O chamado de Iselberg

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O cardeal Albino Luciani, futuro Papa João Paulo I

Na última segunda-feira, todas as regiões do Tirol Histórico (Províncias de Trento e Bolzano, na Itália, e o Estado do Tirol, na Áustria), relembraram a morte de Andreas Hofer, patriota tirolês que chefiou a revolução de 1809 contra as tropas de Napoleão Bonaparte, e que foi fuzilado por ordem deste em Mântua, no norte da Itália, em 20 de fevereiro de 1810. A história desse herói tirolês já foi relatada com detalhes aqui no blog. Hoje, trazemos uma interessante carta, escrita em 1974 por Albino Luciani – o Papa João Paulo I – e direcionada a Hofer. Na época, Luciani era cardeal e ocupava o posto de Patriarca de Veneza; quatro anos depois, em 1978, seria eleito Papa.

O texto faz parte de uma série de cartas escritas pelo então Cardeal Luciani no jornal Messaggero di S. Antonio, entre 1971 e 1975. Algumas dessas cartas foram reunidas e publicadas no livro Ilustrissimi, de 1976. Publicamos abaixo uma tradução da carta, na íntegra.

O CHAMADO DE ISELBERG

Caro Hofer,

há um mês, de passagem por Innsbruck, visitei a Hofkirche, igreja que já foi franciscana, construída no Renascimento, a partir do projeto do nosso Andrea Crivelli. Foi lá, à esquerda da porta principal, que me deparei com o teu túmulo. Próximos a ti, estão sepultados Josef Speckbacher e o capuchinho Joachim Haspinger, ambos companheiros das vossas batalhas.

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Andreas Hofer com Josef Speckbacher e Joachim Haspinger

Na verdade tu, o estalajadeiro de São Leonardo na Val Passiria, combateste dois tipos de batalhas: primeiramente foste soldado regular na guerra contra os franceses em 1796 e 1805; guerrilheiro, foste depois o comandante e a alma da insurreição popular tirolesa contra os bávaros e franceses em 1809. E foi a condução incrivelmente hábil e corajosa dessa guerrilha que arrancou admiração aos próprios generais napoleônicos e te fez entrar para sempre como herói no coração do povo tirolês.

Tudo começou quando o marquês de Montgelas, ministro do Rei da Baviera, sem aviso prévio e motivo, em 1809 suprimiu subitamente todas as cerimônias do culto católico: sem mais procissões, matrimônios e funerais religiosos, sem mais toques de sinos. Montgelas não imaginava até onde poderia chegar o sentimento religioso do catolicíssimo povo tirolês. Este submeteu ao Rei da Baviera respeitosos pedidos para que fosse retirado o “decreto ímpio e liberticida”. Em vão. Portanto ocorreu a insurreição em massa. Enquanto os sinos repicavam incessantemente, e o seu som repercutia de vale em vale, se viram os agricultores acorrerem a todo “maso”, de todas as vilas, armados ora de foices, ora de forcados, ora de velhos fuzis: dominavam-lhes a tua estatura gigantesca, a voz potente e decidida, a imponente barba negra.

Por duas vezes o exército bávaro foi derrotado: quando vieram em socorro, em dezenas de milhares, os franceses e saxões, foi inevitável, para os teus, dividir-se e começar a guerrilha. Naquele tempo, como na Resistência italiana, se “foi para a montanha”. Infelizmente, dois miseráveis te traíram pelos “trinta dinheiros” de sempre. Descoberto pelos franceses na cabana em que te escondias, disseste: “façam comigo o que quiserem, mas respeitem a inocência de minha esposa e dos meus filhos”. O Vice-Rei Eugênio queria te conceder o perdão; Napoleão ordenou o fuzilamento.

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A execução de Andreas Hofer em Mântua.

Em Mântua, antes do suplício, deste tua bênção, como um patriarca, aos companheiros ajoelhados em torno a vós e, recusada a venda para os olhos, esperaste em pé os tiros. Na esplanada da Iselberg, perto de Innsbruck, te erigiram uma estátua. No pedestal está escrito: “Por Deus, pelo Imperador, pela Pátria”.

* * *

Imperador à parte, dentro e fora do Tirol, gostaria que o teu heroísmo, ao mesmo tempo gentil e cristão, inspirasse alguém. Atenção: não desejo nenhuma guerrilha; tenho convicção que, especialmente na Itália democrática, não haverá necessidade. Mas a tua fé cristã, a união do povo, que, com Haspinger, soubeste obter na hora do perigo, estas sim as desejaria de todo o coração.

O profeta Elias dizia à gente: “Até quando mancareis com os dois pés? Se o Senhor é Deus, segui-o! Se, ao contrário, é Baal, segui a ele!” Queria que se fizesse uma escolha séria; insinuava que não se pode chegar a Deus sem desligar-se do mal, sentado sobre duas cadeiras ou vacilando. O nosso Trilusa disse o mesmo:

“Creio em Deus Pai Todo-Poderoso. Mas…
Tens alguma dúvida? Guarde-a para ti.
A fé é bela sem os ‘quem sabe’,
Sem os ‘como’ e sem os ‘por quês’.”

“Quem sabe”, “como” e “por quê” não eram pão para os dentes dos teus Tiroleses. Lá na modesta hospedaria “am Sand” que tu gerenciavas, eles jogavam, bebiam, se divertiam, discutiam. Mas, retornando às suas casas, diziam as preces da noite com a família; indo à Missa dominical, costumavam parar diante do túmulo dos seus mortos no pequeno cemitério, todo apertado em volta da igreja. O ambiente, as pias tradições, o tempo disponível favoreciam a reflexão: a reflexão desenvolvia a convicção, que o pintor Egger-Lienz de forma eficaz expressou, pintando os guerrilheiros tiroleses em formação e prontos para a luta, com Haspinger à frente que empunha o crucifixo.

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“Anno 9”, pintura de Albin Egger-Lienz

A nós hoje, envolvidos como somos por um ritmo frenético de vida, faltam o silêncio e a possibilidade de refletir; quem sabe essa é uma das causas do vacilar de alguns. Um Haspinger, um pregador de tipo antigo, que rudemente nos chame às verdades eternas, não é aceito hoje: seria melhor uma voz evasiva e discreta. O grande sino, que soa à distância, não o suportamos; talvez toleramos a campainha de casa.

Voz discreta e campainha era, por exemplo, o Irmão Cândido das Escolas Cristãs. Tendo vivido cerca de um século depois de ti, Hofer, um dia ele viajava de trem com um guia ferroviário, que estava consultando, sobre os joelhos. Um menino ali perto espreitou curioso o volume e os gestos do Irmão. “Conheces este livro?”, pergunta o Irmão Cândido. “Não? Queres ver para que serve? Como se usa?” E lhe explica, lhe ensina a encontrar os horários, a descobrir os trajetos mais rápidos entre uma cidade e outra. O menino se interessa, tenta também, aprende rápido e fica contente; os passageiros no vagão acompanham o diálogo de ambos com divertido interesse.

Num certo ponto, sem hesitar, Irmão Candido continua: “Queres que te ensine também a viajar pela Ferrovia do Paraíso?”. O menino e os passageiros ficam maravilhados. Irmão Cândido tira da bolsa de viagem um folheto ilustrado e explica: “Eis aqui a Ferrovia do Paraíso. Estação de partida: de qualquer ponto do globo. Horário de partida: a qualquer momento. Tempo de viagem: não há hora previsível para o viajante. Bilhete: estar na graça de Deus. Cobrador: o exame de consciência. Avisos: 1) ter sempre prontas as bagagens das boas obras; 2) há como recuperar as bagagens perdidas por meio da Confissão. Etc.”

Tendo terminado de explicar, amável e sorridente, ofereceu ao menino e aos presentes o curioso e precioso itinerário, que para alguém, quem sabe, terá inspirado um arrependimento e um propósito.

Dirás: “esse vosso Irmão é uma edição definhada e muito reduzida do meu potente Haspinger!” O que queres! A época atual, religiosamente fraca, deve ser abordada como método adequado. Importante não é o modo, mas o sucesso final: fazer refletir!

* * *

Ainda mais importante é manter unidos entre si sejam os católicos, sejam os cidadãos. Somos cristãos, mas é válido também para nós o sermão do cônsul pagão Públio Rutílio. Era muito gordo. Um dia, para resolver um grande conflito, que não via fim, entre dois litigantes, disse: “caros amigos, como veem, eu sou muito gordo e minha mulher é ainda mais gorda que eu. E, no entanto, quando estamos de acordo, uma pequena cama é suficiente para nós dois; quando brigamos, no entanto, toda a casa nos parece pequena e não nos chega.”

Aqui me surge uma dúvida: o exemplo de Rutilio é adequado, se os litigantes são dois; mas, oh céus!, na nação, nos partidos de hoje as correntes não são duas, mas quatro, seis, sete, vinte! Não se pode mais falar de cama de casal! Se a consideração do bem comum não é suficiente para nos levar novamente à unidade, das discórdias nos deveria afastar pelo menos o medo dos danos às quais estas conduzem. Dizia Voltaire: duas vezes me encontrei à beira da ruína: a primeira, quando perdi um litígio, a segunda, quando o venci.

Nações e facções políticas e religiosas que temos às vistas, podem aplicar a si o pensamento voltairiano. Ademais convém que pensem também no “terceiro” sempre à espreita: aquele que se aproveita da briga.

Bulwer, autor de Os últimos dias de Pompeia, escreveu: “O advogado é um homem que, quando dois brigam por uma ostra, abre-a, suga o conteúdo, depois dá as duas metades da concha aos litigantes: uma para cada um!”. É um pouco grosseiro: no entanto, é verdade desde sempre e em todos os campos que a força do nosso adversário é a nossa fraqueza causada pelas divisões.

Essas considerações valem, em parte, também para a Igreja Católica. O seu fundador, Cristo, temeu as divisões e estabeleceu um sólido fundamento para a unidade. Ele disse: desejo que meus seguidores “sejam uma única coisa”, que formem “um só rebanho”. Para obter esse escopo, escolheu entre a multidão os Doze, dos quais afirmou: “quem vos escuta, escuta a mim”. Prevendo divisões entre os doze e seus sucessores, quis que um dentre eles fosse o chefe ou irmão mais velho, dizendo a Pedro: “apascenta minhas ovelhas”, “confirma teus irmãos”. O remédio, portanto, existe: basta que os fiéis, sacerdotes, religiosos e bispos se reúnam em torno do Papa: ninguém dividirá a Igreja.

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Papa Pio VII, por Sir Thomas Lawrence

O teu capuchinho Haspinger, caro Hofer, sabia dessas coisas, ou melhor, as tocou com as mãos. No tempo da tua insurreição tirolesa muitos bispos, por medo ou interesse, passavam para o lado do potente Napoleão. Vocês do Tirol, no entanto, resistiam a Napoleão e seus amigos, ficando do lado do Papa Pio VII, que, justamente em 1809, excomungou Napoleão e, preso pelos franceses, de Roma foi levado em exílio para Savona.

São todas coisas para se recordar. Para realizar. Para dar fim às inúmeras rixas que dividem e escandalizam. Para restaurar a união das almas, a unidade da Igreja e do país. Für Gott… für Vaterland. Por Deus… pelo País, como está escrito em Iselberg!

Referências Bibliográficas

LUCIANI, Albino. Ilustrissimi. Padova: Edizioni Messaggero, 1976.

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