Mapas históricos do Tirol

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Região do Tirol Histórico

Desde os tempos pré-históricos, antes mesmo da invenção da escrita, o homem busca representar os espaços que habita por meio de mapas. Na Grécia Antiga e em Roma, estudiosos já elaboravam mapas (principalmente de regiões europeias, norte da África e Oriente Médio), que contavam inclusive com latitudes e longitudes, um conceito elaborado naquele tempo.

Mais tarde, na Idade Média, os conhecimentos greco-romanos acabaram se perdendo na Europa e os mapas eram elaborados sobretudo com bases religiosas; eram usadas, por exemplo, descrições geográficas presentes na Bíblia. Somente com o início das Grandes Navegações, já na Idade Moderna, é que os cartógrafos recuperaram os conhecimentos greco-romanos e os ampliaram, dando início à ciência da Cartografia. Gerardus Mercator publicou sua famosa projeção cilíndrica do globo terrestre sobre uma carta plana em 1769.

Algumas décadas antes, em 1532, o Príncipe-Bispo de Trento e o Imperador do Sacro Império Romano-Germânico e Conde do Tirol, Ferdinando de Habsburgo, publicaram o documento Begriff der Fürstlichen Grafschaft Tirol, que fixava os limites do Condado Principesco do Tirol, entidade fundada em 1511 por meio da união do Condado do Tirol com os Principados Episcopais de Trento e de Bressanone. Os limites fixados no documento são aproximadamente os mesmos que se mantiveram até 1918, quando a região do Tirol foi dividida entre Áustria e Itália.

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Begriff der Fürstlichen Graffschafft Tirol. [1] Clique para ampliar.

Nos séculos seguintes, acompanhando o desenvolvimento europeu na área, foram elaborados dezenas de mapas do Tirol, alguns dos quais são mencionados e descritos neste artigo.

“Aquila Tirolensis” (1609)

Obra do cartógrafo Mathias Burglechner, de Innsbruck, o mapa “Aquila Tirolensis” ainda é um dos mais conhecidos e reproduzidos mapas tiroleses, especialmente devido ao seu valor artístico e simbólico: as terras do Tirol estão representadas na forma de uma águia, o animal heráldico dos condes tiroleses. Nas laterais do mapa estão reproduzidos os brasões das mais importantes cidades tirolesas daquele tempo: dentre elas, Kufstein, Innsbruck (“Innsprugg”), Hall e Lienz, que atualmente pertencem ao Estado do Tirol, Áustria; Bozen (it. Bolzano), Brixen (it. Bressanone) e Meran (it. Merano), hoje localizadas na Província Autônoma de Bolzano, Itália; e Trient (it. Trento), Rofreit (it. Rovereto), Arch (it. Arco) e Reif (it. Riva del Garda), na atual Província Autônoma de Trento. O mapa inclui, portanto, cidades que nominalmente pertenciam aos Principados Episcopais de Trento e Bressanone, mas que estavam incluídas no Condado Episcopal do Tirol criado por volta de um século antes e cujos limites foram fixados no Begriff der Fürstlichen Grafschaft Tirol.

Aquila-Tirolensis2.jpg

Aquila Tirolensis. [3] Clique para ampliar.

Abaixo da águia estão presentes o cabrito montês da região suíça dos Grisões e o Leão de São Marcos, da (então) República de Veneza, estados confinantes com o condado tirolês. Na parte inferior, estão os brasões dos condes do Tirol e da família Habsburgo, que detinha esse título. Ao lado dos brasões estão representados os quatro Estados que possuíam direito a voto na Dieta Tirolesa: o clero, a nobreza, os camponeses e os burgueses (habitantes das cidades).

“Atlas Tyrolensis” (1774)

O mapa foi encomendado pelo professor jesuíta Ignaz Weinhart, da Universidade de Innsbruck, aos “cartógrafos camponeses” (assim chamados devido a suas origens) Peter Anich e seu estudante Blasius Hueber. O Atlas Tyrolensis foi o primeiro mapa do Tirol realizado com base em medições geodésicas, e devido a sua precisão e o tamanho do território representado, é um dos mapas mais famosos da Cartografia do século XVIII, em todo o mundo. O mapa é de tal forma preciso que ainda hoje é utilizado por geógrafos e historiadores como fonte confiável de pesquisa. Interessante notar, novamente, que não são apresentadas as fronteiras internas dos Principados Episcopais de Trento e Bressanone, que naquele tempo ainda existiam; no mesmo espírito dos mapas que o precederam (como o “Aquila Tirolensis”), a região do Tirol é apresentada como um ente único, ainda que no seu interno pudessem haver cidades e regiões governadas por nobres diferentes.

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Atlas Tyrolensis. [5] Clique para ampliar.

Para representar com esse nível de detalhe as características do território, Anich e Hueber utilizaram mais de 50 símbolos diferentes para cidades, rios, montanhas e demais acidentes geográficos, conforme pode ser visto nas duas legendas, que se encontram no canto inferior esquerdo e superior direito do mapa. Interessante notar que Anich e Hueber tomaram o cuidado de respeitar inclusive as diferentes línguas faladas no interno do Tirol; por exemplo, nas regiões de língua alemã, os nomes das montanhas são precedidos pela abreviatura B. (do alemão Berg), enquanto nas regiões cuja língua majoritária era o italiano os nomes de montanhas são precedidos da abreviatura M. (do italiano Monte). No mapa estão representadas mais de 570 montanhas tirolesas. A escala do mapa também é dada em diferentes medidas, inclusive a “Deutsche Meile” (milha alemã) e a “Italienische Meile” (milha italiana).

A obra completa, original, foi dedicada à Imperatriz Maria Teresa da Áustria e tem mais de 5 m², o que representa uma escala de 1:103.800. Por mais de cinquenta anos, até 1823, foi o mapa oficial utilizado pelo governo tirolês, com sede em Innsbruck.

“Tyrolis Pars Meridionalis” (1778)

Este mapa apresenta, conforme seu título original em latim, “a parte meridional do Tirol e o Principado Episcopal de Trento contido nela”. Elaborado por Francesco Manfroni, e dedicado ao Príncipe-Bispo de Trento, Pietro Vigilio Thun, esse mapa foi incluído aqui devido à polêmica que levantou quando foi divulgado (pelo próprio Príncipe-Bispo).

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Tyrolis pars meridionalis, episcopatum, et principatum Tridentinum continens.
[6] Clique para ampliar.

O mapa suscitou protestos calorosos por parte de alguns membros da elite das cidades de Trento e Rovereto devido à inclusão do Principado Episcopal de Trento na parte meridional do Tirol. Clemente Baroni, membro da Accademia degli Agiati, de Rovereto, publicou uma feroz carta aberta criticando o cartógrafo que havia elaborado o mapa, no que foi apoiado publicamente pelo seu colega de Accademia, o poeta Clementino Vannetti, um personagem já mencionado aqui no Blog.

No entanto, conforme se viu aqui, esse era um procedimento comum entre os cartógrafos época. Um mapa anterior da porção meridional do Tirol, muito similar ao de Manfroni, havia sido publicado em 1762 pelo nobre tirolês Joseph von Sperg(e)s, que inclusive era membro da Accademia degli Agiati, e foi aceito por esta sem maiores discussões.

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Tyrolis pars meridionalis cum Episcopatu Tridentino, de Joseph von Spergs. [8] Clique para ampliar.

Os protestos coincidiam com o início do etnonacionalismo na Europa, ou seja, a ideia que os europeus deveriam ser divididos em grandes nações, com base sobretudo em aspectos étnico-linguísticos; assim sendo, para os pangermanistas todos os “alemães” (falantes de alemão, que na época habitavam diversas regiões e países da Europa Central e do Leste, inclusive parte do Tirol) deveriam ser unidos num único país – uma ideia que culminou, anos mais tarde, no nazismo de Adolf Hitler. Já para os irredentistas, todos os “italianos” (falantes de italiano, que na época habitavam, além da península itálica, as costas do Mar Adriático e também a região de Trento, no Tirol) deveriam ser unidos num único país – uma ideia que também ajudou a formar o pensamento fascista de Benito Mussolini.

Os nacionalismos europeus causaram inúmeros conflitos ao longo do século XIX e culminaram na Primeira e na Segunda Guerras Mundiais. No pensamento dos nacionalistas, não havia espaço para regiões mistas, de fronteira, como era o caso do Tirol Italiano (o atual Trentino), cuja população, embora falasse (em sua maioria) um dialeto italiano, apresentava (e até certo ponto, ainda hoje apresenta) aspectos étnicos e culturais fortemente influenciados pelas partes alemãs do Tirol.

Nesse contexto, de nascimento dos nacionalismos na Europa, é que se deve entender os protestos com relação ao mapa de Francesco Manfroni por parte de Clemente Baroni e, especialmente, de Clementino Vannetti, que de acordo com um historiador do início do século XX tinha “‘uma sensação de horror… a visão horrível de um espírito tirolês bastardo unido em dois corpos diferentes e em rota de colisão’. Ele provavelmente teria considerado a frase ‘Tirol Italiano’ uma contradição em termos.” Importante ressaltar que, no Tirol Italiano, as ideias irredentistas sempre ficaram restritas a uma pequena elite econômica e intelectual, à qual pertenciam Baroni e Vannetti.

Embora esse tipo de pensamento tenha sofrido um duro golpe com o fim da Segunda Guerra Mundial, infelizmente ainda hoje ele pode ser encontrado em diversas partes da Europa e até mesmo outras regiões do mundo.

Referências

[1] Landtsordnung der Fürstlichen Grafschaft Tirol: von 1532. Google Books.
[2] BEIMROHR, Wilfried. Mathias Burglechner (Burgklehner) – Beamter, Historiker und Kartograph. Innsbruck: Tiroler Landesarchiv, 2008.
[3] Welschtirol.eu. Acesso em 27/07/2017.
[4] BEIMROHR, Wilfried. Die Tirol-Karte oder der Atlas Tyrolensis des Peter Anich und des Blasius Hueber aus dem Jahre 1774. Innsbruck: Tiroler Landesarchiv, 2006.
[5] Wikimedia Commons. Acesso em 27/07/2017.
[6] Beinecke Rare Book & Manuscript Library. Acesso em 27/07/2017.
[7] LEVY, Miriam J. Governance and Grievance: Habsburg Policy and Italian Tyrol in the Eighteenth Century. West Lafayette: Purdue University Press, 1988.
[8] Beinecke Rare Book & Manuscript Library. Acesso em 27/07/2017.

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5 comentários sobre “Mapas históricos do Tirol

  1. Excelente trabalho de pesquisa, também sou um amante da história, e quando leio sobre estes assuntos viajo no tempo, e me lembro que meus antepassados vieram de lá, pois lá começou nossa história hoje aqui no Brasil, nós descendentes somos um sonho daqueles que cruzaram o mar para tentar uma vida melhor, e hoje com certeza estiverem eles onde estiverem possam apreciar que seus sonhos não acabaram, e sim continuam se perpetuando em cada um de nós. Um Abraço Hugo Bonat Neto

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  2. Meus avós maternos eram filhos e netos de tiroleses, que falavam alemão e italiano (na verdade um dialeto). Em suma, eram bilingues. Eu fui criado com meus avós, e convivi diariamente bastante com esta cultura.
    Apesar de se considerarem austríacos e terem sobrenomes germânicos (Gozzer, Boccher, Eccher, etc), as pessoas insistem em dizer que eram italianos, mas eles imigraram quase 50 anos antes da anexação das provincias sul tirolesas ao norte da Itália.
    Na verdade, a identidade nacional de nossas famílias na maioria das vezes não é levada em consideração, e isto é triste e lamentável.

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    • Prezado Sr. Rogers:

      Seu comentário é muito importante porque condiz com a realidade histórica e identitária da imigração tirolesa, parte importante da grande imigração austríaca para o Brasil.
      Concordamos com sua conclusão sobre ser lamentável a omissão/deturpação da identidade nacional dos imigrantes tiroleses, tão bem documentada em diversas fontes que procuramos divulgar neste Blog.
      Agradecemos pelo comentário.

      Att.

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