Trentinidade brasileira: uma invenção macarrônica

Boina e bandeira da Itália, polenta e tarantela, vinho e gestos com a mão, traços de uma estética “italiana” que passaram a formar um pacote pronto de identidade. A força dos estereótipos é tão grande no Brasil que, muitas vezes, eles acabam se sobrepondo à própria história.

Principalmente a partir dos anos 90 e 2000, com a criação de círculos culturais que passaram a promover iniciativas para resgatar a “trentinidade”, o que se viu de fato foi uma reinvenção da identidade.

Esse imaginário repleto de estereótipos ganhou uma nova roupagem e a chamada “trentinidade” se tornou uma invenção macarrônica.

Mas há uma questão fundamental, que poucos têm coragem de dizer: a história e a cultura dos imigrantes muitas vezes não cabe nesses estereótipos.

Os imigrantes originários da região trentina eram, em sua maioria, falantes do italiano (e do dialeto trentino, chamado “dialèt tiroles”) porém eles não eram imigrantes da Itália.

A região de Trento é a parte de língua italiana do Tirol histórico e os imigrantes que aqui chegaram entre 1858 e 1920 nasceram todos como súditos austríacos, pois sua terra natal era austríaca e não italiana.

Todo o Tirol esteve integrado ao mundo austríaco por quase seiscentos anos, de 1363 a 1918. Isso significa que nenhum desses imigrantes chegou exibindo bandeiras da Itália e, para sermos bem sinceros, eles nem se identificavam como “trentinos” (termo que ganhou força no Brasil a partir de 1970).

Passaporte austríaco de imigrante da região trentina do Tirol.

Só essas informações já são um banho de água fria em todas as “iniciativas culturais” que adoram usar as palavras “resgate” e “tradição”. Mas… qual resgate quando se muda a história? Qual tradição quando se reinventam as origens?

Essa dimensão histórica é tão fortemente ignorada que o que vemos é a apresentação de um “povo trentino” que não tem nada a ver com os imigrantes. Isso acontece por desconhecimento, ou porque a história verdadeira não combina com a imagem de uma “trentinidade” construída posteriormente?

A questão é ainda mais incômoda: para sustentar essa nova identidade, as referências dos próprios imigrantes acabam sendo substituídas por uma narrativa nova, que transforma o passado para justificar as iniciativas do presente.

O tirolês imigrante, que era um austríaco de língua italiana transforma-se em um imigrante “trentino italiano” e a complexidade histórica de sua identidade original desaparece, dando lugar à reinvenção macarrônica da realidade, onde entra o estereótipo: boina e pizza, polenta e tarantela.

Não se trata de desmerecer essas tradições do Sul da Itália, nem os enredos das novelas. É apenas uma questão de honestidade intelectual, de verdadeiro respeito às origens.

Qualquer critério vale, desde que “pareça italiano”. O traje típico de Trento, que segue os padrões tiroleses e é muito parecido com o traje alemão da Baviera acaba sendo “abandonado” porque ele não parece suficientemente “italiano”.

Dados oficiais da emigração italiana: a região de Trento não consta, pois era austríaca.

Os ritmos e danças típicas da região de Trento, que são muito parecidas (quando não idênticas) às da Áustria e Sul da Alemanha são deixadas de lado. Em seu lugar entra a Tarantela, incorporada e apresentada como símbolo natural da cultura trentina”.

Seria igualmente esdrúxulo um CTG gaúcho tocar forró em seu baile tradicional e apresentar isso como manifestação típica da cultura do Rio Grande do Sul.

Claro que a mistura pode ser legítima como criação contemporânea. Mas se torna um problema apresentá-la como tradição ancestral sem qualquer critério histórico.

As novelas e a cultura popular brasileira também tiveram papel importante nisso. Durante décadas, ajudaram a construir um imaginário extremamente estereotipado do “italiano” — e esse imaginário acabou sendo reciclado como se fosse “memória trentina”.

O resultado? Uma espécie de cafonização da ancestralidade: quanto mais elementos parecem “italianos”, mais “trentina” a festa supostamente se torna. Só que não – é exatamente o contrário!

Polenta e tarantella: mistura indigesta? Talvez não, mas certamente artificial. A polenta não faz parte da culinária napolitana, nem a tarantela faz parte do folclore trentino.

Não há problema algum em reinventar uma identidade. Toda cultura viva se transforma. O problema é inventar uma identidade nova, apagar a identidade dos antepassados e depois apresentar a invenção como se fosse tradição.

Entenda: dizer que os imigrantes da região de Trento eram austríacos de língua italiana, que se reconheciam como tiroleses e que viveram durante séculos dentro de uma realidade política e cultural austríaca não destrói a autêntica identidade trentina, que faz parte do contexto alpino e tirolês.

Ao contrário: devolve a ela a história, retoma o vínculo com os antepassados e se resgata de verdade tudo aquilo que o estereótipo macarrônico retirou.

Porque preservar a memória não é escolher apenas aquilo “que se quer dizer”, mas saber respeitar aquilo “que se é”.

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