O PRIMEIRO IMIGRANTE DE GARIBALDI – RS

O Blog Tiroleses no Brasil publica outra importantíssima contribuição do pesquisador César Girardi, de Porto Alegre, Rio Grande do Sul, na qual demonstra-se a verdadeira origem de Cirillo Zamboni, considerado o primeiro imigrante da cidade gaúcha de Garibaldi, nascido no Tirol, Império Austríaco.

L’amore per le proprie radici e l’onestà di rispettare quelle degli altre.
“O amor pelas próprias raízes e a honestidade para respeitar a dos outros.” (Giuseppe Matuella, escritor tirolês)

Através do projeto de lei do Legislativo Municipal nº 067/92 e, posteriormente da lei nº 2213, foi colocada uma placa na Praça 31 de Outubro em homenagem a Cirillo Zamboni, reconhecendo-o como o “primeiro imigrante italiano” de Garibaldi.

Erro histórico na lei municipal que reconhece o imigrante austríaco Cirillo Zamboni como primeiro imigrante italiano de Garibaldi – RS.

Como veremos adiante,a referida lei não condiz com a verdade histórica…

O primeiro imigrante oficialmente reconhecido a chegar na antiga Colônia Conde D’eu, atual cidade de Garibaldi, não foi um imigrante italiano, mas um imigrante austríaco de língua italiana, originário do Tirol.

Cirillo Zamboni nunca foi italiano, nem seus pais, nem seus avós, nem seus bisavós, nem as várias gerações que o antecederam, pois todos eram pessoas residentes na região do Tirol, território ligado à Áustria há séculos. Assim como Zamboni, todos os tiroleses pioneiros que imigraram para o Rio Grande do Sul naquela época tinham passaporte austríaco, eram cidadãos do Império Austríaco.

O Tirol sempre esteve ligado à Áustria, de 1363 até 1918. Foi após a
Primeira Grande Mundial (1918) que o mesmo foi dividido entre 2 países, Áustria e Itália. Durante o governo fascista de Mussolini, o Tirol meridional teve a sua história de mais de 500 anos “apagada” e substituída por outra, com o propósito de italianizar a região, que na época passou a chamar-se Trentino-Alto Adige e permanece com esse nome até hoje. Essa história alterada tem seus reflexos até os dias atuais e gera muita desinformação aos descendentes. Se essa distorção já criava dúvidas aos da minha geração, os nascidos na década de 1940, imagine-se para os que vieram depois.

O imigrante Cirillo Zamboni

Batizado como Cirillo Vitale Zamboni, nasceu no dia 12 de abril de 1842 em Mattarello, província do Tirol, no Império Austríaco. Era filho de Emiglio Zamboni e Teresa Anesini.

Cirillo se casou em Viena, capital da Áustria, com Marianna Masiovisk, de língua polonesa e muito provavelmente originária da província austríaca da Galícia (Galizien). O jovem tirolês conheceu a futura esposa quando trabalhava como capataz de estradas em Viena. Segundo relatos familiares, Marianna trabalhava como servente ajudando os pedreiros e tinha 18 anos quando conheceu Cirillo.

Cirillo imigrou com a família embarcando no porto do Havre, França, no navio San Martin. Junto dele estava sua esposa, grávida, a filha Anna Maria, de 1 ano e cinco meses, a avó Teresa, com 55 anos de
idade, o primo Giovanni Battista Zamboni com sua esposa Teresa e os
filhos deste casal, Guglielmo e Adice.

Segundo as memórias de uma neta de Cirillo, durante a longa viagem foram muitas as dificuldades enfrentadas pelos Zamboni e demais tripulantes, pois tiveram que enfrentar as epidemias de cólera e febre espanhola em um espaço tão pequeno, de mais ou menos 1 m² por pessoa. No navio repleto de imigrantes, devido às epidemias que ceifaram a vida de muitos passageiros, Cirillo serviu de enfermeiro, de padeiro e cozinheiro. Com isto, conquistou a simpatia do comandante Émile, que o transferiu para a 1ª classe e fazia questão que, durante as refeições, Cirillo e sua esposa se sentassem à mesa ao seu lado.

Observação: Segundo nossas pesquisas, há uma discrepância na data da partida no navio, indicando talvez que o nome poderia ser outro, já que em 1º de agosto, o San Martin já havia chegado ao Rio de Janeiro (18 julho 1875) e estava a caminho dos países do Prata. O nome do comandante também não coincide, a não ser que fosse, na verdade, um sub comandante ou funcionário de relevância.

Já em águas brasileiras, nasceu seu segundo filho, ao qual foi dado o nome de Emilio, em homenagem ao “comandante” Émile.

Cirillo chegou a Garibaldi no dia 15 de novembro de 1875, instalando-se em um barracão com telhado de capim e parede de taquaras e barro. Tinha trinta e três anos de idade. Em pouco mais de um mês, em 24 de dezembro de 1875, chegaria a esse mesmo barracão a primeira grande leva de imigrantes tiroleses liderados pelo padre tirolês Bartolomeo Tiecher, natural de Caldonazzo.

Lote pertencente a Cirillo Zamboni na antiga Colônia Conde D’Eu. Atualmente, o local se encontra no município de Carlos Barbosa.

Cirillo Zamboni foi amigo particular do Pe. Tiecher, outro pioneiro da imigração austríaca no Rio Grande do Sul e o primeiro sacerdote de Garibaldi.

Cirillo Zamboni era fotógrafo e construiu um moinho na Linha Vitória, atual município de Carlos Barbosa. O moinho ficava bem em frente da antiga capela da Linha Vitória e ainda lá estão algumas pedras da antiga construção.

Ruínas do antigo moinho de Cirillo Zamboni em Linha Vitória.

A primeira capela de Linha Vitória foi construída em madeira no ano de 1883 e ficava do lado oposto da estrada onde se encontra a construção
atual. Em 1913 foi construída a atual segunda capela, reformada na década de 1970. Junto à Igreja, a comunidade construiu, em 1953, um santuário ao ar livre, dedicado à padroeira, Nossa Senhora do Cavaraggio (devoção tirolesa e italiana).

Ao lado da igreja há também um campanário com sino, feito de madeira e zinco.

No prédio onde morava, no núcleo central da Colônia Conde D’eu (atual Garibaldi), Cirillo Zamboni instalou uma papelaria e uma tipografia, onde foi impresso o primeiro jornal da cidade. O antigo equipamento foi doado ao Museu Histórico-Cultural de Garibaldi.

Segundo as memórias de sua neta, Cirillo foi uma pessoa culta e nas
suas estadas em diversas regiões e países aprendeu a falar sete línguas, o que lhe permitiu ajudar os imigrantes de outras nacionalidades já no navio em que viajou para o Brasil. Na nova terra, seus conhecimentos do idioma francês foram importantes para auxiliar as irmãs missionárias de São José, que falavam somente o francês.

Os Zamboni tiveram 16 filhos, dos quais 5 faleceram ainda crianças. Cirillo faleceu em Garibaldi, no dia 4 de novembro de 1926, aos 84 anos de idade. Marianna faleceu em 30 de maio de 1932, em Garibaldi.

4 comentários em “O PRIMEIRO IMIGRANTE DE GARIBALDI – RS”

  1. Procuro Informações do meu Bisavô que veio nesta leva de imigrantes austríacos no Império Brasileiro. Ele se estabeleceu em Niterói RJ, seu nome era : Alfredo Baptista Sasso. Se puderem me auxiliar em muito lhes agradeço.

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