O Blog Tiroleses no Brasil conta a história da imigração baseando-se em fatos e documentos. Os depoimentos de pessoas idosas, geralmente filhos e netos de imigrantes, têm muito valor, mas não são suficientes, pois a história é feita tanto de lembranças como de esquecimentos. Por conta disso, torna-se necessário contar a história também a partir de fontes documentais.
Apresentamos alguns fatos (e fotos) que contam um pouco da história da cidade catarinense de Rio dos Cedros, colonizada em 1875 por imigrantes da região trentina do Tirol, no Império Austríaco, aos quais se juntaram, posteriormente, imigrantes italianos oriundos principalmente do Vêneto, além de algumas famílias de imigrantes alemães.
O nome da cidade tem sua origem na expedição liderada em 1863 pelo desbravador alemão August Wunderwald, que nomeou o rio local de “Rio dos Cedros” devido à grande quantidade de cedros que existiam nas margens do rio que corta a região.
A simpática cidade de Rio dos Cedros é conhecida no Vale do Itajaí como “Coração Trentino”, nome dado na década de 2020 visando destacar a cultura local, de origem na região trentina do Tirol.
A seguir veremos que, dos anos da imigração até a década de 1970, os imigrantes que fundaram a cidade não se definiam (e não eram definidos) “trentinos”, mas tiroleses ou tiroleses italianos, o que indica que a atual “identidade trentina” da cidade foi sendo (re)construída a partir da década de 1970.

Os imigrantes tiroleses que se estabeleceram em Rio dos Cedros chegaram ao Brasil a partir de 1875, saídos principalmente das localidades de Albiano, Besenello, Cavedine, Centa, Civezzano, Cognola, Fornace, Matarello, Ospedaletto, Pergine, Samone, Segonzano, Strigno, Torcegno, Trento, Valda e Volano.
Trentinos: imigrantes austríacos de língua italiana
A identidade nacional dos imigrantes da região trentina precisa ser entendida de acordo com sua história, a partir do contexto social e político da época em que viveram. Vale lembrar que a região do Tirol histórico está atualmente dividida entre a Áustria e a Itália, mas nem sempre foi assim. Todo o território tirolês esteve unido à Áustria de 1363 até 1918, ou seja, por quase 600 anos, e a parte sul desse território passou para a Itália após a Primeira Guerra Mundial, em 1918 (oficialmente em 1921). Quando conhecemos melhor a história de Trento, vemos que ela se entrelaça com a história de outras importantes cidades austríacas como Innsbruck, Salzburgo e Viena.

Outro fator importante é que o Tirol sempre foi uma região trilíngue, ou seja, com três idiomas oficiais: o alemão, o italiano e o ladino, além de diversos dialetos locais. Isso explica, por exemplo, o grande número de palavras de origem alemã no dialeto trentino, assim como o grande número de palavras de origem italiana no tirolês alemão.
Muitos podem se perguntar: como eram austríacos se não falavam o alemão? No entanto, vale lembrar que até 1918, o Império Austríaco possuía 12 idiomas oficiais, entres eles o idioma italiano. Ser austríaco não era sinônimo de “falar alemão”.
Embora fossem alfabetizados em italiano gramatical, os tiroleses da região trentina falavam seus dialetos locais, atualmente classificados no grupo dialetal trentino, mas que naquela época era chamado “dialet tiroles” – esse termo parece ter sido esquecido em Rio dos Cedros, mas se manteve em Rodeio e em outras localidades brasileiras. No contexto regional do Vale do Itajaí, fortemente marcado pela presença dos colonos germânicos em Pomerode e Blumenau, era muito comum que os imigrantes da região trentina e os italianos identificassem seus modos de falar como “talian“, embora não fosse o italiano gramatical, mas diversos dialetos de matriz latina. O talian riocedrense não deve ser confundido com o idioma dos descendentes de imigrantes do Rio Grande do Sul, pois são diferentes. Essa classificação indicava, na verdade, o grupo linguístico ao qual pertenciam no Vale do Itajaí e não a nacionalidade.

Portanto, é correto dizer que os fundadores de Rio dos Cedros, de Rodeio e de Tiroleses em Timbó eram austríacos, mas seu idioma não era germânico. Eles eram de língua italiana, mas não eram imigrantes da Itália. Outro fato “esquecido” é que muitos desses imigrantes também sabiam falar o alemão, idioma que era ensinado como segunda lingua nas escolas da região trentina e que foi importante nos primeiros anos da colonização, para a comunicação com os colonos alemães do Vale do Itajaí.
Essas informações já indicam que a complexidade da assim chamada “imigração trentina”. Trata-se de uma identidade bastante específica e a história da colonização riocedrense fica “incompleta” quando não levamos em conta esses detalhes históricos, ou seja, que se tratou de uma imigração em língua italiana, mas vinda da Áustria. Essa identidade peculiar está bem documentada em diversos registros históricos, seja em escritos do Dr. Hermann Blumenau, fundador da colônia, assim como em documentos escritos pelos padres missionários franciscanos, que atuaram entre os imigrantes de língua italiana.
O testemunho do padre Giacomo Vicenzi
O cônego Giacomo Vicenzi é considerado o primeiro riocedrense a ser ordenado sacerdote. Ele nasceu no Tirol em 10 de agosto de 1868 e emigrou para a Colônia Blumenau com 8 anos de idade, em 1876. Era natural de Val di Gresta, da fração de San Felice de Pannone, que até 1971 foi sede do antigo município de Gardumo e atualmente é uma fração do município de Mori.

Giacomo Vicenzi chegou criança ao Brasil juntamente com sua família e fez seus primeiros estudos na área de Pomeranos (ainda pertencente à antiga Colônia Blumenau), habitada quase que exclusivamente por tiroleses de língua italiana.
Vicenzi seguiu com os estudos no Rio de Janeiro, onde foi ordenado sacerdote em 1894, aos 26 anos, sendo capelão em várias irmandades, tornando-se cônego em 1913. Era conhecido entre os tiroleses como “El pret del Rosso” (“o padre do Vermelho”), por causa de seu pai. Escritor e músico, foi autor de vários livros e sonetos, utilizando o pseudônimo de Silvius Ovídio. Em Pomeranos, fundou a primeira banda musical com os instrumentos que trouxe do Rio de Janeiro. Tanto em Rio dos Cedros/Pomeranos como em Rodeio, os tiroleses possuíam sua própria banda musical, seguindo o costume da terra de origem.
Padre Vicenzi é autor do livro “Uma Viagem ao Estadod e Santa Catharina”, publicado em 1904 pela Editora Niteroi, no qual relata a sua viagem do Rio de Janeiro até a Colônia Blumenau, para visitar o pai adoentado. A narrativa se inicia com o embarque na capital brasileira, seguindo para Paranaguá, Desterro (Florianópolis), Itajaí e, enfim, até Blumenau a bordo do pequeno vapor Jahn.
Em seu livro, ele relata sobre as transformações urbanísticas ocasionadas pela colonização em Blumenau:
“Uma cidade pequena, moderna e é sede desse florescente município que, há pouco mais de 50 anos, foi fundado por um velho prussiano o qual lhe deixou o próprio nome. Parece incrível que, no curto espaço de meio século aquelas matas virgens se transformassem no mais próspero município de Santa Catarina. […] A viagem não era pequena. Cinquenta quilômetros de caminho separavam-me da residência de meu velho pai, o qual ficava em um lugar denominado – Caminho dos Pomeranos, em alemão – Pommerstraße. Esse caminho, ou rua, se quiserem, é habitado de ambos os lados, devendo notar-se que os moradores da esquerda têm, de certo ponto em diante, o rio dos Cedros fazendo frente com seus terrenos. Chamam-se Pomeranos, porque seus primeiros moradores foram alemães vindos da Pomerania. A essas ruas, que mais propriamente se chamam caminhos, os seus habitantes, de origem italiana, lhes aplicam o nome significativo de vales, e isso tem sua razão de ser, se observarmos a descrição topográfica desses territórios […] Muitas pessoas conheço que, em um dia, vão a pé, de Pomeranos a Blumenau em 10 ou mesmo em 8 horas”.
Ao tratar da população da Colônia Blumenau, em sua quase totalidade formada por falantes de alemão e de italiano, o padre Vicenzi ilustra ao leitor a paisagem rural formada por pequenas propriedades habitadas por imigrantes e seus filhos:
Por toda parte se avistam no campo famílias inteiras ocupadas no cultivo da terra. Os alemães, bons lavradores, são, contudo, mais propensos à criação de gado; os italianos dedicam-se com preferência à lavoura. Todos eles obtêm, com seus suores, das entranhas da terra, os gêneros alimentícios necessários para a própria subsistência. […] A população do município de Blumenau é, em sua quase totalidade, ou alemã ou italiana, pelo menos na origem. Pode-se, contudo, dizer que as pessoas de 25 ou 30 anos para baixo, todas nasceram no Brasil”.
Seguindo seu relato, o padre faz questão de especificar a identidade nacional de seus conterrâneos tiroleses, italianos na língua e austríacos na identidade e nacionalidade:
“Os que vieram da Alemanha creio que quase todos são prussianos; os chamados italianos não são italianos senão na língua, sendo quase todos eles naturais da Áustria, isto é, do Tirol. Na distância de cerca de hora e meia de casa, comecei a passar por entre moradores italianos, em cujo número conto com as mais íntimas e sinceras relações. Sempre se aproximavam de mim e me pediam a benção”.
[…] “Ouvi dizer que o plano primitivo do Dr. Blumenau era de povoar os territórios, que o Governo lhe concedera para este fim, só de alemães Protestantes. Mais tarde, ou por mudar de opinião, ou por circunstâncias
independentes de sua vontade, a imigração estendeu-se a Católicos alemães, e a um grande número de italianos. Estes últimos quase todos pertencentes à Áustria, e austríacos de coração em sua totalidade (digo isto para que se não pense que são irredentistas) só 25 anos mais tarde foram para aquela Colônia”.
[…] “O município de Blumenau conta aproximadamente com uns 50 mil habitantes, sendo a maior parte alemã. (Em 1864 era em torno de 2.400 habitantes!). A cidade é pequena, e talvez conte com seus arredores, de umas 3 ou 4 mil almas. Em seguida vem os italianos, em número de 10 para 15 mil”.
Muitas vezes o governo brasileiro preferia categorizar os grupos de imigrantes pelo idioma falado em vez do país de origem. Mas, como podemos ver, também os imigrantes se identificavam tanto em sua identidade nacional, como em sua identidade linguística. Foi assim que muitos imigrantes austríacos e belgas de língua alemã foram classificados como “alemães”, e austríacos de língua italiana como “italianos”.

Como os tiroleses de Trento falavam o italiano e seus dialetos de raiz neolatina, eram “italianos” em comparação com os “alemães”. Assim, austríacos do Tirol e italianos do Vêneto e da Lombardia eram chamados genericamente de “italianos” por conta da língua que falavam. Com o passar das décadas, a própria comunidade tirolesa absorveu o termo para se diferenciar dos colonos que falavam alemão.
No ano de 1903, as relações consulares com o Império da Áustria se intensificaram no Vale do Itajaí. Karlo Bertoni, representante consular da Áustria-Hungria, visitou a comunidade de Rio dos Cedros, sendo muito bem recebido pelos imigrantes e seus descendentes. Tratava-se da primeira visita de um representante oficial do governo austro-húngaro desde que os imigrantes haviam chegado ao Brasil em 1875.


A visita de Bertoni ao Vale do Itajaí tinha uma motivação específica: incentivar a produção do bicho-da-seda entre os colonos tiroleses, para que fosse estabelecida a exportação para a Europa. Contudo, devido a vários fatores, tais como clima e logística, os colonos não conseguiram dar prosseguimento ao projeto. Outro fator que dificultava a venda era a forte influência comercial dos colonos alemães, que praticamente monopolizavam as vendas de produtos, bem como a compra da produção agrícola.

Um documento que merece atenção é o estatuto da Lega Austriaco-Brasiliana di Rodeio nel Municipio di Blumenau (“Liga Austro-brasileira de Rodeio no Município de Blumenau”), fundada em 14 de dezembro de 1909 em Rodeio, que naquele tempo ainda pertencia ao município de Blumenau. O texto escrito em perfeito italiano apresenta as finalidades da sociedade austro-brasileira que teve como primeira diretoria imigrantes tiroleses residentes em Rodeio e Rio dos Cedros. Presidente: Giuseppe Sevegnani; Vice-presidente: Emanuele Moratelli; Secretário: Battista Bonatti e Tesoureiro: Antonio Nardelli.
As cartas escritas pelos imigrantes e pelos descendentes das primeiras gerações, bem como os artigos de jornais anteriores ao ano de 1975 (centenário) também documentam que eles se definiam a si próprios como Tiroleses ou Tiroleses italianos ao invés de trentinos. O uso da palavra (que originalmente identifica especificamente o habitante da cidade de Trento) passou a ser usado após a festa do centenário da imigração “italiana”.

Um interessante testemunho histórico é a carta escrita pelo imigrante tirolês Giosuè Fiamonzini (Fiamoncini), encontrada nos alicerces da Igreja Imaculada Conceição, em Rio dos Cedros, quando a igreja foi demolida.
Tradução da Carta:
“No ano do Senhor
1901
Reinando em Roma sobre seu pontificado
O Papa Leão XII.
Sendo Bispo desta Diocese por ora
José de Camargo Barros
Residente em Curitiba
Estado do Paraná
Primeiro Bispo.
Eu abaixo assinado Giosuè Fiamonzini junto com o meu filho Elia e Ermínio Stingen, também Antônio Corrente, meus ajudantes e subordinados no trabalho desta igreja, me coloco para perpetuar a lembrança para os séculos vindouros quero que saibam ter eu agido como arquiteto e diretor desta obra como o fiz assim com relação à igreja e convento de Rodeio 100 (Centro referindo-se à Igreja Matriz de Rodeio, nota Nélson) e da Igreja São Paulo n. 43. Assim também trabalhei em grande parte na igreja de Blumenau no ano de 1876 e em seguida no mesmo instituto e naquele convento. Isso que faço não é por ambição ou orgulho, mas para que nos séculos vindouros se tenha uma lembrança mais completa colocada à luz, o que o Pe. Lucínio não fez na carta colocada na pedra fundamental do presbitério (Referindo-se à Igreja Matriz de Rodeio, nota Nélson). Eu fiz também para a Virgem Santíssima Imaculada Conceição à qual esta igreja é dedicada, mas necessito também eu um dos seus filhos da felicidade perpétua no Paraíso, Amém.
Rio dos Cedros, 10 de março de 1901
Giosuè Fiamonzini
Nascido em Matarello de Trento,
Tirol Merid(ional) Áustria“
O tirolês Giosuè Bernardo Fiamonzini, nascido em Matarello, distrito de Trento no Tirol, em 21/08/1852, recebeu o lote n. 82, no Bairro Gávea, Rodeio, onde hoje se encontra a Cia. Hering. Ergueu a primeira casa de tijolos em Rodeio, que ainda hoje existe toda restaurada, localizada no topo da colina. Ele era mestre de construção, arquiteto portador de diploma de Trento, tendo ele participado do projeto e construção de muitas obras no Vale do Itajaí, tais como a igreja matriz de Rodeio, o colégio São Paulo Apóstolo em Blumenau, a antiga Igreja Imaculada Conceição em Rio dos Cedros (1901) e a capela Nossa Senhora de Lourdes em Ipiranga, Rodeio.
Jornais brasileiros das décadas de 1870 e 1880 também testemunham a identidade dos imigrantes tiroleses em Rio dos Cedros. No ano de 1876, o imigrante Sigismondo Menestrina, natural de Sopramonte e “patriarca” de todos os Menestrina no Vale do Itajaí, anunciava o envio de dinheiro para seus parentes no Tirol. Apesar de todas as dificuldades enfrentadas no Brasil, muitas famílias procuravam ajudar os parentes que ficaram na Europa em meio às várias crises econômicas.














Boa noite, sou Carlos Mauríco, meu bisavô Alfredo Baptista Sasso deve ser da leva de 1875 da imigração, tenho dúvida se venho do Trentino ou do Vêneto. Se estabeleceu no Rio de Janeiro, acho que era ferreiro e fabricantes de Utensílios de metal , pois meu avô ,seu filho segiui esta profissão. Tenho atualmente 65 anos . Há pessoas aí em Santa Catarina com o sobrenome Sasso? Ou Baptista Sasso? Devem ser meus parentes. Meu bisavô morreu em Niterói no RJ. Nas primeiras décadas do século XX. Dsede já agradecido, Carlos Maurício Sasso Santos.
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Muito provavelmente ele era do Vêneto, onde o sobrenome Sasso é bastante difundido. No Tirol existem os sobrenomes Dalsasso ou Dalsass.
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Como eram feitas as remessas de dinheiro dos imigrantes que moravam aqui no Brasil, para seus parentes que permaneceram na Europa?
Seriam em notas de dinheiro em espécie dentro de envelopes e transportadas em “malotes” de Correio nos navios vapores? Seriam por avisos via telégrafo (já haviam cabos submarinos naqueles tempos?)
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Sou Pedro Guetter, quem redigiu o comentário acima, sou de Curitiba, 75 anos, meu avô paterno imigrou de Ternopol (hoje Ucrânia) em 1894, e tenho parentes em Blumenau que residem na região no Bairro da Velha
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acabei de me informar que em 1874 foi inaugurado o telégrafo submarino entre Brasil e Europa, tendo o Imperador D. Pedro II passado mensagens para monarcas de Portugal, Inglaterra e Austria.
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Bom dia.
Muito obrigada pelo convite.
Tenho a lista de imigrantes Trentino também do Rio de Cedro.
Vou ler toda matéria porque prá mim é muito importante.
Meu nome é Ana Maria Bejatto moro em Arujá, São Paulo
Contato WhatsApp
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