam e trabalhavam na Áustria, assim como muitos cidadãos austríacos (principalmente da região trentina), trabalhavam e estudavam em universidades da Itália. À página 2, lemos:

“Se não houvesse o perigo de guerra… Não ouviu esta noite como gritavam os italianos, lá no caminho: ‘O Tirol para a Itália, o Tirol para a Itália’…

Bortolo pensativo, não dormiu a noite toda”.

A preocupação da família Vitti.

Página 02. A preocupação da família Vitti.

 

À página 3, vemos que as dúvidas de Bortolo Vitti se dissiparam após um desagradável episódio envolvendo seus filhos Angelo, Giorgio e Beniamino, ainda crianças, que tiveram parte das orelhas mutiladas por italianos (não se sabe se cidadãos italianos residentes no Tirol ou se por filo-italianos locais). Os assim chamados “carbonários” (nome de uma sociedade secreta que promoveu a unificação italiana no século XIX) tentaram forçar as crianças a dizer “abaixo a Áustria”.

Os avôs de Guilherme Vitti (Giorgio e Angelo) não tinhan parte da orelha, fato confirmado, inclusive, pelo jornalista trentino Renzo Maria Grosselli que entrevistou o professor piracicabano.

A mutilação de parte da orelha tem ligação com um fato histórico envolvendo o revolucionário Giuseppe Garibaldi que usava sua famosa boina para esconder dos demais que lhe faltava uma orelha, cortada como punição (conforme costume da época) por ter sido ladrão de cavalos na juventude. Cortar as orelhas de tiroleses era considerado uma “vingança simbólica” por parte de irredentistas (filo-italianos) mais radicais. À página 3, lemos:

“Quando João ia voltando, ouviu alguém chorar.

– Mas o que há?… Que fizeram, meninos?… Nossa Senhora, sangue?!… Angelo, Jorge, Benjamin… o que fizeram?

– Nada… foram os carbonários. Eles nos cortaram a ponta das orelhas porque não quisemos gritar: Abaixo a Áustria.

– Miseráveis… Porcos… Você tem razão, Bortolo… É melhor a gente ir embora…”

O motivo da imigração.

O motivo da imigração da família Vitti.

 

À página 16, lemos um relato da chegada e da primeira experiência “brasileira”: comer bananas. Já no Brasil, os imigrantes tiroleses foram confundidos por um brasileiro como sendo italianos, no que respondem prontamente qual era a sua real origem.

“- Que fruta será aquela amarela?

– Pergunte você.

– Como dizê-lo? E se não me entender?… Vou arriscar… Você aí, venda-me uma…

– Uma banana? Um vintém cada uma.

– É banana, rapaz… Vamos comer uma cada um?

– Dê-me cinco.

– Vocês são italianos?

– Não, não… Tiroleses…”

– Ah… sei, sei… Tome lá as bananas e o troco.

"No, no... Tirolesi".

“Italianos? No, no… Tirolesi”.

 

A primeira versão do texto, escrita em tirolês (dialeto trentino), foi publicada como apêndice do livro Da schiavi bianchi a coloni, un progetto per le fazendas (“Da escravos brancos a colonos, um projeto para as fazendas”) do autor trentino Renzo Maria Grosselli. A capa do livro conta, inclusive, com uma foto de filhos e netos de Bortolo Vitti.

Guilherme Vitti, atento às particularidades do idioma materno, utilizou no texto as vogais ö e ü (em transcrição fonética respectivamente [ø] e [y]), típicas do antigo falar da região de Trento e ainda presentes na fala dos mais velhos da Colônia Tirolesa de Piracicaba. Contudo, utilizou as duplas -ll-, -rr- e -tt- inexistentes no dialeto tirolês (e demais falares do setentrional italiano):

Trecho do texto de Guilherme Vitti publicado como apêndice no livro de Renzo M. Grosselli.

Trecho do texto de Guilherme Vitti publicado como apêndice no livro de Renzo M. Grosselli (p. 390).

 

Imigrantes austríacos do Tirol

Passaporte austríaco de Bortolo Vitti.

Passaporte austríaco de Bortolo Vitti.

No ano de 1977, para as comemorações que recordaram a chegada da família Vitti ao Brasil, o bairro de Piracicaba contou com a presença do cônsul austríaco e de sua esposa. Apenas um registro sonoro foi feito dos festejos, pequenas entrevistas com alguns dos moradores mais idosos. Logo no início da gravação, ouvimos a entrevistada zia Gigia, então a moradora mais idosa à época viva, neta de Bortolo Vitti. Quando indagada para que dissesse qualcòs en tiroles (“algo em tirolês”), cantou imediatamente o refrão de uma antiga canção cantada por seus pais e avós vindos de Cortesano e Meano, no Tirol:

 

Noialtri austriachi         [Nós austríacos]

Portiamo la bareta        [Usamos a boina]

Fucile e baioneta            [Fuzil e baioneta]

Per nostro imperator    [Por nosso imperador]

(Angelina Vitti, “zia Gigia”, Centenário de Santana, 1977)

 

No bairro Santana não vivem apenas descendentes de tiroleses. Há também, desde muito tempo, famílias de origem italiana (entre outras). Entretanto, até meados de 1980, a cultura predominante foi a tirolesa. Os festejos de 1977 fizeram com que a comunidade chamasse a atenção por seu “isolamento” e realidade cultural. A presença do cônsul austríaco demonstrava, entre outras coisas, que havia entre os descendentes uma forte ligação com a identidade dos imigrantes.

Um ano após, deu-se início à fundação do Circolo Trentino local. Com o tempo, as “novidades” vindas com a influência cultural da atual Província de Trento e de suas Ongs ajudaram a transformar os descendentes de Bortolo em “trentinos” (palavra totalmente desconhecida pelos descendentes até então). Hoje, uma escassa minoria de moradores jovens no local, como pudemos observar, leu ou conhece o texto Esperança de uma vida nova.

Dessa forma, o intuito de Guilherme Vitti, “para que eles não perdessem o conhecimento da história de seus antepassados” parece não encontrar espaço na atual conjuntura da comunidade de Santana. O mesmo se diz da placa comemorativa de 1977, feita para ser ad perpetuam rei memoriam, mas, infelizmente, está “escondida” ao invés de ser exibida em algum local público do bairro.

Placa comemorativa de 1977. Em memória dos imigrantes tiroleses.

Placa comemorativa de 1977. Em memória dos imigrantes tiroleses.

Apesar dos vários “esforços” para trentinizar os descendentes de tiroleses na comunidade, seus moradores são conhecidos no contexto piracicabano pelo adjetivo que os identifica há mais de um século. Neste ano, uma reportagem publicou uma foto do Prof. Guilherme Vitti durante os festejos de seu centésimo aniversário.

Jornal de Piracicaba (Jul/2015).

Aniversário de Guilherme Vitti. Jornal de Piracicaba (Jul/2015).

 

Como de costume, deixamos a conclusão aos leitores.

 

 

 

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9 comentários sobre “Em memória de Guilherme Vitti

  1. Sou descendente de Bortollo e moro em Santana…. O livro e o texto é repleto de cultura e me sinto honrada de ter tido o prazer de conhecer a casa de Bortollo em cortesano e saber que a nossa história, foi tão reverenciada e homenageada com grande importância pelo grande sábio Guilherme Vitti ! Tenho 27 anos, mas sempre convivi com a cultura e a história dos nossos antepassados , contudo sinto um misto de tristeza por ver que a nossa cultura não é tão preservada pelos mais novos do bairro . Espero que essa realidade mude em breve

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  2. Meus bisavós(Carlos Vitti e Rosa Vitti)chegaram a Santa Catarina no vapor Colombo em 12/02/1878 juntamente com Luigi Vitti,Andrea Vitti,Luigi Vitti,Maria Vitti,Maria Vitti,Teresa Vitti e Giovani Vitti e a principio se estabeleceram em Ascurra (SC) e depois de anos foram morar na região de Itajai(Itaipava).Se alguém tiver notícias de meus bisavós e de seus parentes gostaria de tomar conhecimento.

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    • Eu sou neta de Luigi Vitti q se casou com Francisca macoppi ..Rosa e Carlos provavelmente eram meus tios avós…Vc então e meu parente…Meu avô era Luigi Vitti q na lista chegou em Itajai com 13 anos….Ñ o conheci. ..mas meu pai era filho dele e tb Ambrosio. .Gelindo…Carolina e Rosa..todos irmãos de neu pai…meu face e davitti vitti…entre em contato

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  3. Agradeço e parabenizo os criadores do blog por tantas informações valiosas e de grande importância, até a data de hoje eu pensava ser descendente de italianos, mas na verdade meus antepassados eram austríacos. Meus trisavos paternos vieram de Canal San Bovo e se chamavam Giacomo Sperandio e Anastazia Loss, chegaram ao Brasil em novembro de 1897 e residiram no município de Santa Teresa no estado do ES. Conhecer a história de minha família sempre foi algo que me chama atenção.

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  4. Sou descendente de Bortolo Vitti. Meu tataravô é o Ângelo Vitti, filho de Bortolo. Muito Boa a publicaação!! Meus parabéns!! Gostaria de saber onde encontro o texto traduzido, pois só tenho ele no dialeto e, como bem explicado no texto, nós tataranetos não conseguimos mais compreender o dialeto.

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