O Dialeto Trentino no Brasil

O dialeto trentino no Brasil - livro

Com certo atraso, mas ainda em tempo, o Blog Tiroleses no Brasil gostaria de divulgar o livro O Dialeto Trentino no Brasil, organizado pelos professores Everton Altmayer e Pe. Mário Bonatti e lançado em agosto de 2016 pela Editora Nova Letra, de Blumenau. Trata-se de um trabalho de suma importância para a preservação e difusão do dialeto trentino (também conhecido como tirolès) no Brasil. O prefácio é de autoria do Prof. Dr. Mário Eduardo Viaro, da Universidade de São Paulo.

O Prof. Mário Bonatti, sacerdote salesiano de Dom Bosco, descendente de tiroleses estabelecidos em Rio dos Cedros (SC), onde nasceu, é Doutor em Letras e Bacharel em Filosofia e Teologia, professor de Linguística e Antropologia Cultural no Centro Universitário Salesiano de São Paulo, na Universidade de Coimbra e na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

O Prof. Everton Altmayer, co-autor deste Blog, é natural de Santo André (SP) e atualmente radicado em Treze Tílias (SC). É descendente de tiroleses italianos e alemães, Bacharel, Mestre e Doutor em Línguas pela Universidade de São Paulo (USP), com mais de dez anos de estudos a respeito do dialeto trentino falado pelos descendentes no Brasil, especialmente na Colônia Tirolesa de Piracicaba (SP). Atualmente é presidente e professor no Centro Cultural Dona Leopoldina, em Treze Tílias (SC), fundado em parceria com a Universidade de Innsbruck, na Áustria.

Além dos dois organizadores da pesquisa, participaram da elaboração do livro, como colaboradores, vários descendentes de tiroleses espalhados por todo o Brasil, além de um professor da Unversità degli Studi di Trento, na Itália.

Carta Tirolo 1

A região do Tirol Histórico

O livro se inicia com um capítulo abordando a longa história da região do Tirol (atuais províncias de Trento e Bolzano, na Itália, e Estado do Tirol, na Áustria). Partindo dos tempos do Império Romano, o texto aborda os principais acontecimentos históricos e políticos que interessaram a região tirolesa ao longo dos séculos, passando pela fundação dos Principados Episcopais de Bressanone (al. Brixen) e Trento (al. Trient), no século XI, pela fundação de facto do Condado do Tirol sob Meinhard II, no século XIII, até chegar as Guerras Napoleônicas e a Revolução Tirolesa de 1809, à tragédia da Primeira Guerra Mundial e a divisão do Tirol e os acontecimentos do século XX que levaram à situação geopolítica da região nos dias atuais. Fundamental para aqueles que desejam conhecer, ainda que de maneira concisa, a história da terra dos seus antepassados.

No mesmo capítulo ainda é possível encontrar uma descrição dos principais aspectos relacionados à emigração de massa de tiroleses para o Brasil a partir da década de 1850. O texto aborda, primeiramente, os motivos que levaram à emigração (como as guerras de independência da Itália e a crise agrícola daquele período). Em seguida, descreve com riqueza a fundação das principais colônias tirolesas do Brasil, especialmente nos estados das regiões Sul e Sudeste.

Na sequência, quatro capítulos se debruçam sobre os principais aspectos filológicos dos dialetos (pois são vários!) trentinos falados nas principais cidades de ascendência trentina do Brasil: o primeiro deles, de autoria do Prof. Pe. Mário Bonatti, trata do dialeto falado em Rio dos Cedros (SC), praticamente idêntico àquele utilizado na vizinha cidade de Rodeio; o segundo, de autoria da Prof.ª Ivette Marli Boso, se dedica ao dialeto falado na cidade de Nova Trento (SC). O terceiro, escrito pelo Prof. Everton Altmayer, aborda o dialeto trentino falado nos bairros de Santana e Santa Olímpia, que juntos formam a Colônia Tirolesa de Piracicaba (SP). E o quarto, de autoria do Prof. Everton Altmayer e de Fernanda Auxiliadora Coutinho, se debruça sobre alguns aspectos do dialeto trentino falado em Santa Teresa (ES), este já bastante influenciado pelas variantes vênetas majoritárias no local.

Rodeio Escola 1895 franciscanos

Foto da escola dos franciscanos em Rodeio. Ao contrário do que se pensa, a maior parte dos imigrantes tiroleses que chegaram ao Brasil era alfabetizada (incluindo as mulheres). Na nova pátria, os imigrantes buscaram, não sem dificuldades, garantir que seus filhos e netos também tivessem acesso à educação.

O capítulo subsequente, de autoria do Prof. Altino Mengarda, trata novamente do dialeto de Rio dos Cedros, desta vez com enfoque nos usos e costumes relacionados a essa língua e à função social que ela cumpria e cumpre nas cidades de ascendência trentina em geral, e em Rio dos Cedros em particular.

Em seguida, um capítulo se dedica aos principais aspectos filológicos do dialeto trentino falado na Europa, abordando especialmente sua evolução histórica a partir do latim, as influências da língua ladina e das línguas germânicas, até chegar às características do dialeto falado atualmente na região de Trento, abordando também as diferenças deste com relação aos dialetos falados no Brasil.

Finalmente, o capítulo de autoria do Prof. Renzo Tommasi, da Università degli Studi di Trento, aborda com mais detalhe as causas da emigração de tiroleses italianos (trentinos) para o Brasil, aprofundando aspectos já abordados no primeiro capítulo do livro.

Nos apêndices, encontram-se textos em verso e prosa, de diversas autorias, exemplificando as variantes do dialeto trentino faladas em diferentes cidades do Brasil. Fechando o livro, vocabulários com os principais verbetes das variantes utilizadas em duas localidades de descendentes de tiroleses: Rio dos Cedros (SC) e a Colônia Tirolesa de Piracicaba (SP).

Trata-se de um livro de suma importância, em uma época em que muitos descendentes julgam que o dialeto falado pelos seus pais e avós (e, em alguns casos, por si mesmos) não é mais do que um “italiano mal falado”. Na verdade, trata-se de uma verdadeira língua própria, ainda que com suas variantes espalhadas pelo Brasil e o mundo. Essa tese é defendida no livro, que representa um marco na área de estudos que se interessa pela imigração tirolesa no Brasil e pelos dialetos trentinos que aqui se desenvolveram.

O livro é importante também para desfazer uma confusão criada desde o reconhecimento do “Talian” riograndense como Patrimônio Cultural brasileiro, em 2015: tendo em vista que muitas cidades, especialmente em Santa Catarina, utilizam o nome “Talian” para se referir aos seus dialetos trentinos, espalhou-se a ideia, por essas regiões, de que sua língua é que havia sido reconhecida como Patrimônio. Na verdade, embora similar ao “Talian” riograndense (este, uma koiné de falares vênetos, lombardos e também tiroleses que se encontraram no Rio Grande do Sul) em alguns aspectos, o livro demonstra que os dialetos trentinos falados no Brasil ainda preservam as características que, na Europa, separam os falares trentinos dos falares vênetos e lombardos.

Devido à sua importância, o livro foi apresentado em seratas informativas nas cidades de Treze Tílias (SC) e Nova Trento (SC), ainda em 2016; bem como em eventos organizados nas cidades de Rodeio (SC) e Rio dos Cedros (SC), já em 2017. Independentemente disso, trata-se de um livro recomendado a todos aqueles, descendentes ou não, que se interessam pela história e sobretudo pela língua trazida ao Brasil no século XIX pelos imigrantes tiroleses, e que estes deixaram como patrimônio imaterial para seus netos e bisnetos.

Vídeo do lançamento do livro, na cidade de Treze Tílias (SC).

 

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