Il Trentino di Porto Alegre

iltrentino

O Blog Tiroleses no Brasil dedica um texto àquele que foi talvez o mais importante jornal da comunidade austro-brasileira no início do século XX. Trata-se do jornal Il Trentino, editado em Porto Alegre entre os anos de 1915 e 1917 em língua italiana, portuguesa e alemã, definindo-se a “voz” da colônia austríaca no Brasil.

Il Trentino era um “órgão da Sociedade Trento-Trieste de Porto Alegre e dos demais Italianos Austríacos residentes na América do Sul” que, sob a direção do médico G. Andreatti, era publicado semanalmente, sempre às quartas-feiras, com três mil exemplares por edição. O público leitor se encontrava  nas colônias austríacas (sobretudo tirolesas) desde o Rio Grande do Sul até o Espírito Santo.

Os raros exemplares que ainda existem se encontram atualmente no Arquivo Público do Rio Grande do Sul, na seção dedicada às raridades.

Jornal Il Trentino artigo em alemao

Exemplar do jornal, com texto em alemão na primeira página.

 

Vale lembrar que, antes da política nacionalista implantada por Getúlio Vargas durante a Segunda Guerra Mundial (1939 – 1945), jornais em língua estrangeira circulavam normalmente por diversas cidades brasileiras. Haja vista que muitos desses jornais eram editados por imigrantes e descendentes, as opiniões políticas dos textos obviamente variavam.

Como se nota, o jornal Il Trentino era editado no período correspondente à Primeira Guerra Mundial. Naqueles anos, vários jornais brasileiros divergiam nas opiniões e posicionamentos sobre os países que combatiam. Jornais como Il Colono Italiano, de Garibaldi e a Gazeta do Commercio, de Joinville, demonstravam absoluta simpatia pela Áustria-Hungria e Alemanha, criticando a Itália, a Inglaterra, a França e os Estados Unidos, ao passo que jornais como La città di Caxias, La voce d’Italia, Stella d’Italia e L’unione, todos da Serra Gaúcha, demonstravam simpatia pela Itália e criticavam a Alemanha e a Áustria-Hungria.

O jornal Il Trentino publicava textos diversos que iam desde os discursos do imperador austríaco, com opiniões sobre a política internacional, até assuntos do quotidiano das colônias brasileiras.

Boa parte dos artigos era no idioma italiano e, por isso, o jornal era lido principalmente pelos austríacos de língua italiana (tiroleses, triestinos, gorizianos e friulanos), mas também pelos diretores e redatores dos jornais italianos do RS, que não perdiam a oportunidade de publicar artigos criticando o conteúdo do jornal austríaco.

Jornal Citta di Caxias 28 junho 1915

Primeira página do jornal Città di Caxias, de 28 de junho de 1915, dirigido pelo imigrante italiano E. Scorza, critica os imigrantes austríacos G. Andreatti e Giovanni Fronchetti, responsáveis pelos jornais Il Trentino e Il Colono Italiano.

Enquanto esteve sob a direção do capuchinho Giovanni Fronchetti, o jornal Il Colono Italiano publicou ferrenhas críticas à política expansionista do Reino da Itália, sobretudo por conta da anexação dos estados papais. O jornal recebeu esse nome em 1910, quando foi assumido por Fronchetti, imigrante austríaco da região de Trento. Até 1909, era editado pelo imigrante italiano e padre diocesano Carmine Fasulo com o nome La Libertà. Quando passou para os capuchinhos, a edição do jornal transferida para a cidade de Garibaldi. Em 1917, foi rebatizado com o nome de La Staffetta Riograndense e, em 1941 (após a proibição do uso de idiomas estrangeiros), foi rebatizado com o nome traduzido, Correio Riograndense, usado até os dias de hoje.

Vários autores que tratam da imigração italiana e tirolesa no Rio Grande do Sul (Luzzatto, 1993; Costa, 2001; Possamai, 2004; Corrêa, 2014) documentam casos de violência verbal entre imigrantes italianos (sobretudo vênetos e lombardos) e austríacos (tiroleses). Por vezes, as “disputas” eram apenas discussões calorosas sobre quem deveria ganhar a guerra e seus porquês.

Entre os tiroleses, o convívio com colonos italianos era considerado uma “ameaça” (Lorenzoni, 1975; Grosselli, 1990; 2008) por conta do ideal de unificação italiana que reivindicava Trento e Trieste ao Reino Italiano. Essa tensão só aumentou nos anos da guerra e os jornais muitas vezes refletiam – não sem certo exagero – a situação acalorada. Possamai (2004, p. 21) comenta que na cidade de Muçum, no Rio Grande do Sul, a notícia da morte do Imperador Francisco José da Áustria, em 1916, foi motivo de grande confusão na comunidade tirolesa local que havia organizado uma missa solene que não contou com o badalar de sinos, pois os colonos italianos haviam roubado o badalo para impedir os dobres e a homenagem ao imperador Francisco José.

Jornal Il Trentino Porto Alegre 2

Trecho de Il Trentino que reproduz um artigo do jornal norte-americano Il Corriere Tirolese, com as canções populares e patrióticas que “todo bom tirolês deve ter na própria casa”.

 

O convívio entre austríacos e italianos, naturalmente, não impedia casamentos mistos e, como afirmaria Lorenzoni (1975), os casamentos foram o melhor remédio para conter as disputas. Mais raros eram os casamentos entre alemães e italianos, uma vez que havia divergências religiosas entre católicos e luteranos. Mas mesmo entre alemães católicos e austríacos de língua italiana (tiroleses), os casamentos eram mais raros.

Já na década de 1910, o jornal A Gazeta do Commercio, de proprieade de Eduardo Schwartz, publicava em Joinville artigos em língua portuguesa, muitos deles traduções de textos originais em alemão, tais como discursos do imperador Francisco José de Habsburgo e notícias da Primeira Guerra Mundial. Na edição de 17 de março de 1917, o jornal anuncia o recebimento de uma remessa contendo exemplares do Jornal Il Trentino, indicando-o como sendo da colônia ítalo-austríaca e de boa leitura.

Jornal Il Trentino - gazeta do commercio 17.03.1917

Publicação da Gazeta do Commercio de Joinville (1917).

O jornal Il Trentino existiu com esse nome até setembro de 1917, quando teve seu nome mudado para Nova Áustria. Muito provavelmente, deixou de existir naquele mesmo ano, quando o governo brasileiro declarou guerra ao Império Alemão e a seus aliados (entre eles o Império Austro-Húngaro) em outubro de 1917.

—- – —-

Boa parte das canções indicadas pelo jornal Il Trentino (e pelo Il Corriere Tirolese) encontram-se nesses links. Vale lembrar que as canções e marchas da época eram conhecidas nos idiomas locais do Império Austríaco.

 

Referências bibliográficas

BORGES, Stella. Italianos: Porto Alegre e trabalho. Porto Alegre: EST, 1993.

CORRÊA, Marcelo Armellini. Dos Alpes do Tirol à Serra Gaúcha : A questão da identidade dos imigrantes trentinos no Rio Grande do Sul (1875 – 1918). Dissertação de Mestrado em História. São Leopoldo, UNISINOS, 2014.

COSTA, Rovílio. A imprensa católica nas colônias italianas: 96 anos do Correio Riograndense.

GROSSELLI, Renzo M. Vincere o morire – Contadini trentini (veneti e Lombardi) nelle foreste brasiliane. Parte I – Santa Catarina 1875-1900. Trento: Provincia Autonoma di Trento, 1986.

LORENZONI, Júlio. Memórias de um imigrante italiano. Porto Alegre: Sulina / PUC RS, 1975.

LUZZATTO, Darcy Loss. El nostro parlar (e outras crônicas). Porto Alegre: Sagra-Luzzatto, 1993.

OTTO, Claricia. Catolicidades e italianidades – Tramas e poder em Santa Catarina (1875 – 1930). Florianópolis: Insular, 2006.

POSSAMAI, Paulo César. Imprensa e italianidade: RS (1875 – 1937). In: Dreher, Martin N; RAMBO, Arthur B.; Tramontini, Marcos J. (orgs). Imigração e imprensa. Porto Alegre: EST/Instituto Storico de São Leopoldo, 2004.

Anúncios

5 comentários sobre “Il Trentino di Porto Alegre

  1. Everton, você saberia me dizer porque a Austria não reconhece os descendentes do Imperio Austro-Hungaro ???
    Não é um pouco contraditória a Itália reconhecer os descendentes trentinos e a austria não ? Já que eram “austriacos” como você defende

    Curtir

    • Sr. Locatelli (tomo a liberdade de escrever o sobrenome que consta no email indicado):

      Obviamente a Áustria reconhece os descendentes de austríacos. O Tirol jamais foi território “austro-húngaro”, mas pertencente aos domínios da Casa da Áustria, haja vista que o Império Austríaco era unido ao Reino da Hungria sem, contudo, mesclarem as nacionalidades.

      Se o que o Sr. considera “reconhecimento” tem a ver com “obtenção de cidadania”, vale lembrar que a Áustria foi proibida de dar a cidadania aos ex-súditos do extinto império e que, atualmente, está em discussão no parlamento em Viena a concessão da dupla cidadania aos “alt-Österreicher” (“velhos austríacos”), entre eles os tiroleses de língua italiana (trentinos) que habitam na atual Província Autônoma de Trento.

      Todavia, o intuito do Blog Tiroleses no Brasil não é discutir pertenças nacionais de descendentes. Nosso Blog traz informações históricas com base em documentos, fotos e registros dos imigrantes tiroleses. Caso o Sr. tenha lido o artigo acima, verá que o jornal Il Trentino era um órgão de uma sociedade austríaca que se declarava austríaca. A partir disso, não há uma defesa “pessoal” sobre os imigrantes austríacos serem austríacos. Trata-se de um fato comprovado.

      Sobre a nacionalidade dos imigrantes da região trentina chegados aqui até 1918, bastaria simplesmente observar o passaporte. Ali constará dados sobre a Áustria.

      O fato de a atual República Italiana reconhecer (ainda que de modo bastante constrangedor, como se sabe) a cidadania italiana aos descendentes de imigrantes austríacos cuja terra natal foi ocupada pelo Reino Italiano em 1918, não será suficiente para apagar ou “cancelar” a história dessa imigração no Brasil, muito menos os aspectos culturais, sociais e históricos a ela relacionados. Deixemos isso para quem acredite que uma cidadania (seja ela qual for) seja suficiente para ‘barganhar” a história de um povo. Não é o nosso caso.

      Atenciosamente,
      Everton Altmayer

      Curtir

      • Everton,

        Primeiramente muito obrigado pelo seu esclarecimento, você conseguiu lucidar essa questão que está em minha cabeça a muito tempo e tenho que confessar que o Sr. me convenceu.

        E desculpe se no texto pareceu como critica a palavra “defender”, talvez tenha me expressado mal.

        Espero de verdade que a Áustria reconheça os descendentes do Império Austro-Húngaro, seria uma reparação histórica

        Grande Abraço
        Luigi

        Curtir

      • Sr. Locatelli:
        Críticas (construtivas) são sempre bem-vindas. Na troca de informações e opiniões, sempre podemos aprender mais. Sinta-se à vontade para comentar/perguntar. Nosso intuito com o Blog é informar.
        Att.
        Everton Altmayer

        Curtir

  2. Caro Prof. Altmayer,

    sempre visito seu blog, e como sempre encontro material excelente. Este artigo achei muito interessante e atual. Num mundo onde os idiomas extrangeiros nem sempre sao aceitos, me surpreendi que num Brasil nacionalista circulava informacoes como esta.

    Atenciosamente,

    Priscila Damacena Glaser

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s