Tradições natalinas do Tirol

Reimmichls Volkskalender

O famoso calendário Reimmichl.

 

Muitas são as tradições do período natalino, tais como a árvore (pinheiro) de Natal, o presépio e a ceia. Algumas dessas tradições têm sua origem na Antiguidade, muito antes da expansão do Cristianismo entre os povos da Ásia Menor e Europa, de modo que são algo como “releituras” de outras tradições ainda mais antigas que se preservaram exatamente porque, adaptando-se, adquiriram novos simbolismos.

O Blog Tiroleses no Brasil apresenta algumas das principais tradições natalinas presentes na região do Tirol, muitas das quais foram trazidas pelos imigrantes que chegaram ao Brasil.

Festa do Advento

A festa do Advento faz parte do calendário litúrgico cristão, documentada já no século IV e trata-se de um preparatório para a festa do Natal.

coroa advento

Coroa de Advento.

A festa é comemorada nas casas e igrejas com a coroa do Advento (al. Adventkranz, it. Corona di Avvento), feita basicamente a partir de um círculo forrado com ramos de pinheiro, contendo quatro velas geralmente de cor vermelha. O significado do círculo está no fato de ele não ter nem começo, nem fim, simbolizando o amor divino na aliança com os fiéis, enquanto as velas têm a cor vermelha, considerada festiva (para recordar o nascimento do Messias), e são acesas sucessivamente nas quatro semanas que antecedem o dia de Natal. Muitos descendentes de imigrantes tiroleses preservam essa antiga tradição em suas casas e no dia que a vela é acessa são entoados cantos tradicionais de inspiração religiosa.

O presépio tirolês

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Presépio tradicional tirolês.

O presépio natalino dispensa comentários, mas, na região tirolesa, sua peculiaridade  está no modo como é  feito tradicionalmente, pois as peças são esculpidas em madeira e o local do nascimento de Jesus é feito imitando uma estalagem ou uma casa campestre, segundo o modelo tradicional da arquitetura alpina. Atualmente, um presépio inteiro feito em madeira é muito caro, haja vista o alto preço das peças esculpidas. Outrora, erma feitos geralmente por mãos habilidosas de camponeses que se dedicavam à escultura durante o inverno rigoroso.

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Presépio com peças esculpidas em madeira em frente à prefeitura de Treze Tílias, SC. (Foto: Ruy Machado).

Mercado de Natal

Os mercados (feiras) de Natal do Tirol recebem anualmente milhares de visitantes de diversos países. É chamado no Tirol alemão Christkindlmarkt ou Weihnachtsmarkt e Mercatino di Natale ou Mercadin de Nadal no Tirol Italiano. É também chamado “mercado do Advento” (al. Adventmarkt) porque é costume organizá-lo na primeira semana do Advento. Suas origens remontam ao século XIV, pois o costume de se vender artigos natalinos se popularizou entre alguns mercados de rua no Sul da Alemanha, mais precisamente na Baviera. O costume se difundiu na região alpina, de modo que existem hoje existem mercados de Natal na Alemanha, Áustria, Suíça e Tirol Meridional.

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Mercado de Natal de Innsbruck (Tirol austríaco).

Durante o período de Natal, artesãos vendiam artigos para relembrarem o nascimento de Jesus Cristo, tais como enfeites para a árvore de Natal e esculturas do presépio.  O Mercado de Natal é anterior à “tradição” do Papai Noel e, por isso, é comumente chamado Christkindlmarkt (Mercado do Menino Cristo), pois faz referência Àquele que, outrora, era o responsável pelos presentes no dia 25 de dezembro. Sobre isso, tratamos em seguida.

Mercadin de Nadal Piracicaba

Mercadin de Nadal da Colônia Tirolesa de Piracicaba, SP.

Na região do Tirol, são famosos os mercados de Innsbruck, Hall, Lienz, Rattenberg, Meran, Bozen, Brixen, Sterzing, Trento, Rovereto, Borgo Valsugana e Levico Terme.  Os enfeites para a Árvore de Natal são sempre os mais procurados. Também são vendidos produtos típicos tiroleses, esculturas e pinturas sacras, presépios, doces, compotas e vinhos.

Feira Santa Luzia Nova Trento

Feira de Santa Luzia em Nova Trento, SC.

No Brasil, não há registros de feiras de Natal entre os primeiros imigrantes, haja vista que as dificuldades enfrentadas em um novo ambiente mal permitiam a manutenção das tradições “domésticas”, mas de uns anos para cá, algumas comunidades começam a investir na ideia, inspirando-se nos mercados natalinos da Europa e visando promover o turismo cultural. A cidade catarinense de Treze Tílias organizou durante alguns anos um mercado natalino (Weihnachtsmarkt) que, infelizmente, deixou de existir. A Colônia Tirolesa de Piracicaba, no estado de São Paulo, organiza desde 2012 o Mercadin de Nadal. Neste ano, surge mais um mercado natalino com o lançamento da Feira de Santa Luzia na cidade catarinense de Nova Trento.

 

São Nicolau e os Krampus

A tradição popular que recorda S. Nicolau e os diabólicos Krampus faz uma mescla de antigas tradições pagãs e cristãs. Nicolau foi bispo de Mira, na Ásia Menor, em meados do século IV. Suas relíquias  se encontram hoje na Catedral de Bari, na Itália. O bispo ficou famoso por entregar comida e dinheiro aos pobres na época do Natal, bem como pagar o dote das moças pobres que gostariam de se casar. Segundo a tradição, o bispo deixava seus presentes nas portas e janelas das casas. Nem todos sabem, mas a origem do Papai Noel (cuja tradução seria “papai Natal”) está na figura de São Nicolau. Para entendermos os porquês, é preciso conhecer a tradição “original”.

A festa litúrgica de São Nicolau é o dia 6 de dezembro. Na Idade Média, era comum presentear pessoas neste dia, recordando as boas ações do sacerdote católico. O costume se alastrou por boa parte da Europa Central, onde se comemorava o dia do santo com pessoas que se “fantasiavam” de S. Nicolau, usando vestes episcopais e entregando doces ou pequenos presentes às crianças. Nos países germânicos é chamado Nikolaus, em inglês Santa Klaus (onde “Klaus” é um diminutivo de Nikolaus). No Tirol Italiano é chamado San Nicolò ou San Nicolau.

do Nikolaus ao Papai Noel

“Transformações”: de S. Nicolau a Papai Noel.

Em fins do século XIX, o desenhista alemão Thomas Nast publicou na revista norte-americana Harper’s Weekly um desenho retratando Nikolaus de um Papai Noel com roupas que lembram as de um gnomo da floresta. Nos natais que se seguiram, modificou seus desenhos, de modo que a barba ficou maior e mais branca e tamanho mais “encorpado”. Mas Nast não era o único, pois outras publicações traziam um Nicolau modificado. Na década de 1930, Haddon Sundblom, em uma campanha para a empresa americana Coca-Cola, elaborou o protótipo do atual Papai Noel, com vestes vermelhas. A roupa vermelha de bispo se tornou um casaco de inverno, a Mitra se tornou um gorro vermelho e a longa barba branca deu mais simpatia ao “bom velhinho”. O dia 6 passou a ter sempre menor relevância e o Papai Noel passou a chegar no dia do Natal, ou seja, em 25 de dezembro.

Nikolaus Rupert Krampus

Nikolaus, Rupert e vários Krampus (Tirol).

Retornemos à tradição original. Nikolaus não chega sozinho no Tirol, pois com ele vêm o Krampus, uma criatura que tem sua origem nas antigas mitologias grega e latina e representa a punição para o mau comportamento. Na Antiguidade, os Romanos festejavam o Solstício de Inverno (dia 5 de dezembro) com as Lupercalias, festa originária na Grécia.

 Naquele dia, os sacerdotes imitavam Fauno Luperco, um ser mitológico meio bode e meio homem (entre os gregos, com aspectos de lobo também). Os sacerdotes sacrificavam bodes e se vestiam com suas peles ensanguentadas. Com uma vareta, batiam no rosto dos jovens que deveriam passar por tal provação assustadora sorrindo, pois acreditavam se tratar do próprio Fauno. Tratava-se de um rito de passagem para a fase adulta.

Fauno Luperco Roma

Mosaico romano representando um Fauno.

Com o tempo, os romanos que se convertiam ao Cristianismo abandonavam suas antigas crenças, no entanto, o costume de se fantasiar com chifres e peles de bode se manteve na região alpina no solstício de inverno. Foi assim que as tradições de se vestir como São Nicolau e como Fauno se uniram. Inicialmente, a Igreja tentou acabar com os faunos, mas o costume se mantinha e, não podendo acabar com ele, preferiu dar um caráter diabólico ao fauno, que passou a simbolizar o mal que pune aqueles que não praticaram boas ações durante o ano. A origem do atual nome talvez esteja na antiga palavra germânica Krampus, com significado de “animal com garras”; em dialeto bávaro, Kramps significa “sem vida”, “murcho”, “que não vive”, e sua simbologia rpoderia muito bem representar um ser diabólico, privado da Vida Eterna cristã.

Nikolaus Krampus Treze Tilias

Nikolaus e Krampus em Treze Tílias.

O Krampus é aquele que “castiga” as crianças desobedientes com golpes de vara ou prendendo-as com correntes, enquanto as boas crianças recebem os presentes do Nikolaus. Em algumas regiões do Tirol e Baviera, o santo chega também com Rupert (um “velho” ajudante com barba negra) e seus anjos (geralmente crianças fantasiadas, que trazem o cesto de presentes).

Nikolaus e Bestia Piracicaba

San Nicolau e a Bèstia na Colônia Tirolesa de Piracicaba, SP.

É costume no Tirol que aquele que interpreta S. Nicolau faça perguntas às crianças sobre seu comportamento, peça para recitar a tabuada ou que demonstrem saber as orações do Pai Nosso e Ave Maria. Tradição presente principalmente nos países germânicos, no Tirol Italiano (região de Trento e Rovereto), São Nicolau “compete” com Santa Lucia, mais popular no Norte da Itália. Uma antiga trova em dialeto trentino (tirolés), ainda mantida por descendentes da Colônia Tirolesa de Piracicaba, retrata São Nicolau e  sua importância para os “escolares”, ou seja, para as crianças que estudam e o aguardam todos os anos, na esperança de ganharem seus presentes:

San Nicolau da Bari, [São Nicolau de Bari]

L’èi festa de scölari  [é festa dos escolares]

Scölari no i völ far festa, [escolares não querem fazer festa]

San Nicolau ghe da en testa! [São Nicolau lhes bate na cabeça!]

No Brasil, a representação de São Nicolau é feita em Treze Tílias, em SC, pelo grupo folclórico Tirol, na cidade de São Paulo e na Colônia Tirolesa de Piracicaba, estado de SP.

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Os Pelznickel da tradição alemã em Guabiruba, SC.

Uma tradição muito similar é mantida na cidade catarinense de Guabiruba, no Vale do Itajaí, fundada por alemães oriundos de Baden. Os personagens típicos da tradição local são o Nikolaus e os Pelznickel, que em muito lembram os Krampus.

 

 

Santa Luzia

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Santa Luzia traz os presentes na região de Valsugana, Tirol Italiano.

No Norte da Itália e Tirol Italiano, quem visita as cidades para trazer presentes no dia 13 de dezembro é Santa Luzia (it. Santa Lucia), que chega ora montada em um burro, ora a pé (trazendo o animal com uma cesta de presentes ou doces) ou, ainda, em uma carroça, quase sempre em vestes brancas e geralmente com o rosto coberto por um pano. Santa Luzia traz também ramos nas mãos,  como em sua representação iconográfica. Para as boas crianças, ela entrega presentes e doces, ao passo que as crianças que não se comportaram durante o ano ganham um pedaço de carvão.

Santa Lucia Nova Trento

Chegada de Santa Luzia em Nova Trento, SC.

 

 

Cantos que antecedem o Natal

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Os cantores de Natal do Tirol.

É costume em algumas regiões do Tirol que cantores ou grupos musicais se vistam como camponeses e façam pequenas “serenatas” pelas ruas das cidades e vilarejos, com cantos religiosos e populares que recordam o nascimento de Jesus. O intuito principal é aquele de “preparar” o ambiente, espalhar o clima natalino e recordar a população sobre a importância da festa litúrgica. Muitas vezes, com eles vêm a bruxa que “varre” as impurezas do ambiente.

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Anklöpfler com a bruxa em Treze Tílias (década de 1960).

Os Anklöpfler (“que batem nas portas”, em italiano Bussatori) têm esse nome porque batem às portas das casas e cantam músicas que recordam os moradores sobre a importância do Natal. Geralmente, a bruxa chega com os cantores, varrendo as casas e “limpando” o ambiente. Os Anklöpfler costumam chegar a cavalo ou a pé, geralmente vestidos como pobres camponeses, imitando José e Maria que batiam às portas das casas em busca de abrigo para que Jesus pudesse nascer. Em Treze Tílias, SC, os Anklöpfler visitavam outrora as casas. Atualmente, uma peça teatral recorda essa antiga tradição trazida pelos imigrantes austríacos.

 

 

Bruxas

Sobretudo no Tirol alemão, faz parte das tradições “natalinas” que pessoas fantasiadas de bruxas (em alemão Hexe, em italiano Strega, em dialeto trentino Stria) visitem as casas antes do Natal, varrendo os cômodos e, assim, “limpando o ambiente” para que as famílias se preparem para a festa natalina.

bruxas Tirol

Grupo de bruxas do Tirol setentrional.

No Brasil, não temos relatos desse hábito entre as comunidades fundadas por tiroleses da região de Trento. Em Treze Tílias, SC, fundada por tiroleses de língua alemã, o costume de se fantasiar de bruxa para visitar as casas e “varrer” o ambiente antes do Natal se manteve até meados de 1970-80; atualmente, a tradição é relembrada apenas em uma peça teatral realizada anualmente pelo grupo folclórico Alpen Master.

A origem desse costume remete aos antigos celtas, que cultuavam a figura de mulheres sábias e com poderes especiais. No entanto, também entre os romanos e germânicos haviam figuras semelhantes, de caráter religioso e geralmente ligadas à previsão do futuro (oráculos). Na Idade Média, mulheres que se atrevessem a praticar qualquer tipo de “magia” (superstições baseadas em antigos costumes pagãos ou rituais sangrentos) eram imediatamente classificadas como autoras de bruxaria, e não são poucos os casos de “bruxas” queimadas por tais atos.

O Menino Cristo que dá os presentes

A época do Natal parece “inspirar” as pessoas a se presentearem, mas as razões deste costume estão na narração bíblica, pois os Reis Magos entregaram presentes ao Menino. Uma antiga tradição tirolesa para o dia 25 de dezembro é a de se presentear os parentes. Era costume entre os tiroleses presentear as crianças na véspera do Natal e a “boa ação” era atribuída ao Menino Deus (al. Christkind ou Christkindl, it. Bambinel ou Bambinello), que trazia doces ou dinheiro somente àqueles que se comportaram bem durante o ano. No Tirol e Alemanha atuais, a tradição do Menino Jesus é ainda mantida, mas assumiu uma aparência “angelical”, em muitos aspectos bastante artificial.

Christkindl

Enfeite austríaco com os dizeres: “Menino Cristo, venha à nossa casa”.

Em todas as comunidades tirolesas do Brasil, essa tradição foi bastante popular até meados da década de 1950. Com a televisão e, principalmente, com a difusão da figura de Papai Noel, o costume se perdeu gradativamente. Provavelmente seja ainda mantido entre algumas poucas famílias, mas não encontramos nenhum vestígio além de relatos de descendentes mais velhos que ganhavam presentes “do Menino” em seus anos de infância.

 

 

Os Reis Magos e os Cantos da Estrela

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Os três reis com a estrela.

Uma antiga tradição europeia recorda a narração bíblica da chegada dos reis magos à Jerusalém para visitarem Jesus nascido. Geralmente três crianças (às vezes também adultos) se vestem como os reis magos e saem pelas ruas entoando cantos natalinos e levando uma grande estrela giratória. Pode aparecer também um quarto personagem, representando um anjo ou um criado que leva consigo um pequeno baú, onde são colocadas as doações.

A “peregrinação” dos três reis não dura apenas uma noite, mas tem início já antes do dia 25 de dezembro, também como um festejo “preparatório” para o Natal. Os cantores costumam receber dinheiro visitando as casas e a soma final é destinada para a caridade. Os cantos não se findam no dia 25 de dezembro, e seguem até o dia 6 de janeiro, data que recorda os reis magos.  Nesse dia, costuma-se escrever as letras iniciais dos reis nas portas das casas, geralmente com giz bento na missa que recorda os santos.

rei mago porta

Criança vestida de rei mago escreve a “fórmula” em uma porta.

A inscrição é feita da seguinte maneira: inicia-se com a primeira metade do ano, as iniciais dos nomes dos reis (Gaspar, Caspar ou Kaspar, Melquior e Baltazar) ligadas por sinais de soma o final do ano. No entanto, a origem da “fórmula” não é certa sobre conter as iniciais dos nomes dos reis magos. Uma antiga tradição cristã afirma que indica a frase latina Christus Mansionem Beneticat (“Cristo abençoe esta casa”) ou Kyrie Mansionem Beneticat (“Senhor, abençoe esta casa”).Para o próximo que se aproxima, a fórmula ficaria assim, de acordo com as variações possíveis:

20 G+M+B 16  20 C+M+B 16  20 K+M+B 16

Stelari Nova Trento

Os Stelari de Nova Trento, SC.

A tradição dos “cantores da estrela” (al. Sternsänger ou Sternsinger, it. Stellari) já foi mais difundida na Europa, mas nos dias de hoje é preservada principalmente na Alemanha, Áustria, Suíça e Tirol Meridional (províncias de Bolzano e Trento). Nos últimos anos, alguns vilarejos do Tirol Italiano estão retomando essa antiga tradição, outrora “desincentivada” pelo governo nacionalista italiano porque considerada uma tradição “germânica”.

Sternsinger Treze Tilias

Os Sternsinger de Treze Tílias (década de 1940).

No Brasil, encontramos resquícios ou relatos desta tradição trazida pelos imigrantes tiroleses em algumas localidades. Em Santa Catarina, nas cidades de Rio dos Cedros (onde a tradução se perdeu, mas os cantos foram registrados), em Nova Trento (onde atradição vem sendo recuperada nos últimos anos) e em Treze Tílias, onde parece ter sido “esquecida” pelos descendentes já em meados da década de 1950. No estado de São Paulo, na Colônia Tirolesa de Piracicaba, onde se recorda apenas a canção Noi siamo i tre re (“Nós somos os três reis”) e no Rio Grande do Sul, na cidade gaúcha de Bento Gonçalves, onde existe um projeto que busca resgatar a tradição dos primeiros imigrantes tiroleses que ali chegaram.

Em Rio dos Cedros, cidade fundada por tiroleses italianos, os festejos que levavam a Estrela eram chamados de Santa Note (“Santa noite”), e se realizavam com um grupo de cantores que visitava as casas nas comunidades com cantos.

Estrela Rio dos Cedros

Estrela dos reis magos em Rio dos Cedros (Foto: CTRC).

Um integrante levava um presépio cuja base era fixada no pescoço, enquanto outro integrante levava a Estrela adornada, com dentro uma vela acesa que não se apagava e iluminava o caminho. Os cantores pediam permissão aos donos das casas para entrarem e, cantando e declamando suas trovas,  contavam aos ouvintes a história dos reis magos. Os cantos da Estrela nos recordam uma tradição brasileira conhecida por Reisado ou Folia de Reis, cujas origens são portuguesas e remontam ao período colonial brasileiro, evidenciando, assim, o caráter europeu da festa, pois não se trata exclusivamente de uma tradição da região dos Alpes.

—–

Como se vê, são muitas as tradições natalinas na região do Tirol, evidenciando a fortíssima influência cultural da religião cristã (sobretudo católica) no cotidiano dos imigrantes.

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17 comentários sobre “Tradições natalinas do Tirol

  1. Nota dez Sr. Everton e Sr. Misael !
    Maioria das crianças hoje em dia aqui em nossa cidade ja nao sabem o sentido do Natal . Assim os senhores PAIS podem passar aos nossos pequeninhos esta tao bela preparaçao a FESTA NATALINA

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    • Liebe Marta,
      Muito obrigado! Ficamos contentes que o texto tenha sido interessante e o intuito é esse mesmo: proporcionar conhecimento para que as coisas sempre façam “mais sentido”.
      Um abraço.

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  2. Parabéns Everton e Misael,

    Gostei muito dos textos – bem esclarecedores.

    Sempre ouvi sobre algumas destas tradições mas não sabia nada além de relatos de como ocorriam. Fundamental esse embasamento para conseguir fazer o resgate delas.

    Abraço amigos.

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  3. Parabéns, pelo trabalho..
    Gostaria que vocês me ajudassem. Sempre soube que meu bisavô era austríaco, porém o sobrenome dele nunca pareceu-me austríaco e sim italiano. O sobrenome dele era Alame. Ele viveu em Rio Pardo-RS e alguns outros Alame viviam em Camaquã-RS. Ninguém da minha família sabe muito sobre o assunto. Se puderem me ajudem. Existe algum arquivo onde eu possa pesquisar entrada de imigrantes trentinos?

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    • Boa noite, Cassiano!

      Realmente, o sobrenome Alame não soa muito germânico… mas também não parece ser italiano. Ele não consta das listas de imigrantes tiroleses italianos que tenho comigo. Provavelmente seu bisavô não era do Tirol; o que não quer dizer que ele não fosse austríaco!

      É importante lembrar que, ao contrário da atual República da Áustria (onde praticamente só se fala alemão), no antigo Império Austríaco se falavam, além do alemão, mais dez línguas minoritárias: húngaro, polonês, tcheco, croata, eslovaco, sérvio, esloveno, romeno, ucraniano e italiano.

      Este blog se dedica especialmente à história dos imigrantes tiroleses, que ao chegar ao Brasil falavam, via de regra, alemão ou italiano (ou até ambos). Porém milhares de outros imigrantes austríacos, das mais diversas nacionalidades, também aportaram por aqui. Aqui na minha cidade, Nova Trento, além dos milhares de tiroleses italianos, também chegaram muitos austríacos de língua polonesa, da região da Galícia, que então pertencia à Áustria.

      Seu bisavô podia muito bem ser proveniente de uma região do Império Austríaco que falava alguma dessas várias línguas, na qual o sobrenome “Alame” pode ter algum significado. Minha sugestão é que você busque o certificado de óbito do seu bisavô ou, preferencialmente, o registro de casamento dele (caso ele tenha se casado aqui). Lá poderá haver mais informações sobre o local exato de onde ele veio.

      Boa sorte em sua busca pelas origens!

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      • Obrigado pela resposta, Misael. Outra coisa que esqueci de relatar é que ele falava alemão. Ele veio para o Brasil com seus pais. Segundo um tio-avô, ele tinha apenas 8 meses quando vieram ao Brasil. Eu pretendo solicitar o certificado de óbito dele, porém creio que preciso descobrir a data de morte dele, não é? Ele se casou aqui no Brasil, mas não sei como solicitar esse documento.
        Novamente, muitíssimo obrigado e parabéns pelo belíssimo trabalho!

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      • Olá Cassiano, me chamo Maria e uma dica que tenho a lhe dar é que siga o caminho das certidões de registro civil. Em sua certidão consta o nome de seus pais e avós. A Partindo desses dados, busque a cidade onde nasceram e terá a localização de onde foram registrados e/ou casaram-se. Siga esse caminho e vá retrocedendo no tempo buscando sempre certidões de nascimento, casamento e óbito. Essas certidões podem ser solicitadas por telefone e até pela Internet. Você deposita um valor e eles te enviam pelo correio. Montando essa genealogia você poderá até encontrar variação do sobrenome de seu avô. Busque informações no Museu do Imigrante de São Paulo e em sites de família no google. Fiz a pesquisa sobre minhas origens trentinas desse jeito e entrei com o pedido já faz mais de dez anos. Demora muito por ser trentino mas chegaremos lá. Boa sorte!

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  4. Everton e Misael !
    Excelente, bom demais, esta síntese cronológica, diria trilíngue, dos nomes. Eu como Treze Tiliense de criança, na década de 50, passei pelo Nikolaus e Krapus, com as enquetes e tudo mais, sempre em 06 de dezembro, ou bem próximo. Só posso dizer que para uma criança é inesquecíbel para resto da vida.
    Para as criança de hoje, os país devem leva-las para este evento, e lembra-las durante ano, o comportamental…
    Super maravilhoso, esclarecedor, parabéns.
    Um grande abraço Alois

    Curtido por 1 pessoa

    • Caro Alois, muito obrigado pelo comentário! O objetivo do blog é justamente preservar as memórias de vocês, que puderam ter contato direto com os imigrantes e viveram essas tradições na sua forma mais pura! Um abraço e Frohe Weihnachten!

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  5. Boa tarde,
    Gostei muito do conteúdo deste site. Preciso de um pouco de ajuda se possível, consegui a certidão de óbito de meu bisavô José Piffer, onde consta somente que ele é Italiano ( óbito de 1947 , nascido em 1875), nesta constava que seu pai Baltazar Piffer, era Austríaco e consegui a sua certidão de òbito do ano 1910 da região de Garibaldi RS . Estas certidões pelo ano são vagas, constando somente os cônjuges e os filhos. Não constam onde casaram ou cidade de nascimento. Liguei para a Mitra Diocesana de Porto Alegre na esperança de encontrar a certidão de casamento dos mesmos, mas nada. Fiz varias pesquisas nas listas de desembarque de navios e vapores mas até agora nada. Existe alguma lista que vocês possam me ajudar.
    Agradeço

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    • Prezado Sr. Pifer:
      Sobre constar “italiano” na certidão de óbito de seu bisavô, isso se deve ao fato de o Tirol Meridional já ter sido anexado à Itália em 1947. Logo após 1918, muitas representações consulares italianas no Brasil já atuavam na usurpação da nacionalidade austríaca em documentações específicas referentes à imigração tirolesa. Muito provavelmente a informação errônea se deve a esse fato (ou influenciada pelo mesmo).

      Sobre as listas de desembarque, este site que trata da imigração italiana (mas inclui a tirolesa) apresenta alguns “caminhos” para se chegar aos passageiros.: http://www.imigrantesitalianos.com.br/Listas_de_Passageiros.html

      Advirto que não é objetivo deste blog tratar de questões referentes ao reconhecimento de cidadania italiana. No entanto, vale lembrar que, com as devidas diferenças burocráticas, o tempo de espera de um descendente de tiroleses da parte que continuou com a Áustria para que tenha sua cidadania austríaca reconhecida é de aproximadamente um mês.

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  6. […] As instruções que emanavam do Vaticano aos religiosos de todo o mundo, no final do século XIX, enfatizavam a necessidade de romanização dos costumes católicos, que na época eram permeados de particularidades locais e tradições regionais em praticamente todas as partes do globo, incluindo aí o Condado do Tirol. Os tiroleses, povo fervorosamente católico, criaram ao longo dos séculos um grande número de tradições e costumes ligados à religião, alguns comuns à toda a região, outros específicos deste ou daquele vale. As tradições tirolesas de Natal, por exemplo, foram abordadas neste post. […]

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