Um carnaval “tirolês”

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A festa de Carnaval é muito antiga e foi trazida da Europa pelos portugueses, mas outros imigrantes também comemoram o carnaval com sua tradições. Na Colônia Tirolesa de Piracicaba, existe a festa da Cucagna.

O Carnaval é uma antiga festa ligada ao calendário litúrgico católico, celebrada principalmente no Ocidente. Tradicionalmente, os festejos se iniciam em fevereiro ou no início de março, durante o período conhecido como tempo da septuagésima, antes da quaresma.

Não existe um consenso sobre a origem da palavra carnaval, mas é certo que sua etimologia esteja relacionada ao consumo de carne. Provavelmente do latim clássico carnem levare ou carnis levale (“abstenção da carne”) que, no latim medieval, passa a carnelevarium, carnilevaria ou carnilevamen. Durante a quaresma é realizado o jejum de carne, que varia de acordo com as tradições cristãs: no Ocidente temos o jejum de carne, ao passo que no Oriente não são consumidos carne, leite e ovos.

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As origens da festa popular mesclam antigos costumes pagãos europeus com valores advindos do Cristianismo. Muito provavelmente, o que houve foi uma aculturação, na qual as antigas festividades ganharam novos valores e símbolos. No Império Romano, havia o festival dedicado à deusa Ísis, com um navio (navigium Isidis) que era levado ao mar contendo uma imagem da divindade romana e seguido por pessoas com máscaras. Há ainda, a influência das festas dionisíacas da Grécia Antiga e aos bacanais de Roma, pois o deus grego Dionísio equivale ao deus Baco dos romanos. Festejos esses em que temos fartura de comida e de vinho, além de rituais de reversão com inversão de papéis sociais e suspensão de normas de comportamento, tais como o riso exagerado, a gula e a luxúria. Uma vez que, na Antiguidade, acreditava-se que o duro período do inverno precisava ser “expulso” para que as trevas dessem lugar à luz da primavera, o carnaval traz em si aspectos de um rito de passagem, de celebração da fertilidade.

 

Existem diferentes tradições carnavalescas na Europa e, particularmente na região do Tirol, elas são variadas e muito antigas, com algumas que remetem à Idade Média. Elas trazem em si características pagãs e cristãs, com simbolismos antigos e novos, e são mantidas de geração em geração, muitas vezes dentro de um mesmo clã responsável pela fabricação das vestimentas e pela manutenção das danças e músicas. As máscaras retratam personagens ligados aos “espíritos do inverno”, tais como como bruxas, animais selvagens, velhos, mas também figuras brincalhonas e caricatas que retratam a animosidade da primavera.

Algumas dessas antigas tradições foram trazidas pelos imigrantes tiroleses ao Brasil. Em Rio dos Cedros/SC haviam as mascherate (“mascaradas”) e em Treze Tílias/SC haviam encenações teatrais onde eram contados os fatos mais extravagantes e engraçados ocorridos durante o ano.

Na Colônia Tirolesa de Piracicaba existe uma festa muito particular, chamada de Cucagna, que ocorre sempre na terça-feira de carnaval, mesclando tradições tirolesas e brasileiras. O termo em dialeto trentino cucàgna* (em italiano cuccagna) indica um estado de êxtase, de alegria na fartura, mas também é o nome de um prato típico servido na festa. Segundo os descendentes mais velhos, a festa não é mais celebrada como outrora, tendo se modificado com o passar dos anos, assumindo novos simbolismos.

paese-della-cuccagna*Cucagna: a “terra da cocanha” (Terre de la cocagne) é uma lenda medieval surgida na França que retrata um país fantástico onde o alimento é abundante, com rios de leite e vinho, montes de queijo e todos os tipos de delícias, como leitões assados que circulam com facas cravadas em seu lombo para que sejam melhor servidos, ou frangos assados que voam livremente e se oferecem para serem devorados.  Na terra da cocanha não há trabalho, uma prática considerada abominável, pois todos são gratificados sem esforço. Trata-se de uma verdadeira antítese do sistema feudal de servidão. Em algumas regiões da Itália e nos Alpes, existe a tradicional “árvore da cucanha”, que lembra o pau-de-sebo das festas juninas, na qual são penduradas linguiças na ponta para que sejam retiradas por aqueles que consigam escalar a árvore.

Antigamente, os homens da Colônia Tirolesa de Piracicaba pintavam seus rostos e suas mãos com carvão, cinzas ou rolhas queimadas e saiam pelas casas e lavouras brincando com os moradores, fazendo chacotas ou perseguiam as mulheres que procurassem se esconder, sujando seus rostos com carvão. Naquele dia era servida a cucagna, preparada de diferentes modos nos dois bairros que compõem a Colônia Tirolesa de Piracicaba: em Santa Olímpia a cucàgna é preparada com os seguintes ingredientes: ovo, cebola, toucinho, tomate, queijo e linguíça, que são misturados e cozidos, depois servidos juntamente com polenta mole. No bairro de Santana, os ingredientes são: ovo, cebola, toucinho, tomate, queijo  e bacalhau, cozidos e misturados à polenta recém cozida, que é colocada em grandes bandejas e servida em fatias após ter se tornado rígida.

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Servindo a cucagna aos participantes da festa em Santa Olímpia.

Cada bairro festeja a cucagna com particularidades próprias. Em Santa Olímpia, as pessoas se reúnem em frente à igreja pela manhã e partem em caminhada pelas ruas do bairro, sempre ao som de marchinhas de carnaval (brasileiras) e algumas canções populares tirolesas e italianas, cantadas pelos participantes e acompanhadas por uma banda improvisada com “tocadores de lata”. Muitas pessoas usam grandes chapéus de palha, pintados. Alguns rapazes usam roupas femininas e todos os participantes são molhados com água e sujos com barro, pois não se pode festejar em trajes limpos. A caminha dura algumas horas e termina quase ao cair da tarde, quando todos se reúnem novamente na praça da igreja, onde entoam a música Và Pensiero, de Giuseppe Verdi, em homenagem ao falecido Padre Jacob Stenico (ali chamado Pacó, religioso que foi um grande incentivador das tradições tirolesas). Ali são eleitos o “rei” e a “rainha” da cucagna, escolhidos entre os indivíduos que não pararam de pular e cantar durante todo o cortejo. Após a eleição, todos seguem para o salão paroquial em frente à praça central, onde é servida a cucàgna, preparada durante o dia por moradores do bairro com os ingredientes recolhidos pelos foliões. A festa segue noite adentro com um baile realizado na praça, interrompido exatamente à meia-noite, quando se inicia a Quaresma.

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Cortejo da festa da cucagna em Santa Olímpia, Piracicaba/SP. Todos sujos de lama…

Em Santana, a festa se inicia já no sábado de carnaval, com jovens que visitam as casas do bairro brincando, cantando e pedindo os ingredientes (ou dinheiro) que serão utilizados no preparo da cucagna, feita e servida apenas na terça-feira de carnaval. A festa se inicia pela manhã na praça da igreja, mas as senhoras do bairro preparam o prato típico e o “escondem” pronto, em grandes bandejas, no interior da igreja. A festa ocorre apenas na praça, com pessoas fantasiadas e alguns homens usando roupas femininas e dançando com demais moradores presentes; as crianças participam e algumas fantasiadas festejam ao som de marchinhas de carnaval brasileiras. No final da tarde são eleitos os participantes mais bem fantasiados e, após a eleição, retira-se a cucagna do interior da igreja, que é servida a todos os participantes. A festa continua ao som de marchas de carnaval.

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Preparo da cucagna no bairro Santana.

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Referências:

Bairro Santa Olímpia – Piracicaba

Bairro Santana – Piracicaba

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2 comentários sobre “Um carnaval “tirolês”

  1. Parabéns Everton, pela bela matéria.
    Aproveitando a oportunidade, e como a nós aqui no RS aparenta que vocês sao muitos organizados em termos de registros e detalhes sobre a imigraçao Tirolesa em SC, vamos indagar sobre a existência de informaçoes dos imigrantes do Tyrol Luigi Pedó, sua esposa Luigia(Lucia) e as filhas Domenica e Luigia(Lucia) aí na regiao de vocês.
    Estamos tentando rastrear os passos deles no Brasil, pois nada sabemos deles, senao os registros do navio em que vieram e que provavelmente teriam ido para SC.
    Esta suposiçao, deve-se ao fato de que aí na regiao de Nova Trento(Trentinos) muitos dos imigrantes tinham ligaçoes familiares.
    A família Visinteiner têm ligaçoes com os Pedó.
    Se puderem nos ajudar, ficaríamos agradecidos.

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    • Boa tarde, Sr. Pedó!

      Já pesquisei bastante nos registros aqui de Nova Trento, mas nunca me deparei com seu sobrenome; também nunca ouvi falar de uma família Pedó por aqui. Talvez seus antepassados teriam vivido na região de Flores da Cunha, no Rio Grande do Sul? Até 1935, essa cidade também se chamava Nova Trento.

      Abraços
      Misael Dalbosco

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