Andreas Hofer: figura símbolo da união tirolesa

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O dia 20 de fevereiro é particularmente especial em toda a região do Tirol, pois comemora-se a figura de Andreas Hofer (1767 – 1810), importante personagem que colaborou para mudar o curso da história europeia e mundial nos séculos XIX e XX.

Quando das invasões francesas sob o comando de Napoleão Bonaparte (1769 – 1821) no território austríaco, iniciadas em 1796 na região do principado tridentino, o Sacro Império Romano-Germânico formou uma coligação com as potências da Prússia, Inglaterra e Rússia para proteger seu território do avanço francês. Os ecos da revolução ocorrida na França ressoavam por toda a Europa e era natural a preocupação dos monarcas absolutistas, já que os ocorridos da França poderiam ser o estopim de novas revoluções. Apesar do poderio naval britânico e do contingente austríaco, prussiano e russo, a coligação não conseguiu impedir o avanço francês que contava com o auxílio de nações dominadas por Napoleão ou aliadas, como o Reino da Baviera. A Áustria sucumbiu em 1805 durante a batalha de Austerlitz; a vez da Prússia foi em 1806 e da Rússia em 1807.

Napoleão Bonaparte

Napoleão Bonaparte

 

Embora no interno do já enfraquecido Sacro Império, o Reino da Baviera era totalmente autônomo. A paz de Vestfália, firmada em 1648, acabou com a guerra dos 30 anos, dando a vários territórios uma autonomia quase completa perante o imperador em Viena. Com o acordo, a Confederação Helvética, cuja independência remete ao ano de 1499, e a Holanda Setentrional abandonaram definitivamente o sacro império. A Casa de Habsburg mantinha o prestígio do título imperial, mas sua política estava voltada para as terras de seu domínio direto e hereditário, de modo que aos estados constituintes havia apenas a restrição de não formarem alianças contra o imperador.

Dominada pela França e sem o apoio dos vizinhos reinos da Baviera e da Itália, a Áustria não teve como resistir. O imperador Francisco II do Sacro Império Romano-Germânico – a partir de 1804, Francisco I da Áustria – abdicou da coroa do sacro império, dissolvendo-o em 1806. Após ter dado fim ao império e aos principados episcopais, Napoleão procurou unir-se em matrimônio à princesa austríaca Maria Luisa, no intuito de estabelecer uma “paz definitiva” entre França e Áustria, ampliando seus domínios na esfera da Casa de Habsrburgo. Ainda que correspondido pela nobre austríaca, Bonaparte era já casado com Josefina e encontrou forte resistência papal. O cardeal Fesch, tio de Napoleão e com uma política dupla que consistia em subserviência ao império e obediência ao papa, concedeu uma bênção pessoal ao segundo casamento, mas não anulou o antigo matrimônio. Em 1809, Napoleão ordenou a prisão do Papa Pio VII, que o excomungou imediatamente.

Com a Paz de Pressburgo (1805), houve grande descontentamento na região tirolesa por causa da ameaça bávara. Napoleão soube manipular a situação, conhecendo o antigo interesse bávaro pelo Tirol e estabelecendo um acordo que cedia o condado tirolês ao reino bávaro em troca de apoio militar contra a Áustria. Era sabido que a Baviera sempre procurou obter o controle do Tirol, cuja nobreza aparentava-se à sua, mas isso não ocorreu no período medieval por causa do controle político dos Habsburgo que, em 1363, uniram o condado do Tirol ao Ducado da Áustria.

Francisco I

Francisco I, último imperador do Sacro Império e primeiro monarca do Império Austríaco.

Com as tropas bávaras ao Tirol, a nova administração tratou imediatamente de introduzir ideias francesas de inspiração iluminista, encontrando apoio de algumas camadas da burguesia e nobreza locais. O príncipe-bispo de Trento, Peter Vigil Thun (1724 – 1800), fugiu para o exílio antes mesmo da chegada das tropas franco-bávaras, e Innsbruck foi rapidamente dominada. No entanto, a notícia da excomunhão de Napoleão havia se espalhado pela Europa e, no Tirol, gerou um ferrenho ódio popular contra a ocupação francesa. A decisão papal chegara como um chamado à resistência que, na verdade, já dava indícios de estar prestes a se iniciar. O clero local reforçou na população o antigo sentimento de que a nação austríaca, na qualidade de herdeira do legado histórico do Sacro Império, era também defensora legítima da fé católica, mas foi no conservador Tirol que uma rebelião tomaria proporções maiores.

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Domínios da ocupação napoleônica em 1810.

 

A população tirolesa, fortemente apegada ao clero e à coroa austríaca, reagiu ao domínio bávaro com uma rebelião que marcou a queda do domínio napoleônico na Europa. Durante o século XVIII, missionários jesuítas influenciaram profundamente os hábitos e costumes da população tirolesa, difundindo a devoção ao Sagrado Coração de Jesus (al. Jesu-Herz, it. Sacro Cuore di Gesù) e consagrando toda a região tirolesa e dos principados episcopais em “terra santa do Tirol” (al. heiliges Land Tirol); esses dois acontecimentos são extremamente relevantes para se compreender os ânimos da época, a aversão popular tirolesa às ideias iluministas trazidas com a invasão franco-bávara e a forte oposição do clero local contra as novas administrações eclesiásticas que se seguiram nos séculos XVIII e XIX.

A luta armada tirolesa surgiu de uma iniciativa popular contrária ao domínio bávaro e só foi possível graças à existência de grupos armados de proteção (al. Schützen; it. Sìzzeri; lad. Scìzer), formados por atiradores voluntários de diversas origens (nobres, artesãos, comerciantes e camponeses) organizados em companhias existentes por todo o território tirolês. A origem da instituição paramilitar remonta ao século XIV, quando o conde do Tirol recrutava homens para a defesa das dioceses; Mainardo II havia concedido terras a título de feudos hereditários a cavaleiros que compunham a guarda tirolesa. No século XVI, o Imperador Maximiliano de Habsburg, a pedido do príncipe-bispo de Trento, decreta o Landlibell, um conjunto de regras militares que, em caso de guerra, obrigava os tiroleses a lutar somente dentro dos limites do condado, dispensando o serviço militar fora do Tirol. Embora considerados atiradores voluntários, existiam leis provinciais que estabeleciam regras para a prática do tiro (it. bersaglio), como a frequência junto às casernas e quantidade de tiros por ano.

Durante as primeiras tentativas de ocupação francesa no Tirol, atiradores tiroleses combateram tropas invasoras nos vales e montanhas da região trentina. Com a chegada das tropas bávaras, a nova administração procurou alistar os tiroleses no exército bávaro, sem grande sucesso. Em diversos vales formaram-se grupos de resistência, considerados criminosos pela administração franco-bávara e perseguidos. Animados pelo sentimento que podemos chamar de patriótico, as milícias tirolesas passaram a se organizar e, inicialmente, contaram com o auxílio financeiro e militar da administração austríaca.

Faltava aos rebeldes tiroleses a figura de um líder que pudesse representar em sua figura pública os anseios da população. Contrariando as conveniências da época, esse líder não saiu de nenhuma família da nobreza local, mas de uma taberna localizada na pequena cidade sul-tirolesa de São Leonardo (al. Sankt Leonhardt in Passeiertal; it. San Leonardo nella Val Passiria), próxima à cidade de Merano. Tratava-se de um taberneiro e comerciante de cavalos, figura carismática e singular pela grande estatura e pela longa barba negra: Andreas Nikolaus Hofer (1767 – 1810), pai de família e fervoroso católico que em pouco tempo se tornou o carismático líder da resistência popular no Tirol.

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Rebeldes tiroleses.

 

O mais jovem dos quatro filhos e único varão, Hofer viu morrer muito cedo a mãe Maria Aigentler, quando tinha apenas três anos. O pai, Josef Hofer, morreu três anos após ter contraído o segundo matrimônio com Anna Frick, ocorrido em 1772. Com apenas sete anos, o órfão André, como era chamado, foi criado praticamente pela irmã mais velha, Anna Hofer, e pelo cunhado Josef Grinner, que por dez anos tratou de cuidar da hospedaria da família, o Sandhof. Após concluir parte dos estudos primários e religiosos, foi enviado pela madrasta ao Tirol Italiano, ou seja, para a região trentina, para aprender o idioma italiano e ganhar experiência no ofício de taberneiro.

No Tirol alemão, a língua italiana (assim como os falares românicos da região tirolesa) é comumente chamada welsche Sprache ou Walsch. Era costume da época que jovens camponeses provenientes das áreas de língua alemã do Tirol trabalhassem durante algum período na região trentina da província, para ali aprenderem o idioma italiano; do mesmo modo, tiroleses de língua italiana eram enviados para os vales setentrionais do Tirol para ali aprenderem o alemão (costume que se manteve até o século XIX e XX entre famílias abastadas). Vale lembrar que a escola elementar alemã, assim como o ginásio alemão, existiram em Trento até 1918.

Hofer seguiu para a cidade de Cles (al. Glöss), em Val di Non (al. Nonsberg), onde frequentou a escola e trabalhou na hospedaria da família De Miller. Ali, aprendeu o italiano e o dialeto tirolês, ou seja, o atualmente chamado dialeto trentino. À época de Andreas Hofer e durante o século XIX, entendia-se também por “dialeto tirolês” os falares trentinos e ladinos e não somente o dialeto tirolês alemão (Tirolerisch), que muitas vezes era chamado simplesmente “alemão” (Deutsch, Deitsch) ou “bávaro” (Bairisch). O termo Welschtiroler (“tirolês italiano”) se referia não somente aos trentinos, mas também aos falantes do ladino dolomítico.

O aprendizado da língua italiana era importante para seu futuro ofício de comerciante e lhe permitia manter contato com pessoas de toda a província. De Cles, Hofer seguiu para Ballino, pequeno vilarejo próximo à cidade de Stenico (al. Steineg), na região dominada pelas montanhas Judicárias (al. Judikarien; it. Giudicarie), e trabalhou por três anos na Hospedaria Armani, propriedade da família Zanini, que ficou conhecida como “hospedaria do barbudo”, referência à aparência característica de Andreas Hofer. Durante esse período, manteve contato com a companhia de atiradores de Val di Ledro (al. Ledertal).

Findados os anos de experiência no Tirol Italiano (pagos com trabalho e sem remuneração), Andreas Hofer retornou para casa, encontrando a hospedaria à beira da falência. Ali, ocupou o mesmo ofício do avô e do pai, ou seja, taberneiro, retirando o comando das mãos do cunhado e da madrasta e salvando o secular negócio da família. Casou-se com Anna Ladurner em 1789, com quem teve cinco filhos. Além de cuidar da hospedaria, ocupava-se também da venda de cavalos, antigo ofício do pai. Era membro da companhia de atiradores de Merano e loco alcançou o cargo de comandante.

andrea_hofer_tiroloO período à frente do grupo de atiradores garantiu a Andreas Hofer algumas idas e vindas pelos vales tiroleses, coincidindo com o período das invasões francesas, iniciados em 1796 nas investidas francesas contra Trento. Por ser conhecido em várias regiões tirolesas e por falar tanto o alemão como o italiano, Hofer conquistou a confiança dos rebeldes e conseguiu regimentar combatentes em todas as regiões do Tirol. O levante tirolês durou um período de quatorze anos e seu significado maior não está no descontentamento popular frente à invasão estrangeira. Tratava-se de uma espécie de contrarrevolução, uma vez que os motivos reais se baseavam na reação conservadora, enraizada no tradicionalismo católico dos tiroleses e no espírito de autonomia regional.

AH_lutaA revolta contra Napoleão simbolizava uma “guerra santa”, na qual o inimigo não era somente uma ameaça estrangeira, mas assumia uma representação diabólica, contrária às leis da ordem natural e da moral cristã. Não é por menos que o levante liderado por Hofer teve seu início “oficial” com um ato religioso ocorrido em abril de 1809, ministrado pelo padre capuchinho Joachim Haspiger, considerado um dos líderes da insurreição tirolesa. Após o ato simbólico marcado por uma missa com bênção da bandeira tirolesa – cujas cores, verde e branca, indicavam também o culto ao Sagrado Coração de Jesus, as companhias de atiradores voluntários que haviam se organizado em praticamente todos os vales tiroleses, tinham em Hofer seu “chefe supremo”. As milícias eram apoiadas pelo clero e auxiliadas por setores da nobreza austríaca, com destaque para o príncipe e arquiduque João de Habsburg (1782 – 1859), irmão do imperador Francisco I.

Entre abril e maio de 1809, os rebeldes tiroleses venceram várias batalhas locais, intimidando o exército bávaro. A cidade de Trento estava liberta e com a vitória alcançada na batalha de Bergisel, ocorrida em 29 de maio de 1809 nos arredores da capital Innsbruck, os atiradores tiroleses (em sua maioria saídos de Val di Fiemme) retomaram o controle regional das mãos dos bávaros, expulsando as tropas napoleônicas e instaurando um governo provisório que durou quase dois anos. À frente do novo governo estava o próprio líder da revolta, Andreas Hofer, intitulado “chefe supremo” da insurreição tirolesa. Esse período reforçou profundamente o sentimento de unificação política e administrativa do Tirol.

A historiografia nacionalista do século XIX, fosse ela de estampa filo-italiana ou pangermânica, procurou renegar a participação do Tirol Italiano na revolta. Os tiroleses italianos eram, em sua realidade social e linguística, um verdadeiro paradigma a qualquer reivindicação de caráter nacional. Entretanto, sabe-se que a resistência tirolesa não se fez por motivos nacionais, mas patrióticos e religiosos.

Alguns cantos populares demonstram a atuação da comunidade de língua italiana do Tirol durante o levante popular, no qual cerca de 4 mil tiroleses de língua italiana caíram em batalha:

Venga Napoleone
venga, e noi gli daremo
a proprie spese
un lauto pranzo tirolese.

O infedele corsicano
tu ripeti la canzone
che le usanze del paese
che la nostra religione
resteram ferme e ilese

Avanti, avanti, o Galli,
o bugher di Francesi,
che i fidi Tirolesi
stan pronti a guerregiar!

Dell’empietado o mostri
l’Italia è già ripiena,
ma cambiasi or la scena
fra i monti del Tirol!

Quando scacciati avremo
i Franchi e i Giacobini
non sol fuori dei confini,
ma dell’Italia ancor,

Ritornerem festosi
al nostro patriosuolo
e tornerà in Tirolo
la gioia e lo splendor!

 

O vitorioso líder tirolês espalhou sua fama pela Europa ao desafiar Napoleão e demonstrar que este não era, de fato, um general invencível.

AH_3000_ducados_EhrenketteQuem o demonstrava era um homem simples, um taberneiro conhecido como capitàn barbón entre os tiroleses de língua italiana (Riccadonna, 2009). Sua rápida popularidade lhe garantiu o reconhecimento da nobreza austríaca e da Igreja, que condecorou Andreas Hofer com um colar de honra (al. Ehrenkette) de três mil ducados. Napoleão mantinha forte influência no governo de Viena e obrigou o imperador austríaco a ceder definitivamente o governo do Tirol ao Reino da Baviera. O receio e o conformismo da nobreza austríaca, com sua política ambígua que não apoiava oficialmente os tiroleses nem afrontava diretamente Napoleão, não interveio no Tirol com medo de represálias e foi responsável pelo enfraquecimento da insurreição.

 

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Panfleto em língua alemã e italiana, convocando os tiroleses à luta armada. Rovereto, 1809.

 

Após algumas batalhas contra as tropas bávaras (que procuravam continuamente recuperar o poder em Innsbruck), o governo provisório de Hofer estava enfraquecido e politicamente isolado. O líder tirolês estava debilitado. Com sucessivas derrotas e o avanço das tropas napoleônicas vindas da França, Baviera e Itália, Andreas Hofer se refugiou em sua terra natal. Várias cidades tirolesas sofriam com a fome e com represálias. A derrota final culminou com a traição de um dos ex-combatentes tiroleses, Josef Raffl, que entregou o líder da revolta em troca de uma quantia em dinheiro.

Andreas Hofer foi capturado no refúgio de montanha da família, localizado na terra natal. Preso, seguiu para Arco, no Tirol Italiano e, dali, foi levado até Mântua para ouvir sua sentença ao fuzilamento (com ordem direta de Napoleão), ocorrido em 20 de fevereiro de 1810.

 

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Fuzilamento de Andreas Hofer (séc. XIX).

 

Com o fim da resistência tirolesa e a morte do líder máximo da revolta, o Tirol foi dividido. A porção setentrional passou para o domínio bávaro, que a rebatizou como Südbayern (“Baviera meridional”), e a porção meridional passou para o Reino da Itália, rebatizada como Dipartamento dell’Alto Adige (“departamento do alto vale do Ádige”). A administração italiana tratou de substituir rapidamente os cargos públicos e adequá-los ao modo administrativo das cidades italianas, reforçando o já existente (ainda que modesto) clima de disputa étnica existente na região italiana do Tirol.

Em 1812, com as baixas do exército napoleônico na Rússia e as duas abdicações de Napoleão após a derrota de Waterloo, as potências europeias retomaram o controle de suas terras. O Império Austríaco reorganizou seu governo e retomou todo o território tirolês, sem restabelecer os principados episcopais tridentino, de Brixen e de Salzburgo.

Embora omisso durante a revolta tirolesa, o governo vienense difundiu na figura de Andreas Hofer o protótipo do herói nacional que saiu em defesa da pátria mais profunda (Heimat), iniciando, assim, o conceito austríaco de patriotismo que seria propagado pela monarquia dos Habsburo. Em 1909, um grande festejo foi realizado em Innsbruck e contou com a participação do imperador Francisco José.

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A figura de Hofer se tornou popular em toda a Áustria, norte da Itália (principalmente em Mântua, onde foi fuzilado) e na Alemanha. A “Canção de Andreas Hofer” se tornou o hino da região e, atualmente, é hino oficialmente aceito apenas no estado austríaco do Tirol, haja vista que, após 1918, a recordação pública de Andreas Hofer na região de Trento e Bolzano foi proibida pelo governo italiano e, por isso, tornou-se um símbolo da união do território tirolês.

Versão em língua alemã da Canção de Andreas Hofer:

 

Versão em língua italiana da Canção de Andreas Hofer:

 

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Capa do estatuto da Sociedade de Beneficência “Andreas Hofer”, fundada por imigrantes tiroleses nos E.U.A.

 

No ano  de 2009, os governos de Innsbruck, Bozen/Bolzano e Trento organizaram um grande festejo em memória de Andreas Hofer, realizado na antiga capital do Tirol unido, em Innsbruck, e intitulado Geschichte trifft Zukunft/Il Passato incontra il futuro (“O passado encontra o futuro”), do qual participaram mais de 100.000 pessoas provenientes de todas as regiões do Tirol histórico e de outros estados da Áustria.

 

Memória de Andreas Hofer no Brasil

No Brasil, algumas comunidades tirolesas demonstram que, pelo menos nos primeiros anos da colonização, a figura de Andreas Hofer era recordada. Entretanto, torna-se difícil encontrar dados que remetam à perpetuação da memória do herói tirolês nas colônias brasileiras. A imigração era, em muitos aspectos, uma “fuga” que procurou esquecer os momentos difíceis de guerras e sofrimento, de modo que muito do que se viveu não foi contado para as gerações que nasciam em solo brasileiro.

Em um número de 1916 do  jornal Il Trentino, editado em Porto Alegre, um artigo recomenda a “todo bom tirolês” para que tenha em sua casa algumas “canções patrióticas”, entre as quais a Canção de Andreas Hofer e a Marcha de Andreas Hofer.

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Trecho de uma edição do jornal Il Trentino, de Porto Alegre, RS.

 

Na cidade catarinense de Treze Tílias encontramos dois quadros que retratam Andreas Hofer e que, atualmente, se encontram no acervo do Museu Municipal Andreas Thaler (local da antiga residência do fundador da colônia, construído em 1936). Um dos quadros foi trazido durante a imigração e o outro foi provavelmente pintado no Brasil.

 

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Referências Bibliográficas

BERTOLUZZA, Aldo. Andrea Hofer, il generale barbone, eroe popolare del Tirolo. Trento: Curco & Genovese, 1999.

BOSSI-FEDRIGOTTI, Anton. Andreas Hofer. Göttingen: Fischer Verlag, 1965.

HORMAYR, Josef von. Geschichte Andreas Hofer’s, Sandwirths aus Passeyr, Oberanführers der Tyroler im Kriege von 1809. Leipzig / Altenburg: Stern, 1817.

RICCADONNA, Graziano. Andreas Hofer “trentino” nel secondo centenario dell’Anno Nove. Trento: Provincia Autonoma di Trento, 2009.

WEBER, Beda, Das Thal Passeier und seine Bewohner. Mit besonderer Rücksicht auf Andreas Hofer und das Jahr 1809. Innsbruck: UI, 1852.

WURZER, Bernhard. Tiroler Freiheitskampf – Andreas Hofer und der heldenhafte Aufstand eines Volkes, 1809. Nürnberg: Buchdienst Südtirol, 1959.

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4 comentários sobre “Andreas Hofer: figura símbolo da união tirolesa

  1. Interessante esse artigo onde o Sr. fala que o jornal “Il Trentino” publicou as canções importantes para os imigrantes. Nesta época ainda não havia proibição de se usar o nome patrio “Tiroles” e os imigrantes fizeram o jornal com esse nome ? Isso nos remete a italianidde desses imigrantes.
    Outro ponto que vejo na defesa da italianidade dos imigrantes ( pelo menos de uma boa parte deles) é no trecho da musica “La Verginella” onde diz : “Ho regiratto la Italia e il Tirol, só per trovare una verginella”. Não há menção da Austria.

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    • Prezada Sra. Bonini:
      Interessantes sua pergunta e observações.
      1) O jornal “Il Trentino” pertenceu à “Sociedade Trento e Trieste” de Porto Alegre (sob a coordenação de G. Andreatti) e o nome faz referência à cidade de Trento. Como é possível ler nos textos intitulados “Mi son tirolês” (sobretudo: https://tiroleses.com.br/2015/06/12/mi-son-tiroles-parte-3/), o adjetivo trentino é contextualizado no Tirol até 1918, mas não um contrassenso em relação ao adjetivo “tirolês” – isso é uma realidade moderna e, no caso brasileiro, recentíssima, que confunde “Tirol” com “falar alemão” e “trentino” com “falar ou sentir-se italiano”. Pressupor que o nome do jornal em questão remetesse à “italianidade” dos imigrantes nos parece exagerado, sobretudo porque bastaria ler o conteúdo do jornal (que ainda será abordado detalhadamente em próximas postagens) para entender que é exatamente o contrário. Vale lembrar que a língua italiana foi, assim como tantas outras, uma língua oficial do Império Austríaco.
      2) A música la Verginella demonstra exatamente o contrário do que a Sra. afirma. Se o Tirol fosse considerado Itália, não haveria porque separá-lo do contexto italiano, no entanto não se cita “Áustria” porque a canção, muito provavelmente de origem vêneta, menciona os territórios onde é possível falar o italiano – a Itália e o Tirol Meridional. Ainda na canção, a estrofe “i tirolesi son bravi soldati, tutte le notte di sentinela” (“os tiroleses são bravos soldados, todas as noites de sentinela”) faz referência às companhias de atiradores e ao exército regular de fronteira que controlavam a entrada de pastores e trabalhadores rurais italianos vindos do Vêneto e que adentravam sazonalmente em território austríaco para vender produtos e pastorear (prática comum nos Alpes).
      Sem contexto histórico, é sempre mais complicado de se compreender os nuances da cultura de uma região de fronteira como o Tirol, mas agradeçemos pelos comentários que nos permitiram trazer mais informações importantes.

      Att.

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