Comprovada a imigração que não foi.

Um recente artigo publicado no portal da Revista Insieme, da comunidade ítalo-brasileira, reproduz o conteúdo de uma notícia do site do Arquivo Público do Espírito Santo e chama a atenção por sua contundente afirmação. No entanto, a História demonstra tratar-se de um engano.

A notícia da Revista Insieme (clique para ampliar).

A notícia da Revista Insieme (clique para ampliar).

Ao acompanhar as informações contidas no artigo em questão, percebe-se que existe a intenção de se “comprovar” que o belo município capixaba foi a primeira cidade “italiana” do Brasil. Logo no primeiro parágrafo do texto, lemos:

“Um pedido de ressarcimento feito pelo colono Francesco Merlo encaminhado no dia 28 de outubro de 1874 ao presidente da Província. Francesco solicita do governo a restituição dos gastos que teve com a passagem da Itália à Colônia de Nova Trento, no valor de 122 fiorins, pelo fato de não ter sido reembolsado pelo contratante Pietro Tabacchi. O pedido foi deferido pelo Presidente da Província em 26 de fevereiro de 1875. O documento, do Arquivo Público do Estado, é o que referenda Santa Teresa como a primeira cidade fundada por italianos no Brasil”.

O documento “comprovador” está disponível online no portal do Arquivo Público do Estado do Espírito Santo, que publicou a seguinte notícia:

“Documento do Arquivo Público referenda Santa Teresa como a primeira cidade fundada por italianos no Brasil”.

Arquivo Publico ES

Site do Arquivo Público

Percebe-se, portanto, que a notícia publicada pela Revista Insieme se baseia nas informações contidas no portal do Arquivo Público capixaba (link). O leitor atento não questionará o documento, muito menos a intenção da revista ou do arquivo com a notícia. O problema está na “comprovação”, isto é, na interpretação do documento. Não é preciso ser nenhum Sherlock Holmes para compreender que a falácia encontra-se exatamente no quê se pretende “comprovar” com o documento. Elementar, caro leitor: trata-se de mais um caso de deturpação da história da imigração tirolesa (e austríaca) no Brasil.

1 – A colônia Nova Trento.

Fundada em 1874 com 388 imigrantes austríacos de língua italiana saídos do Tirol, a Colônia Nova Trento recebeu este nome em homenagem à cidade natal de seu fundador, Pietro Tabbachi. Tratou-se de uma experiência frustrada porque boa parte dos colonos não concordou com as cláusulas contratuais estabelecidas pelo proprietário da fazenda (o próprio Tabbachi). Diante do ocorrido, Tabbachi fez circular um aviso:

Comunicação. Aviso. Pietro Tabacchi, tendo contratado diversos colonos do Tirol Italiano para a sua fazenda, situada no Município de Santa Cruz, avisa que procederá com todo o rigor, em conformidade com a lei de 11 de outubro de 1837, contra quem engajar ou admitir tais colonos em qualquer trabalho privado. E, para que ninguém possa alegar ignorância destes fatos, publica este aviso na imprensa. Vitória, 06/05/1874

As várias reivindicações dos colonos tiroleses contaram, inclusive,  com o apoio do Consulado Austríaco do Rio de Janeiro. Por que será?

2 -Um passaporte da época.

Vejamos o passaporte de um imigrante que se estabeleceu na Colônia Nova Trento. O conteúdo do documento dispensa comentários.

Passaporte de imigrante austríaco estabelecido em Santa Teresa.

Passaporte de imigrante austríaco do Tirol estabelecido na Colônia Nova Trento, em Santa Teresa.

3 – O valor de 122 florins.

Talvez a “pista” mais óbvia seja a informação sobre o imigrante ter pedido a restituição do valor que gastou para imigrar: 122 Florins. Bastaria perguntar: qual era a moeda corrente do então Reino da Itália em 1874? Era a Lira Italiana. Mas o imigrante em questão não pagou a passagem ao Brasil com nenhuma Lira, mas com 122 Florins! Qual nação utilizava o Florim? Elementar, caro leitor: o Império Austríaco.

Florim austriaco 1874

1 Florim Austríaco de 1874. Na moeda, vemos o busto do imperador austríaco Francisco José (Franz Joseph ou Francesco Giuseppe) e é possível ler nitidamente a palavra Austriae que, em latim, significa “da Áustria” (porque imperador), assim como Hvngar e Bohem. e Gal. (porque rei da Hungria, Boêmia e Galícia).

4 – O imigrante “italiano” e o documento “comprovador”.

Pedido de Francesco Merlo 1875

Pedido de Francesco Merlo

Francesco Merlo chegou ao Brasil a bordo do navio La Sofia, em 1874, juntamente a esposa, Dalila Cappelletti, e mais quatro filhos. Francesco era natural de Trento e sua esposa de Covelo, ambas cidades do Tirol Italiano (ou Tirol Meridional), território que pertenceu à Áustria de 1363 a 1918. Todos os membros da família entraram no Brasil apresentando passaporte austríaco. O pedido do imigrante é datado de 1874, mas foi deferido pelo então presidente da Província do Espírito Santo em 1875. Não foi escrito pelo imigrante e isso se nota facilmente ao compararmos a caligrafia. Francesco Merlo apenas assinou o documento, haja vista que o valor gasto com a viagem não foi reembolsado por Pietro Tabbachi. No primeiro trecho seu pedido, consta a seguinte informação:

“Francesco Merlo, colono italiano estabelecido na Colônia de Santa Leopoldina, no Districto de Timbuhy à margem da estrada de Santa Thereza, que tendo sido por Pedro Tabaqui (sic) em Trento na Itália comunicado para vir para seu estabelecimento a fim de ser colono”.

Como era possível que um imigrante austríaco fosse um “colono italiano” e que no documento conste a informação “Trento na Itália”? Ainda que o autor do documento não seja o colono e, por mais estranho que possa parecer em um primeiro momento, tais informações não indicam contradição em se tratando do Tirol.

Mapa linguistico Austria-Hungria

Mapa austríaco do século 19 que indica os idiomas presentes no império.

Unido ao Ducado Austríaco desde 1363, o território de Trento era conhecido como Tirol Italiano, não apenas pelo idioma predominante, mas também por uma questão geográfica. A expressão Itália, até 1918, não indicava apenas a nação (Reino da Itália), mas toda a Península Itálica, onde há séculos convivem diferentes realidades étnicas e linguísticas. Vale lembrar que o Império da Áustria, unido ao Reino da Hungria, era formado por austríacos de língua alemã, italiana, friulana, ladina, tcheca, eslovaca, eslovena, polonesa etc. A atual Áustria “alemã” é uma realidade de 1920; o que havia antes da Primeira Guerra Mundial era uma monarquia com vários idiomas oficiais, reconhecidos em par de igualdade pelo antigo Parlamento de Viena.

5 – A verdadeira primeira colônia italiana.

Comprovadamente, a primeira experiência com colonos italianos no Brasil se fez muito antes de 1874 com a Colônia Nova Itália (ou Dom Afonso), fundada em 1836 na região do atual município catarinense de São João Batista (então São Miguel). Os primeiros habitantes eram 132 imigrantes italianos saídos do então Reino da Sardenha (posteriormente Reino da Itália) e trazidos ao Brasil pelo ítalo-inglês Carlo (Charles) Demaria e pelo suíço Heinrich Schutel.

6 – No Espírito Santo: Alemães ou italianos, mesmo se austríacos.

Imigrante austríaco do Tirol radicado em Santa Teresa.

Imigrante austríaco do Tirol em Santa Teresa.

Muitos registros da imigração europeia no ES simplesmente não mencionam a imigração austríaca, embora o número de imigrantes que entrou no estado com passaporte austríaco seja considerável. Trata-se, sem dúvida, de uma “herança” do precário modo de se registrar os imigrantes, baseando-se unicamente no idioma que falavam. No caso dos tiroleses, isso fica evidente. Se vinham dos vales onde se falava o idioma alemão , os imigrantes tiroleses eram classificados como “imigrantes alemães”, se oriundos dos vales meridionais, onde predominava o idioma italiano, os imigrantes tiroleses eram classificados como “italianos”. Mas seria essa visão unicamente brasileira ou indicaria uma visão étnico-linguística da própria Europa? Em 1910, o viajante alemão Hugo Wernicke publicava em Potsdam, Alemanha, seu livro “Viagem pelas colônias alemãs do Espírito Santo” (original em alemão), no qual apresenta principalmente a realidade das comunidades luteranas no território capixaba. Na obra, o escritor chama de “alemães” os colonos austríacos fundadores da Colônia Tirol, em Santa Leopoldina, bem como os colonos suíços fundadores da Colônia Suíça.

“Algumas horas adiante de Santa Teresa encontramos outra vez
uma região alemã. (…) Estamos agora na [colônia] Suíça, entre saxões e suíços”.
Imigração Suiça ES

Livro de von Tschudi

No mesmo livro, o viajante chama os habitantes de Santa Teresa de colonos “italianos”. No entanto, vale lembrar que a colônia não recebeu apenas tiroleses, mas um grande número de vênetos que era, de fato, imigrantes saídos do Reino da Itália e, portanto, italianos. Todavia, vemos que Wernicke não fez nenhuma distinção entre austríacos e alemães, entre suíços e alemães ou entre austríacos e italianos. Classificou-os segundo seu idioma. Mas, seria apenas esse o critério, ou seja, o idioma? Entre 1866 e 1868, publicou-se na cidade alemã de Leipzig a obra “Viagem pela América do Sul” do viajante suíço Johann Jakob von Tschudi, que continha um capítulo dedicado à “Província do Espírito Santo”. Tratou-se da publicação do diário de viagem de Tschudi (originalmente escrito em francês) sobre as áreas coloniais do Espírito Santo habitadas por colonos falantes do alemão. Ao tratar das precariedades e dificuldades encontradas na Colônia Santa Leopoldina, o viajante afirma o seguinte:

“Os colonos, em número de 1.003 (232 chefes de família), são originários de diversas regiões da Alemanha. Além dos suíços (104), há os naturais de Hanover (4), de Luxemburgo (70), da Prússia (384), da Baviera (10), de Baden (27), do Hesse (61), do Tirol (82), de Nassau (13), do Holstein (13), de Mecklemburgo (5), da Saxônia (76), além de belgas (8), holandeses (126), um francês, um inglês e alguns brasileiros de nascimento”.

Ora, como seriam da Alemanha os imigrantes da Suíça e do Tirol?

Dedicatória presente na tradução do diário de Tschuri.

Dedicatória presente na tradução brasileira do diário de Johann Jakob von Tschudi.

Tratava-se de uma questão compreensível e contextualizada na Confederação Germânica, uma associação política dos principais territórios de língua alemã que formavam o Sacro Império Romano-Germânico, dissolvido em 1806 por Napoleão Bonaparte. Tratou-se de um acordo feito durante o Congresso de Viena (1915) que, sob hegemonia austríaca, estabelecia um pacto de união entre as antigas nações que compunham o território do Sacro Império (cujas bases estavam fincadas nos domínios medievais de Carlos Magno). Contudo, a Suíça, ou Confederação Helvética, não fazia parte da Confederação Germânica e, muito provavelmente, Tschudi os tenha incluído entre os “alemães” porque os colonos eram falantes do alemão.

—–

Das mistificações às macarronices.

A apresentação da tradução do livro de Johann von Tschudi, escrita pelo governador do ES, Sr. Paulo Hartung, traz a seguinte frase:

“A memória se faz de lembranças, mas também de esquecimentos”.

E acrescentaríamos que se faz também a partir de releituras. A ideia de italianidade entre muitos brasileiros, descendentes ou não de imigrantes, é permeada de estereótipos e contradições. O mesmo se dirá da ideia que se faz dos “alemães”.

Por vezes, o imaginário distorce a realidade.

Por vezes, o imaginário distorce a realidade.

Todo resgate pressupõe perda. Ora, não se resgataria algo se já não estivesse perdido. No entanto, as (re)construções da identidade a partir de leituras muitas vezes superficiais ou direcionadas (como no caso de entidades “trentinas” atuantes no Brasil) podem resultar em nítidos “esquecimentos” (nem sempre involuntários), aos quais se juntam visões distorcidas e estereotipadas.

Em uma publicação datada de dezembro de 2001, a mesma Revista Insieme trazia as impressões do colunista Tullio Pascoli sobre os estereótipos da “italianidade alla Terra Nostra”:

“Ora, eu admiro muito os oriundi que se esforçam em manter vivas as próprias raízes, mas devo igualmente alertar que certas atitudes fogem um pouco dessas raízes que eles pretendem “redescobrir” (…) É frequente ver, por exemplo, ítalo-brasileiros vestidos com roupas imitando as do Tirol, dançando nada menos que uma tarantella com chapéu de montanhês ou tirolês na cabeça e cantando canções como O sole mio, Torna a Surriento, Santa Lucia, etc., que são de origem napolitana. (…) Misturar as duas tradições é o equivalente a misturar cantos e danças da caatinga, as roupas dos cangaceiros do Nordeste brasileiro com os cantos, as roupas e danças dos gaúchos… (…) é preciso alertar que às vezes esse tipo de boa vontade pode produzir efeitos negativos e contrários e no lugar de difundir cultura, se corre o risco de fazer uma ‘anti-cultura’. A esses aspectos pouco ortodoxos se soma a imagem negativa que se forma diante dos italianos, os quais estranham estas misturas ‘meio gastronômicas’ e as acham divertidas”.

Os resultados das “misturas gastronômicas” estão aí, como se vê:

E não fazem parte, somente, da realidade capixaba.

Vejamos, por exemplo, o folheto informativo da Festa Trentina que, há alguns anos, realiza-se na Colônia Santa Maria do Novo Tirol, pertencente à cidade paranaense de Piraquara. A começar pela imagem que pretende representar a “chegada” dos imigrantes, o leitor atento notará tratar-se de mais um autêntico caso de deturpação da história da imigração tirolesa, baseado em estereótipos e contradições ad hoc.

Santa Maria do Novo Tyrol

Interessante notar que, apesar de o nome da colônia ser Novo Tirol e, apesar de ter sido fundada por imigrantes austríacos, os responsáveis pelo evento rebatizam o local como “parque trentino” e o folheto  traz a seguinte informação:

“Em 1878, 59 famílias oriundas da Província de Trento, na Itália, foramaram a Colônia Santa Maria do Novo Tirol”.

Santa Maria do Novo Tyrol 2

Novamente, não é necessário grande esforço para compreender que se trata de uma falácia do ponto de vista histórico. Ora, tendo saído do Tirol, território pertencente ao Império Austríaco, os imigrantes tiroleses batizaram a colônia com o nome de sua região de origem: Novo Tirol. Em 1878 não havia nenhuma “Província de Trento” (uma realidade política de 1923, portanto 45 anos após a fundação da colônia). Uma placa presente em Novo Tirol traz informações corretas:

Placa que indica a procedência dos imigrantes fundadores da Colônia Novo Tirol.

Placa que indica a procedência dos imigrantes fundadores da Colônia Novo Tirol.

Muitos são os exemplos de contradições criadas a partir de estereótipos do tipo “se falava italiano, então o imigrante era italiano”. No caso da imigração tirolesa, o aspecto linguístico não foi suficiente para se formar a identidade nacional. Tratou-se de imigração austríaca porque na Áustria de então, o idioma italiano era oficial.

As visões distorcidas, que não condizem com a história da imigração porque promotoras de estereótipos, dificultam muitos projetos de “resgate” levados a cabo por alguns descendentes. Naturalmente, não é possível – nem cabível – trazer toda a realidade de outrora para os dias atuais, mas fica a pergunta se é válido modificar o passado para justificar o presente. Ex nihilo nihil fit.


Referências Bibliográficas.

PASCOLI, Tulio. L’Italiano che è in te. In: Rivista Insieme. nº 36 Dezembro de 2001. p22.

TSCHUDI, Johann Jakob von. Viagem à Província do Espírito Santo. Imigração e colonização suíça, 1866. Vitória: Arquivo Público do Estado do Espírito Santo, 2004. (Link)

WERNICKE, Hugo. Viagem pelas colônias alemãs do Espírito Santo. Vitória: Arquivo Público do Estado do Espírito Santo, 2013. (Link)

Para consulta.

BERTONHA, João Fábio. Le rappresentazioni degli italiani in Brasile – Centocinquanta anni di immagini, stereotipi e contraddizioni. Diacronie. Studi di Storia Contemporanea, 29/01/2011 (Link).

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7 comentários sobre “Comprovada a imigração que não foi.

  1. Caros Everton e Misael,

    Antes de mais nada, parabéns pela iniciativa de criação do blog e pelo conteúdo. O meu bisavô nasceu em Trento em 1871, tinha nome italiano, mas jamais disse ter nascido na Itália. Pelo contrário, tinha muito orgulho em afirmar que era austríaco e tirolês de nascimento. Mesmo após o território ter sido anexado à Itália, ele jamais negou as origens.

    Abraços.

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  2. Minha familia e oriunda de Trento, fundadores da Colonia Sta Maria do Novo Tirol da Boca da Serra (Matias Gaio, meu avo)…
    Parabens pela iniciativa e obrigada pelas otimas informaçoes e preservaçao da historia…

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  3. […] Os tiroleses estabelecidos na fazenda Nova Trento encontraram dificuldades e houve, inclusive, sérios problemas entre Tabbacchi e alguns colonos, chegando ao ponto de ser necessária uma intervenção da segurança pública local. Houve, além disso, um pedido de ajuda (atendido) pelo consulado austríaco instalado no Rio de Janeiro. Infelizmente, a chegada desses imigrantes austríacos ao Espírito Santo tem sido instrumentalizada como “início da imigração italiana no Brasil” pelo simples fato desses imigrantes  (aqui chegados com passaporte austríaco) falarem o idioma italiano. Sobre o assunto, conferir o post Comprovada a imigração que não foi. […]

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  4. Sou descendente de trentinos, o avô materno (e vênetos, a avó materna), além de portugueses por parte de pai. Pelo pouco que conheço da História – tanto da imigração (de modo geral como da minha família) quanto da formação da Itália e da Áustria, a mim me parece que há distorções nas duas versões. Pelo que entendo, até 1861 a Itália não existia (era formada por vários estados nacionais), assim como a Áustria (pertencia ao Império Austro-Húngaro) e passou a existir somente em 1920 com o tratado que redefiniu as fronteiras europeias. Também a Alemanha não existia, unificada somente em 1871. Nem vamos considerar o passado anterior… Parece-me que o critério usado no Brasil seja mesmo o da língua, o que me parece bem razoável. Afinal, o Império Austro-Húngaro deixou de existir, assim como o Império Romano… Meu nonno (filho de trentino) era considerado italiano e nunca contestou. Eu mesmo estou estudando a procura de entender o que significa ser tirolês, trentino, italiano, austríaco, húngaro, alemão… Por enquanto, acho que os tiroleses do trentino (incluindo o Alto Ádige) são italianos (a nacionalidade), assim como são os napolitanos, sicilianos, vênetos, ladinos… Mas é compreensível que os trentinos de língua germânica não se sintam à vontade com esta situação. Se não estou enganado, em 1920, quando aquele território passou a pertencer à Itália, os tiroleses (tanto os de língua latina como os de língua germânica) tiveram 5 anos de prazo para optar pela nacionalidade italiana ou austríaca. De todo modo, entendo (por enquanto) que as pessoas do Trentino-Alto Ádige, de língua italiana ou alemã ou ladina, sejam tiroleses e italianos – assim como eram cidadãos do Império Austro-Húngaro quando imigraram, assim como os gaúchos, cariocas, baianos, acrianos são brasileiros…

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    • Prezado Sr. Nogueira:
      Obrigado pelo comentário. A partir do que o Sr. afirma (“pouco que conheço da História”) faremos alguns comentários no intuito de explicar alguns pontos levantados, sempre com base na história da região tirolesa, da Itália e da imigração austríaca. Vamos lá:

      1 – Sobre “distorções”.
      a) A Áustria jamais pertenceu a um Império Austro-húngaro. A Áustria formava desde a Idade Média um estado independente no conglomerado do Sacro Império Romano-Germânico (até 1806). A partir do século 12, os imperadores do Sacro Império eram os duques da Áustria. Em 1806 o Império é findado com a invasão napoleônica e o imperador do Sacro Império torna-se Imperador da Áustria. Em 1867, o Império da Áustria se une ao Reino da Hungria (união feita com acordo, jamais formaram um único estado) e o termo “austro-húngaro”, embora bastante usado, não é correto do ponto de vista administrativo, haja vista que tanto a Áustria como a Hungria possuíam parlamentos separados, participavam separadamente das Olimpíadas e tinham bandeira e hino próprios; somente parte do exército e alguns departamentos oficiais eram verdadeiramente “austro-húngaros”.
      b) Como “Itália” podemos entender duas realidades: a geográfica, referente à Península Itálica (chamada desde a época clássica como Itália) e o país Itália, formado a partir das guerras de unificação/imperialismo (repito: guerras) que anexaram ao Reino de Sardenha (posteriormente rebatizado como Reino da Itália) vários territórios que, segundo o senso comum, falavam o idioma italiano. Garibaldi tentou anexar o Tirol Meridional sem sucesso (quase foi capturado e teve de fugir às pressas, surgindo posteriormente o mito sobre a batalha de Bezzeca).
      c) Devemos, SIM, considerar o passado anterior para poder entender o contexto social e histórico da imigração tirolesa. Sem conhecimento do passado, fica muito difícil compreender tal realidade.
      d) Critério de “língua” não pode ser “razoável” em se tratando da Áustria-Hungria, onde 12 eram os idiomas oficiais, entre eles o italiano (sem contar as línguas não oficiais, como o ladino, o friulano, etc). Se compararmos tal realidade à do Brasil, podemos pensar que a Língua Geral foi o idioma corrente até meados do século XVIII, mantida ainda hoje em algumas comunidades (nhengatu). Vale lembrar que nenhum linguista brasileiro (inclusive o que aqui escreve) poderia considerar a língua portuguesa como única expressão da linguagem dos brasileiros: além das mais de 150 línguas indígenas, no Brasil também se fala, por exemplo,talian (koiné de base vêneta), alemão Hunsrückisch. Foram os nacionalismos do final do século 19 e início do século 20 (entre os quais o fascismo e o nazismo) a considerar a língua/idioma como pressuposto para demarcações de fronteiras nacionais. As consequências foram desastrosas.

      2 – O Sr. utiliza o termo “Trentino-Alto Adige” para se referir à região de Trento. Trata-se, sem dúvida, de um termo oficial e em uso, mas não histórico e absolutamente controverso, visto que foi imposto em agosto de 1923 (decreto fascista) e ainda há lei italiana que o garante. Na época da imigração, nenhum imigrante (a não ser que fosse da cidade de Trento ou do assim chamado “distretto trentino”) se definia como “trentino”. Os imigrantes eram tiroleses, porque saídos do Tirol (região assim definida oficialmente desde o século 14 até 1918).

      3 – Infelizmente, não podemos nos basear – ao menos aqui – em “achismos”. Portanto, o sentimento dos atuais “trentinos” (sejam eles de língua italiana, germânica ou ladina) só poderemos analisar (talvez) em contextos de números e expressões que até aqui nos chegam. Certo é que a República Italiana jamais permitiu um referendo sobre a autodeterminação, haja vista o grande número de simpatizantes pelo separatismo. Coincidência? No entanto, podemos, sim, analisar as expressões de nacionalidade austríaca dos imigrantes tiroleses chegados ao Brasil no século 19.
      Visto que existe certa intenção em colocar todos os imigrantes que falavam italiano em um “mesmo saco”, criamos este blog para apresentar fatos históricos que demonstram que tal postura é errônea. Lembremo-nos, por exemplo, do cantão suíço de Ticino, onde se fala o italiano. Os que de lá emigraram eram imigrantes italianos? Ou suíços de língua italiana? Obviamente, a segunda pergunta condiz com a realidade, assim como no caso dos tiroleses.

      4 – Sobre a opção de 1920, lamento em dizer que o Sr. está enganado. Tal “opção” (feita com armas) obrigou quem ficasse em seus lares de continuarem a ser cidadãos austríacos. Essa questão perdurou até 1970 na ONU e até hoje é um problema jurídico em aberto. Atualmente (2015), voltou a ser discutido no parlamento de Viena e eprdura na política de Trento e Boze/Bolzano (não sem polêmicas).

      5 – Basta ver o passaporte de um imigrante da região de Trento. Está bem claro, em duas línguas (em alemão e italiano), constando “Império da Áustria”. Não há referência à Hungria, apenas ao imperador Francisco José (Franz Joseph, Francesco Giuseppe) ser rei também da Hungria (assim como o era da Boêmia).

      Att.
      Everton Altmayer

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