“Tiroleses na Floresta” é notícia na Alemanha

Film Tiroler im Urwald

Capa do documentário (em alemão)

O filme Tiroleses na Floresta (DE: Tiroler in Urwald / IT: Tirolesi nella Foresta), documentário (em alemão e italiano) sobre a imigração tirolesa no Brasil, cuja produção teve a colaboração dos autores do Blog, recentemente foi notícia na revista alemã Weltruf. Reproduzimos abaixo o texto publicado, gentilmente enviado pelo diretor do filme, Luis Walter, bem como uma tradução livre.

weltruf

Texto da reportagem (clique para ampliar)

 

Tradução livre do texto:

Profissão: Milionário. Assim estava escrito oficialmente no passaporte do cidadão brasileiro Johann Holzmeister. A família Holzmeister, que havia chegado a Vitória, na Província de Espírito Santo, no ano de 1859, retornou à Áustria de bolsos cheios após 15 prósperos anos – sua história é contada no Museu Holzmeister, em Santa Leopoldina (ES). A exportação de café para Hamburgo e, no navio de volta, importação de bens de consumo para o Brasil havia rendido ganhos consideráveis.
Em sua viagem para encontrar os descendentes dos emigrantes que em 1859 fundaram “Dorf Tirol”, o diretor de cinema Luis Walter, de Bolzano (Südtirol) não encontrou milionários. Os descendentes são, na maioria, agricultores marcados pelo suor do dia-a-dia, cujo trabalho duro não permite mais que uma vida modesta. A “Colônia Tirol”, como o local se chama na língua local, não é uma vila propriamente dita, mas antes uma reunião de sítios distantes uns dos outros nas montanhas de Santa Leopoldina. Aproximadamente 200 famílias vivem ali hoje.

Nesse local, os imigrantes receberam seus lotes – na floresta: “sem casas, sem estradas, sem nada”. Dentro de seis meses, uma área de 5000 m² deveria estar limpa e cultivada e uma casa para a família, construída. No entanto, a juventude não via ali um futuro, e se mudava para as cidades: a Colônia Tirol decaía a olhos vistos. Nos anos 1990, políticos do Tirol do Norte e do Sul tomaram conhecimento da existência dos parentes distantes e organizaram o envio de auxílio. Uma escola agrícola para o aprendizado do cultivo de verduras e de videiras foi instalada, consultorias acerca do comércio dos produtos foram estabelecidas, doenças dos animais foram combatidas – a colônia acordou de sua letargia, resume Luis Walter. Os agricultores também tinham aulas de alemão, e assim a língua dos antepassados passou a ser novamente utilizada.

No entanto, o motivo pelo qual a estrada asfaltada para a colônia foi construída só parcialmente, ainda que o dinheiro do Südtirol esteja disponível para esse fim, nenhum dos entrevistados sabia ou queria responder. Também as aulas de alemão foram novamente interrompidas em 2009, a escola foi fechada, a casa de cultura também. Uma vivaz professora de artes guia Luis Walter pelas salas abandonadas e lamenta a vida cultural inexistente, motivo pelo qual os jovens perdem sua identidade e esquecem suas raízes tirolesas. Porque na remota colônia a ligação com a velha Pátria já há muito tempo foi perdida. “O tempo passa num ritmo diferente aqui”, conclui Luis Walter, resumindo as impressões recolhidas ao longo da visita.

A segunda estação da sua viagem é a colônia “Nova Trento”, no Estado de Santa Catarina. Fundada em 1875 por tiroleses italianos, hoje vivem aqui aproximadamente 11500 pessoas. A viagem pelo local também permite imaginar as dificuldades econômicas relacionadas com o terreno acidentado. No entanto, aqui ele encontra habitantes felizes, especialmente jovens, que valorizam muito a preservação da sua herança cultural: “O Brasil é minha pátria. Minha cultura é aquela que meus antepassados trouxeram do Tirol, por isso sou um tirolês brasileiro. Os ancestrais fizeram muito por nós. Chegaram aqui em meio à floresta, para que nós tivéssemos uma vida melhor que aquela que eles tinham, em sua inacreditável pobreza.”

O Prof. Dr. Everton Altmayer pesquisa a identidade linguística dos tiroleses de língua italiana e valoriza acima de tudo sua preservação. Critica, no entanto, tentativas do atual Trentino, de transferir suas circunstâncias atuais aos tiroleses brasileiros, querendo transformá-los em trentinos italianos. O “Coro Pargoleti” se ocupa da preservação do canto e do dialeto tiroleses. Por que? “É preciso manter nossas raízes vivas.”

Luis Walter visita também Treze Tílias, 400 km a oeste de Nova Trento. Aqui chegaram tiroleses do norte e do sul entre os anos de 1935 e 1938. “Eles queriam ir para a América, onde os doces crescem nas árvores”. No entanto, o que os esperava aqui era também a floresta e nada mais. Walter visitou um local turístico, com escultores, dirndl, lederhosen, hotéis – tudo se chama “Tirol” e a identidade tirolesa é vivida, alegremente misturada com o modo de viver brasileiro.

Também no último ponto da viagem, Santa Olímpia e Piracicaba no Estado de São Paulo, muito lembra o Tirol: monumentos, pinturas, cafés. No entanto, algumas respostas às perguntas de Luis Walter sobre a origem dos antepassados soam vagas: “eles eram todos de lá”.

Dr. Wolfgang Betz

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2 comentários sobre ““Tiroleses na Floresta” é notícia na Alemanha

  1. Pertenço à família Pedò. O ancestral mais longínquo que descobrimos era residente na região de Campodenno, Trento. Depois foram indo para Sporminore, local bem próximo, também Trento. De lá foi que partiram meus antepassados. Vindo para a região de Garibáldi (na serra gaúcha, próxima de Porto Alegre), eram basicamente agricultores que trabalharam duramente a terra para tirar seu sustento.

    Mas a região gaúcha de colonização dita italiana (Garibaldi, Bento Gonçalves, Caxias do Sul e localidades adjacentes) constituía uma mistura de pessoas provenientes de várias regiões do norte da Itália e do Südtirol (Trento pertencia ao Império Austro-húngaro até depois da 1ª guerra mundial (lá por 1918-1919). Então meus antepassados foram se misturando a famílias de vênetos (principalmente) e de outras províncias da Itália.

    A mescla foi rápida ou lenta? Não sei. Pouco li a respeito. Mas, nascido em 1932, como criança ou jovem eu não tinha a menor noção do que seria um trentino, um vêneto, um friulano, um bergamasco etc. Penso que na casa dos meus pais não havia qualquer alusão a terem os antepassados pertencido a um Tirol austríaco. Só muito mais tarde é que comecei a ter alguma noção de os tiroleses não serem italianos (quanto à pátria), apesar de falarem o italiano, na época em que vieram para o Brasil.

    Quero entender, assim, que muitos imigrantes que aportaram no Brasil (final do século XIX) vieram do Südtirol. Mas aqui se mesclaram quase que por completo. Vim a saber, mais recentemente, da existência de cidades brasileiras onde predominam os tiroleses. São poucas. O esforço em constituir associações de trentinos, em vários pontos do Rio Grande do Sul, parece que não foi muito bem sucedido. Qual seria o motivo?

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  2. Prezado Sr. João,

    muito obrigado pelo seu comentário! O objetivo deste Blog sempre foi reconstruir a história da imigração não somente a partir dos grandes livros, mas principalmente a partir dos testemunhos daqueles que puderam conviver com as primeiras gerações de imigrantes em terras brasileiras. Nesse sentido, seu depoimento é muito importante para nós.

    De fato, a Serra Gaúcha foi colonizada por imigrantes provenientes, em sua grande maioria, da região do Vêneto. Dessa forma, ao longo do tempo, devido à mescla entre as famílias de diferentes origens, as culturas provenientes de outras regiões da Itália, que eram minoritárias, acabaram quase que totalmente absorvidas pelo elemento vêneto. Esse fato fica claro se observarmos que o “talian” falado no Rio Grande do Sul é praticamente um dialeto vêneto. Ao longo do tempo, com a mescla entre as famílias, que o senhor menciona, também a cultura dos tiroleses, que constituíam por volta de 7% dos imigrantes de língua italiana no Rio Grande do Sul, foi absorvida pelo elemento vêneto.

    Existem motivos, porém, para acreditar que pelo menos até a época da Primeira Guerra Mundial (quarenta anos depois do início da imigração!), as diferenças de origem entre os imigrantes ainda fosse um fator relevante. Durante o período da Guerra, em que Áustria e Itália batalhavam na Europa pela posse do Tirol Meridional (atuais províncias de Trento e Bolzano), registram-se casos de conflitos entre imigrantes tiroleses (da Áustria) e imigrantes da Itália em várias partes do Brasil – e justamente no Rio Grande do Sul os conflitos foram mais acirrados.

    Logo após a Guerra, quando o Tirol Meridional passou para a Itália, os imigrantes da região de Trento foram apelidados pejorativamente de “tirolesi senza bandiera” ou “senza patria” pelos vênetos, provavelmente porque se recusavam a aceitar a “nova pátria” (ou seja, a Itália) que governava a sua região de origem, ao mesmo tempo que o Império Austríaco havia deixado de existir – tendo ficado, portanto, “sem bandeira”. Embora hoje esses conflitos – felizmente – tenham desaparecido, não é incomum encontrar pessoas mais velhas, na Serra Gaúcha, que se lembrem, sem saber o porquê, de uma família ou grupo de pessoas que era chamado de “tirolesi senza bandiera”.

    O prof. Darcy Loss Luzzatto, um dos “pais” do Talian gaúcho, cuja idade é próxima à do senhor, em seus escritos se recorda ainda muito bem de um “estranhamento” entre a família da sua mãe (Loss, de origem tirolesa) e do seu pai (Luzzatto, de origem vêneta). Porém, é provável que essas situações fossem cada vez mais raras no tempo que o senhor era jovem, já que, terminada a guerra, certamente os habitantes da Serra Gaúcha estavam deixando esses conflitos para trás, ao mesmo tempo que a mescla entre famílias de diferentes origens se acentuava. É bom lembrar também que, pela idade que o senhor diz ter, sua juventude coincidiu com o período da campanha de nacionalização de Getúlio Vargas, que impedia até mesmo o uso dos dialetos italianos no Brasil – e tornava inaceitável qualquer tipo de sentimento patriótico por um país estrangeiro, fosse Áustria ou Itália.

    Nas cidades catarinenses de Nova Trento, Rio dos Cedros, Rodeio e nos bairros Santana e Santa Olímpia, de Piracicaba (SP), a situação era oposta. Ali, os tiroleses eram maioria, e os imigrantes do Reino da Itália, minoria. Em Nova Trento, por exemplo, os tiroleses austríacos constituíam por volta de 75% dos imigrantes de língua italiana. Nessas cidades, foi o elemento tirolês que absorveu os demais, e não é raro encontrar pessoas mais velhas que se recordem de seus avós falando de como haviam vindo da Áustria, do Tirol.

    Por esse motivo, o dialeto falado nesses locais (ainda chamado por alguns de “tirolès”) é similar, mas diferente daquele falado no Rio Grande do Sul. Um falante do “talian” gaúcho tem certa dificuldade de compreender um falante do “tirolès”, porque este último soa bastante “seco” e tem muitas palavras estranhas aos vênetos – muitas delas de origem alemã, assim como vários sobrenomes tiroleses (o mais famoso deles, Visintainer – do alemão Wiesentheiner – sobrenome da Santa Paulina).

    As entidades “trentinas” em terras brasileiras começaram a ser fundadas no Brasil a partir de 1975 (quando foi comemorado o centenário da imigração), por incentivo de fundações financiadas pela Província Autônoma de Trento. A partir daquela data, essas fundações trouxeram aos descendentes em terras brasileiras a imagem do atual Trentino, a começar pelo nome (“trentino”), que até 1975 era praticamente desconhecido por aqui. As entidades “trentinas” no Brasil eram um braço dessas fundações, responsável por auxiliar na execução de iniciativas de diversos tipos. Por esse auxílio, receberam também, por longos anos, recursos da Província de Trento.

    Deliberadamente ou não, muitas vezes as iniciativas promovidas pelas fundações de Trento, em conjunto com as entidades trentinas no Brasil, ignoraram o fato de que, embora tenham um passado em comum, os “trentinos” do Brasil e da Europa estão separados há mais de cem anos – e portanto, não devem e não poderiam jamais ser exatamente iguais. Ao ignorar essas diferenças, muitas dessas iniciativas, como por exemplo a implementação do sistema cooperativo trentino em algumas comunidades de descendentes no Brasil, falharam miseravelmente. Talvez essa ação “de cima para baixo” tenha contribuído para o pouco sucesso que o senhor aponta.

    (Em tempo: hoje existem no Rio Grande do Sul muito mais associações trentinas que associações vênetas. Cidades de maioria vêneta muitas vezes têm Circolo Trentino, mas não têm Circolo Veneto. Terá isso algo a ver com o fato de que a Província Autônoma de Trento enviava recursos vultosos para associações trentinas em todo o mundo, enquanto a Região do Vêneto não o fazia? Fica o questionamento.)

    Peço desculpas por ter me alongado demais. Agradeço novamente pelo seu comentário, e espero que o senhor continue participando do nosso Blog!

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