Identidade tirolesa em Caxias do Sul

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O Blog Tiroleses no Brasil publica uma contribuição a nós enviada por César Girardi, descendente de imigrantes tiroleses estabelecidos na antiga Colônia Conde D’Eu (atual cidade de Garibaldi), no Rio Grande do Sul.  Um texto que apresenta aspectos históricos e culturais da antiga Colônia Caxias e demonstra a importância de se valorizar o passado, a história e a memória dos ancestrais. Boa leitura!

Os imigrantes tiroleses começaram a se instalar na Serra Gaúcha em 1873. Para a antiga Colônia Caxias, atual cidade de Caxias do Sul, os tiroleses ficaram mais concentrados nos Travessões Trentino e São Virgílio, na Segunda Légua, e Tirolês (Tyrolez), na Quarta Légua. Nesses locais, quase todas as famílias instaladas ali eram tirolesas de fala italiana.

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Colônia Caxias. Lotes das famílias de imigrantes tiroleses nos Travessões Trentino, São Virgilio (Segunda Légua) e Tirolês (Quarta Légua). Fonte: Arquivo Municipal de Caxias do Sul/RS.

 

No que se refere especificamente ao Travessão Tirolês, há uma menção “estranha” na coluna de história intitulada Os povoadores da Colônia Caxia, de autoria do pesquisador Mário Gardelin, publicada pelo jornal Folha de Hoje no dia 3 de fevereiro de 1990.

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O texto traz os nomes dos imigrantes e várias informações. No entanto, Gardelin publicou um comentário sobre o porquê no nome “Travessão Tirolês” e, ao que parece, isso demonstra algum desconhecimento sobre o imigrante tirolês e de seu amor ao Tirol. Infelizmente, o comentário “deturpa” – quer por desinformação ou por intenção – a história de nossas raízes, que vai assim sendo transmitida para as futuras gerações de forma distorcida.

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Não há dúvidas que esses pioneiros, sendo tiroleses, escolheram o nome do seu travessão como TIROLÊS, em homenagem ao Tirol, à sua pátria das montanhas (Heimat), assim chamada há séculos, exatamente para confirmar e lembrar da sua origem e com a disposição de recriar em Caxias o ambiente das suas distantes aldeias onde nasceram seus antepassados.

Segundo Gardelin, o nome foi dado “certamente pela adesão que eles tinham à causa da unificação italiana”. Se o nome do travessão foi dado “depois” como se supõe, não teriam mencionado o Tirol. Talvez, o certo seria adesão à causa da unificação tirolesa?

Mas há também o Travessão Trentino, nome usado na época da imigração para o Circolo Trentino del Tirolo, ou seja, a parte administrada pela cidade de Trento na Província do Tirol no Império Austro-Húngaro. E o vizinho Travessão São Virgilio recorda o padroeiro da cidade de Trento.

Os tiroleses eram maioria, segundo Lorenzoni, na colônia Dona Isabel (Bento Gonçalves) quando aumentou o numero de italianos vindos do Reino da Itália, os tiroleses que ali estavam instalados viam com apreensão o numero de italianos (venetos e lombardos) que chegavam, o que lhes tirava a oportunidade de domínio na colônia. Os nossos antepassados não se identificavam como “trentinos”, mas sim tiroleses.

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Passaporte austríaco de Nicolò Pedrini, natural de Cognola, Tirol, aldeia vizinha a Civezzano, terra dos Girardi. Nicolò era avô de Ângelo Rigatti, casado com Cândida Girardi (filha do pioneiro Battista Girardi).

O termo trentino era usado, mas para os moradores da cidade de Trento e, no máximo, para os moradores das aldeias vizinhas. No caso da família Girardi, nem isso, porque eram da Civezzano, que faz divisa com a cidade de Trento, e sempre se diziam tiroleses.

Pessoalmente, por eu ser descendente de imigrantes vindos de Civezzano e Fai della Paganella, sinto tristeza quando percebo que se conta uma nova história sobre os meus antepassados tiroleses, apagando a verdadeira e levando os descendentes à perda da identidade.

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Fai della Paganella.

 

Os imigrantes tiroleses sempre tiveram orgulho de suas origens e sempre demonstraram seu amor pelo Tirol, pelo Império Austríaco e pelo imperador Francisco José (Francesco Giuseppe). E contribuíram para o desenvolvimento da Serra Gaúcha.

Caxias - Abramo Eberle

 

Em tempos de guerra, os tiroleses defenderam as suas fronteiras com força e coragem, com seus voluntários vindos das diversas aldeias, os Bersaglieri / Schützen, e muitos tombaram nesse propósito nas diversas guerras, desde o século XIV até ao final da Primeira Guerra Mundial em 1918. Em 1439, quando Frederico III, rei da Alemanha, tentou se apossar do Tirol, os camponeses formaram contingentes armados para guarnecer todos os passos do condado. Uma crônica escrita na época por Enea Piccolomini, que mais tarde se tornou papa, lança luz sobre a disposição do tirolês de defender a sua terra: “A população camponesa em todo o Tirol esta armada e guardam as passagens como ao túmulo do Senhor”. Incapaz de dobrar a resistência armada organizada pelos tiroleses, em 1446 Frederico III foi forçado a desistir. Em 1809, os tiroleses enfrentaram Napoleão e, em 1915, o exército italiano.

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Voluntários tiroleses na guerra contra Napoleão (1809).

 

Chegada dos Tiroleses

No final do ano de 1875 chegaram na região do Vale Real, pela Estrada Rio Branco, a maior leva de imigrantes de língua italiana saídos do Tirol (Áustria) e do Vêneto (Itália). Nesta ocasião, a Primeira e a Segunda Léguas dos fundos de Nova Palmira e Campo dos Bugres, hoje Caxias do Sul, estavam sendo medidas e abertas as primeiras picadas.

Os imigrantes foram informados da demora na demarcação dos lotes e obrigados a permanecer muito tempo na região. Segundo Natal Chiarello, no livro Breve história da minha terra, enquanto estavam sendo medidas as novas colônias, cerca de 600 imigrantes ficaram acampados ao relento, na base do Morro Cristal, então chamado Morro da Torre em Nova Palmira. Ali permaneceram por seis meses, abastecendo-se na casa do colono alemão Herrmann (Germano) Noll, que possuía uma casa comercial e um moinho. Alimentar tantas pessoas, ainda que estas possuíssem os vales dealimentação dados pelo do governo, não parece ter sido tarefa fácil. Crianças com menos de 12 anos e idosos com mais de 65 anos não recebiam vales para alimentação, nem existiam vales para a saúde, nem médicos na localidade.

Moinho Noll
Ruínas do antigo Moinho Noll.

Com os novos imigrantes, as dificuldades exigiram a solidariedade e o auxílio dos poucos habitantes de Nova Palmira, que não passavam de vinte famílias. A subida da serra era o momento mais dramático da viagem pela Estrada Rio Branco; aquele trecho era um caminho aberto no meio da mata (picada) e só podia ser feito a pé.

Com o passar dos anos, este trecho da Estrada Rio Branco foi sendo abandonado por ser muito íngreme. Como era utilizada apenas por agricultores, a mata tomou conta e diversos trechos voltaram a ser uma trilha. Por ter sido a primeira estrada usada pelos imigrantes que aqui chegaram, em 1970 a estrada foi reaberta e passou a ser chamada Estrada dos Imigrantes.

 

Travessão Tirolês da 4ª Légua

Das famílias tirolesas que se estabeleceram no Travessão Tirolês , muitas vieram de Levico (Valsugana). A ordem de chegada: 1 em 1875, 53 em 1876, 77 em 1877, 5 em 1878 e 4 em 1881. Os sobrenomes tiroleses daquela localidade são: Andreatta, Angeli, Bertoldi, Dallastra, Dalponte, Echer (Eccher, Ecker), Froner, Gabrielli, Libardi, Marchi, Mazzurana, Negri, Nicoletto, Palaoro, Passamani, Rauta, Tomasi, Tonetta, Toniolli, Valentini, Vender e Zambiasi.

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Lotes da Quarta Légua e o Travessão Tyrolez. Fonte: Arquivo Municipal de Caxias do Sul/RS.

 

Travessões Trentino, São Virgilio e São João da 1ª Légua

Os sobrenomes tiroleses daquela localidade são: Angeli, Bampi, Baroni, Bertotti, Bianchi, Boller, Bortolotti, Boschetti, Bridi, Cagol (Cagolo), Capelletti, Carlin, Casagrande, Cechin, Cembrani, Cemin, Cheller (Keller), Dalla Rosa, Daniz, Ferrari, Giordani, Gubert, Lamperti, Laner (Lanner), Longhi, Maule, Menegaz (Menegazzi), Onzi, Pedrotti, Perini, Pilati, Postal (Postali), Rizzi, Slomp, Taufer, Tomasini, Tovazzi, Valentini, Vitti e Wiesinteiner (Visintainer).

Légua 1 - Travessão Trentino
Lotes da Primeira Légua e o Travessão Trentino (à direita). Fonte: Arquivo Municipal de Caxias do Sul/RS.
Légua 2 - Travessão S. Virgilio
Lotes da Segunda Légua e os Travessões São Virgilio e São João (Loreto). Fonte: Arquivo Municipal de Caxias do Sul/RS.

 

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Década de 1920: Imigrantes tiroleses (austríacos) e vênetos (italianos) com seus filhos na Comunidade da Capela de Nossa Senhora do Loreto, Travessão São João. Fonte: Família Mezzomo (Flickr).

 

A Capela São Virgílio da Segunda Légua foi edificada em 1880, sendo considerada a mais antiga igreja do interior de Caxias do Sul. Sua construção se fez graças ao trabalho voluntário dos imigrantes, sendo a maioria deles oriundos do Tirol.

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Capela dedicada a São Virgilio, padroeiro da cidade de Trento e do Tirol. Fonte: Blog Raízes da Arquitetura.

 

1877 – 1977: cem anos depois, o Monumento aos Tiroleses

Dos descendentes de imigrantes do Travessão São Virgilio partiu a iniciativa, em 1977 (ano que marcou o centenário da chegada dos imigrantes), para a construção do Monumento aos Tiroleses, localizado na Praça dos Tiroleses, ao lado do Museu da Casa de Pedra. O monumento traz a águia da cidade de Trento e lembra uma igreja de montanha porque foi inspirado na Chiesetta del Brentei, capela encravada no Grupo Montanhoso do Brenta, na atual Província Autônoma de Trento. Cem anos depois, a identidade tirolesa estava preservada e forte entre os descendentes.

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Chiesetta del Brentei e Monumento aos Tiroleses.

 

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1977. Momento da inauguração do Monumento aos Tiroleses em Caxias do Sul. Fonte: Acervo da família Onzi.

 

O respeito, tanto lá como cá, é o que cada indivíduo de qualquer região ou localidade deste mundo tem o direito de exigir com as suas origens. As culturas austríaca e italiana são duas culturas maravilhosas que devem ser respeitadas mutuamente.

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Placa escrita em italiano e português em homenagem aos Audaci Tirolesi (audazes tiroleses) no Monumento aos Tiroleses de Caxias do Sul.

 

Aqui no Rio Grande do Sul, os casamentos entre descendentes de austríacos (tiroleses) e italianos (vênetos e lombardos), além do talian (dialeto ou koiné de base vêneta com influências do lombardo e do tirolês), fundiu essas culturas que vivem em grande harmonia, mas isso não significa esquecer, apagar ou modificar nossa história e nossas raízes tirolesas.

2 comentários em “Identidade tirolesa em Caxias do Sul”

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