A lenda de Pietro Demonte

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Barco a vapor. Fonte: The Clio

Desde o início, o blog “Tiroleses no Brasil” têm se dedicado a contar a história da imigração tirolesa no Brasil com base em fatos e documentos. Nesse sentido, depoimentos de pessoas idosas, que tiveram contato com os imigrantes ou seus filhos, também têm muito valor; porém, normalmente precisam ser analisados em conjunto com outras fontes.

Uma história bastante particular, envolvendo o imigrante Pietro Demonte, estabelecido em Nova Trento em 1875, ilustra essa necessidade, ao mesmo tempo que serve como exemplo da tenacidade e inventividade dos imigrantes tiroleses.

A lenda

Os  feitos de Pietro Demonte são bastante conhecidos no município de Nova Trento, onde viveu; sua história, no entanto, é cercada de lendas. Com algumas variações, o relato mais difundido a respeito desse personagem é aquele recolhido pelo historiador Jonas Cadorin em entrevista com a bisneta de Pietro, Amália Demonte, em 1991:

“Pietro era ferreiro na Itália, sua esposa também entendia do ofício. Ao ser localizado em Nova Trento, montou sua oficina de ferreiro na linha Besenello e atendia os moradores do núcleo colonial. Com o passar do tempo, junto com sua esposa, começou a trabalhar na construção de um barco na água e navegou até Tijucas levando no mastro a bandeira italiana. Alertado pelo Coronel Gallotti para trocar de bandeira, recusou-se a fazê-lo. No domingo daquela semana, enquanto assistia à missa matinal em Tijucas, teve seu barco perfurado. Quando saiu da igreja não restava mais nada a fazer. A embarcação havia afundado, sobrando somente parte do mastro. Profundamente abatido, sentou-se à mesa do bar e não mais se levantou, vindo a morrer de tristeza. Morrera de preocupação pelas dívidas que deixara. Tudo o que possuía, inclusive suas esperanças, estavam no fundo do mar com o barco. Para sua esposa que o aguardava em Nova Trento, mandaram-lhe o chapéu e o cachimbo, dizendo-lhe que Pietro viajara para longe e que demoraria a voltar.”

A história

Quanto do relato de Amália, que certamente chegou a ela por tradição oral, é verdadeiro, e que partes precisam ser melhor esclarecidas?

Pietro Demonte nasceu no vilarejo de Ronchi, no Tirol (Império Austríaco), em 1840. Aos 35 anos, emigrou para o Brasil e estabeleceu-se no lote 9, da linha Besenello. Pietro de fato era ferreiro de profissão, e em Nova Trento estabeleceu uma oficina para continuar exercendo seu ofício.

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Castelo de Telve, próximo a Ronchi Valsugana. Fonte: Wikimedia Commons

Ao contrário dos agricultores, os artesãos (pedreiros, ferreiros, carpinteiros, alfaiates, etc.), pela natureza do seu ofício, e dependendo das condições, tinham a possibilidade de acumular algum dinheiro. No entanto, a maior parte dos recursos financeiros iam parar nas mãos dos comerciantes locais.

Talvez por isso, Pietro teve a ideia de aplicar suas economias e seus conhecimentos técnicos na construção de um barco que lhe possibilitasse ingressar no lucrativo ramo do comércio. Na época, o Rio do Braço, navegável, constituía a principal via de entrada e saída de produtos na nascente colônia Nova Trento. Assim, em um questionário enviado em 1883 ao Presidente da Província, escreve o Pe. Arcangelo Ganarini:

“Existe em Nova Trento a oficina do colono Tirolês, Pietro Demonte, que está acabando um vapor para a navegação do Rio do Braço e Tijucas entre Nova Trento e Tijucas. A máquina já está pronta apesar das dificuldades que encontrou na fundição das peças, como também pela falta de utensílios próprios. […]”

Construir um barco a vapor, como fez Pietro, demandava não somente conhecimentos de ferraria, mas também de engenharia: um exemplar do livro “Rudimenti di Meccanica”, do engenheiro italiano Giannalessandro Majocchi, editado em 1854, e que pertencia a Pietro Demonte, é prova de que o imigrante não era um simples ferreiro, mas também possuía conhecimentos de engenharia.

livro majocchi

Um dos livros do engenheiro Majocchi. Fonte: Maremagnum

Conhecimentos que deram resultado, uma vez que o barco construído por Pietro foi capaz de navegar não somente até Tijucas, mas inclusive chegou à capital da Província de Santa Catarina, Desterro (atual Florianópolis). Em sua monografia “Nova Trento”, relatou o Coronel Henrique Carlos Boiteux, primeiro prefeito da cidade:

“Em janeiro de 1883, o colono Pietro Demonte, dispondo de alguns conhecimentos de construção naval e de máquinas a vapor, resolveu construir uma pequena lancha a vapor, para aplica-la na navegação de Tijucas à Capital. […] No ano seguinte, esperando boa enchente, lançou a embarcação à agua e singrou para Tijucas. A 29 de junho de 1884 dava fundo no porto do Desterro.”

PREFEITO 01 - Henrique Carlos Boiteux

Coronel Henrique Carlos Boiteux, primeiro prefeito de Nova Trento.  Fonte: Politicando Nova Trento

 

Vapor Nova Trento tirolez

Menção a ao imigrante tirolês Pietro Demonti no livro Ephemerides Catharinenses (1510 – 1910), de Lucas Boiteux (Desterro/Florianópolis: Escola Artística, 1921).

 

Essa informação é confirmada pelo Professor Francisco Mazzola em sua Monografia, publicada em 1925, bem como pelo historiador Walter Piazza em sua obra “Nova Trento”, de 1950.

Portanto, como conta a tradição oral, de fato viveu em Nova Trento um ferreiro tirolês chamado Pietro Demonte, que construiu um barco a vapor e com ele navegou até Florianópolis. Porém, algumas partes do relato de Amália Demonte precisam ser melhor esclarecidos.

Conforme mencionamos anteriormente, Pietro Demonte nasceu em Ronchi, na época uma cidade da Áustria, e, portanto, não emigrou da Itália.  Sendo assim, por qual motivo Demonte viajaria com a bandeira italiana, como nos conta a tradição oral?

E ainda: mesmo que viajasse com a bandeira italiana, por que o Coronel Gallotti iria criticá-lo por isso? O rico comerciante Beniamino Gallotti, ao contrário de Pietro, era italiano; nascido na cidade de Nápoles em 1853 (ainda no Reino das Duas Sicílias, que em 1861 fundiu-se com o nascente Reino da Itália), emigrou para Tijucas seguindo os passos de um tio que era padre no local.

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O coronel Benjamin Gallotti. Fonte: Memórias de Tijucas

Parece uma possibilidade remota que Pietro Demonte fosse um irredentista, ou seja, um partidário da passagem da região de Trento para a Itália, já que o irredentismo era um movimento de elite, à qual Pietro certamente não pertencia. De fato, ao se naturalizar brasileiro em 1883, Pietro reiterou sua nacionalidade ao Presidente da Província:

“(…) perante o Exmo. Sr. Presidente da Província compareceu Pietro Demonte, naturalizado cidadão por carta desta data, e prestou juramento de cidadão brasileiro, jurando reconhecer o Brasil por sua Pátria, de hoje em diante, data em que lhe foi concedida Carta de Naturalização; e na mesma ocasião declarou ser Austríaco, casado, católico, de 43 anos de idade tendo os seguintes filhos: Maria, de 19 anos de idade, Antonio de 17 e Adele de 4 (…)”

Se fosse irredentista, Pietro dificilmente teria se autodeclarado austríaco diante do Presidente da Província.

Por todos esses motivos, a parte da história, que se refere à discussão com o Coronel Gallotti devido à bandeira italiana no mastro, não se sustenta. É possível que essa bandeira fosse na verdade, austríaca (ou tirolesa), e a discussão com o italiano Gallotti fosse devido à rivalidade entre Áustria e Itália, na Europa; outra possibilidade é que a discussão tenha ocorrido devido à concorrência comercial que Pietro planejava estabelecer. É possível ainda que tal discussão nem tenha ocorrido. Dificilmente saberemos. Mas se o conflito com o Coronel Gallotti não tiver ocorrido, como então faleceu Pietro Demonte?

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Antigo porto de Florianópolis. Ao fundo a ponte Hercílio Luz. Fonte: História para todo lado

Neste caso, a história que emerge dos documentos é bem menos romântica que a lenda. Pesquisando nos arquivos da Cúria Metropolitana, em Florianópolis, o historiador Jonas Cadorin encontrou o registro de falecimento de Pietro Demonte:

“Dezembro – 1884. Aos dezoito dias do mesmo mês e ano nesta freguesia faleceu Pietro Demonte, de quarenta e quatro anos de idade, natural da Itália, casado com Rosa Demonte. Foi encomendado em casa. E para constar fiz este termo que assinei. O vigário cônego Joaquim Eloy de Medeiros”.

Portanto, Pietro faleceu alguns meses depois de 29/06/1884, data em que o vapor teria chegado pela primeira vez em Florianópolis. O registro de óbito não esclarece a causa da morte, mas o Coronel Boiteux afirma que, após chegar a Desterro, Pietro Demonte,

“Lutando com sérias dificuldades e depauperado pelos esforços despendidos, enfermou. Recolhido ao Hospital de Caridade, faleceu a 18 de Dezembro do mesmo ano.”

Portanto, não foi a “paixão” pelo afundamento do seu vapor que vitimou Pietro Demonte; e nem poderia ser, pois existem motivos para acreditar que o barco continuou navegando após a morte do seu construtor. Em relatório apresentado à Assembleia Legislativa de Santa Catarina em julho de 1886 (quase dois anos após a morte de Pietro), o Dr. Francisco José da Rocha relata que

“virando-se um batelão em que haviam embarcado Jacinto José da Silveira, marinheiro do iate Nova Trento, ancorado no porto de Garopaba, desapareceu o primeiro”.

A maior parte dos livros de história que tratam do assunto, como a monografia do Coronel Henrique Boiteux, bem como aquela do professor Francisco Mazzola e o livro do historiador Walter Piazza, parecem concordar que, mesmo tendo navegado por um tempo após a morte de Pietro, o barco acabou mesmo afundando no Pontal de Tijucas onde, segundo alguns, ainda é possível ver parte do mastro do vapor Nova Trento em dias de maré baixa.

Conclusões

Os feitos de Pietro Demonte ilustram a tenacidade dos imigrantes tiroleses, que mesmo diante de muitas adversidades, foram capazes de grandes feitos em sua nova Pátria, o Brasil. No entanto, sua história, evidencia a importância de utilizar fontes documentais para validar relatos históricos transmitidos por tradição oral. De fato, boa parte do que é hoje contado em Nova Trento a respeito de Pietro Demonte, especialmente a parte que se refere ao conflito com o Coronel Galloti, sua morte e o afundamento do barco, são lendas romantizadas que não têm base histórica. E isso também é verdade a respeito de muitas coisas que se afirmam a respeito da imigração tirolesa no Brasil, que este Blog se dedica a esclarecer.

Bibliografia

CADORIN, Jonas. Nova Trento, outra vez… Prefeitura Municipal. Nova Trento, 1992.

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