Tradições tirolesas de Carnaval

Carnaval - Seefeld
Carnaval tradicional de Seefeld (Foto: Vogue)

Existem várias tradições de Carnaval na região do Tirol e boa parte delas têm sua origem na Antiguidade, muito antes da expansão do Cristianismo na Europa, de modo que são “releituras” adaptadas ao longo dos séculos e que adquiriram novos simbolismos. Algumas foram trazidas para o Brasil, onde também foram readaptadas de acordo com a realidade local das comunidades de imigração.

O Carnaval é uma festa ligada ao calendário litúrgico católico, celebrada principalmente no Ocidente. Tradicionalmente, os festejos se iniciam em fevereiro ou no início de março, durante o período conhecido como tempo da septuagésima, antes da quaresma, período que antecede a festa da Páscoa.

Os festejos envolvem uma festa pública, geralmente um desfile, na qual as pessoas usam fantasias e máscaras representando diversos personagens. Fazem parte as pantomimas com alguns elementos circenses retratando combates e lendas. A extravagância é típica dos festejos carnavalescos e as fantasias e máscaras ajudam na “perda” da seriedade e individualidade cotidianas, permitindo sátiras, críticas ou zombaria das normas sociais.

Origens

Não existe um consenso sobre a origem da palavra carnaval (italiano carnevale; dialeto trentino/ladino carneval), mas é certo que sua etimologia está relacionada ao consumo de carne. Provavelmente do latim clássico carnem levare ou carnis levale (“abstenção da carne”) que, no latim medieval, passa a carnelevarium, carnilevaria ou carnilevamen. Trata-se à uma referência ao período da quaresma, no qual é realizado o jejum de carne, variando de acordo com as tradições cristãs: no Ocidente, temos o jejum de carne, geralmente vermelha (outrora jejum também de álcool), ao passo que no Oriente não são consumidas carnes de nenhum tipo, nem leite, ovos e bebidas alcóolicas.

Em alemão, existem vários termos para designar a festa: Fasching, Fastnacht, Fastabend, Karneval, entre outros. No Tirol, registram-se: Fastnacht (do antigo alto-alemão fasta > Fastenacht), indicando a primeira noite do tempo da quaresma (Fastenzeit), e Fasching (do alemão medieval vaschanc ou vaschang > Fastenschank), indicando a última oportunidade de se consumir bebidas alcóolicas antes do jejum quaresmal.

Combate de Carnaval Peter Bruegel
Peter Bruegel (séc. XVI): Luta entre Carnaval e Quaresma

Muitas máscaras e figuras são resquícios de antigos ritos pré-cristãos dos celtas, réticos, romanos e germânicos que se fundem ao longo dos séculos. A tradição céltica parece ter preservado simbolismos ligados à mudança dos meses frios de inverno para os quentes e férteis da primavera e verão. Nesse sentido, o inverno (representado geralmente por espíritos, fantasmas, duendes e criaturas estranhas) é “forçado” a partir e sua insistência em permanecer é representada pelo barulho de bastões de madeira, chocalhos ou sinos. O uso de chicotes que ecoam também faz parte dos festejos. No Tirol, essa antiga tradição da competição entre a primavera e o inverno ganhou ganhou uma nova significação cristã na luta entre a luz e as trevas, entre o bem e o mal.

Receitas típicas do carnaval tirolês

Dois doces muito apreciados no Brasil fazem parte das receitas típicas do carnaval do Tirol. O sonho (em alemão Faschingskrapfen, em dialeto trentino cròfen, em ladino cròfen, crafón), recheado com diversos sabores de geleia ou creme de baunilha.

sonho-faschingskrapfen-crofen
No Tirol alemão, o sonho é chamado de Faschingskrapfen (pastel de carnaval), no Tirol Italiano cròfen e em ladino, crafón.

Os crostoli (grostoi em dialeto trentino, Blattelnno alemão da Áustria), também chamado no Sul de “cueca virada” . A receita original tem a massa parecida com a do pastel, mas há variações cuja massa lembra a do sonho.

grostoi
Crostoli ou cueca virada, chamado no Tirol alemão Blatteln e no Tirol italiano grostoi.

Encenações teatrais e “fúnebres”

Uma vez que no Carnaval são permitidas extravagâncias e inversões, era muito comum que nesses dias fossem apresentadas peças teatrais onde acontecimentos locais eram contados de forma bem humorada e até com verdadeiras críticas sarcásticas. Há também cortejos fúnebres com “animadas” músicas e leituras de testamentos cheios de sátiras.

Enterro de carnaval de Laatsch (Vinschgau, Tirol do Sul)

Val dei Mòcheni / Bernstol: carnaval com os personagens típicos (bètscho / vècio, o velho, e bètscha / vècia, a velha) com leitura do testamento.

Cortejos tradicionais de carnaval

Máscaras e personagens mitológicos fazem parte das tradições carnavalescas mais antigas da região do Tirol. Em praticamente todas as cidades tirolesas há desfiles ou festas com fantasias, mas aqui elencamos apenas os cortejos e encenações tradicionais:

1 – Mullerlaufen / Mullerumzug / Maschgerer

 Nas proximidades de Innsbruck, há variações na encenação, na quantidade de personagens e máscaras (Maschkerer, Maschgerer) entre as localidades de Mühlau, Arzl, Rum, Thaur, Absam e Inzing. Em demais localidades há cortejos similares, como em Tarrenz e Sautens, no distrito de Imst e em Weer, nas proximidades de Schwaz.

Podemos identificar nos Mullerlaufen antigos ritos e figuras da tradição celta. No cortejo há personagens que representam as estações do ano (Halbweiße/Weiße para a primavera; Melcher para o verão; Spiegeltuxer para o auge do verão; Zaggeler para o outono e Zottler para o inverno), mensageiros (Hexe bruxas e Klötzler) e coadjuvantes (Fleckler, Flitscherler e Frosch, o sapo, Bär o urso) na luta entre a primavera e o inverno.

Cortejo de Mühlau no centro de Innsbruck.

Cortejo em Arzl

Cortejo em Rum

Cortejo de Thaur

Cortejo de Absam

Cortejo em Inzing

Cortejo em Tarrenz

 Cortejo em Sautens (Flitschelarlauf), realizado a cada três anos.

Cortejo em Weer

2 – Schleicherlaufen / Schemenlaufen / Schellerlaufen / Zusslrennnen

Em Telfs, cidade próxima a Innsbruck, é realizado há cada cinco anos o cortejo dos Schleicher, homens com fantasias e adornos na cabeça que exibem uma dança especial. Há vários outros personagens: Goaßer, Tuxer (camponeses), Bären (ursos), Wilden (homens selvagens, recordando velhos espíritos da natureza), Laninger, entre outros.

Em Imst, há o Schemenlaufen, que outrora apresentava várias sátiras aos governantes. Entre os personagens tradicionais, há os Roller, máscaras com aspecto juvenil adornadas com um alto chapéu com um espelho no centro (para repelir o demônio), os Scheller, máscaras com aspecto severo, longos bigodes e que também usa um chapéu adornado e com espelhos. Há ainda, outros personagens: as bruxas (Hexen), as Sackner (velhas camponesas), os Spritzer (“nobres” com aparência de mouros), as Kübelmaje (jovens camponesas com pequenos baldes), e figuras satirizadas da nobreza.

Em Nassereith, localidade do distrito de Imst, há o Schellenlaufen com seus personagens típicos: os Ruaßler com fantasias coloridas e máscaras, os Schnöller usando grandes sinos e os Scheller que também fazem muito barulho com os sinos (Schellen). Há, ainda, os grupos de ursos, as Maje (jovens camponesas com baldes), as Sackner (velhas camponesas), os Mohrenspritzer (com vestimentas de nobres mouros) e os Engelspritzer (com vestimentas de anjos).

Em Prad am Stilfserjoch, na região de Vinschgau próxima à cidade sul-tirolesa de Merano, ocorre o Zusslrennen com homens em fantasias coloridas e carregando grandes sinos que, assim como nas demais regiões, “espantam” o inverno.

3 – Wampelrreiten

Festejo característico da região de Axams, com cortejo de máscaras, personagens que recordam camponeses e os “corcundas” (Wampel) que tentam se derrubar ou são derrubados (quando possível) pelos demais participantes e visitantes.

4 – Blochziehen, Larchziehen e Rogo del Pino

O uso de árvores no período tem suas mais antigas origens em ritos de fertilidade pagãos. O cortejo de carnaval de Fiss, pequena localidade de montanha no distrito de Landeck, preserva ainda vários simbolismos antigos. Um momento importante dos festejos é a exibição do Blochbaum, um pinheiro (ou dois juntos) com cerca de trinta metros de extensão. Anualmente é derrubado no outono um imponente pinheiro que será decorado dois dias antes do Carnaval e colocado em três trenós. Para trazê-lo pelas estreitas ruas do vilarejo, é montada uma estrutura.

Antigamente, usavam-se árvores maiores, mas hoje o Blochbaum é feito com dois pinheiros, pois nas proximidades de Fiss não há tantos pinheiros altos com permissão de corte. Antigamente, a feitura do Blochbaum tinha que ser protegida pelos moradores, pois havia uma disputa com as localidades vizinhas que tentavam cortar a árvore para que não pudesse ser exibida. A parte do pé da árvore, a mais espessa, aponta sempre para a frente e fica no primeiro trenó, que é equipado com um Schrepfer (freio ajustável com ganchos); a interface é decorada com uma máscara da árvore, um rosto de lua cheia mostrando a língua. Acima do primeiro trenó há a cabana da bruxa (Hexenhütte) e um pouco mais atrás o banco do músico e o “berço dos namorados” (Wiege des Liebespaares).

Na localidade de Umhausen, no distrito de Imst (Ötztal), há uma tradição parecida, mas sem tantos personagens e máscaras. Trata-se do Larchziachn (Larchziehen, “exibição do lariço”), onde uma árvore de lariço é presa por machados e puxada pelos homens que a exibem pelas ruas da cidade. A festa ocorre de cinco em cinco anos.

Em Grauno, pequena localidade de Val di Cembra (Zimmertal), há o Rogo del Pino, quando um pinheiro é retirado e exibido em um local de destaque, onde será queimado ao som de músicas tradicionais, formando uma imensa tocha. Antes de ser “aceso” de noite, acontece uma encenação teatral e há alguns anos os personagens do carnaval de Valfloriana se exibem no vilarejo – uma “novidade” introduzida há pouco tempo.

5 – Egetmann e Schnappviecher

Em Tramin / Termeno e Terlan / Terlano, localidades próximas a Bolzano e famosas pelos bons vinhos, o Carnaval traz um personagem muito característico, o Schnappviecher, espécie de monstro feito com uma grande fantasia e que percorre as ruas batendo os dentes. As festividades do desfile de Carnaval envolvem também uma encenação de um casamento (Egetmann de Tramin), com uso de trajes de gala. Há vários personagens imitando camponeses, ursos, caçadores e “preguiçosos”.

Carnaval em Tramin

Carnaval em Terlan

6 – Arlequins (Arlechini, Laché)

Em Valfloriana / Welschflorian, pertencente ao Vale de Fiemme (Fleimstal), os personagens do cortejo carnavalesco são os reclamões e satíricos Matòcis com sinos, os arlechini (arlequins) com longos chapéus e executando uma dança característica, além de máscaras que retratam camponeses (Paiàci e Bele).

No vale de Fassa, de língua ladina, existem as mascherèdes (“mascaradas”) e dois personagens característicos do Carnescèr fascian (“carnaval fassano”) são os Laché, que devem executar uma dança característica com sinos sem erros, apesar da insistência do Bufon, que tenta atrapalhar e faz sátiras com os presentes. Há também pequenas encenações teatrais bem humoradas.

Em Coredo, no vale de Non (Anaunia, Nonsbeg), onde se fala o ladino noneso (nónes), as figuras tradicionais são arlequins e, assim como no Tirol setentrional, camponeses com trajes típicos. Sua peculiaridade é que crianças interpretam os personagens.

7 – Carnaval dos Habsburgos

Em Madonna di Campiglio é realizado o Carnevale Asburgico, que recorda a família real austríaca, o imperador Franz Joseph von Habsburg (ou Francesco Giuseppe d’Asburgo) e a imperatriz Elisabeth (Sissi), que frequentavam o local. São usados trajes de época.

Tradições tirolesas de carnaval no Brasil

Registram-se raros casos de comunidades tirolesas preservaram no Brasil as tradições carnavalescas da terra de origem. Provavelmente, nos primeiros anos da imigração, os costumes fossem mantidos entre as famílias, mas muito já se perdeu.

Outrora, na cidade catarinense de Rio dos Cedros, havia as mascherade, depois chamadas de mascaradas, com encenações teatrais bem humoradas, geralmente em dialeto trentino. Também na catarinense Treze Tílias havia encenações teatrais no período de carnaval, geralmente feitas no dialeto alemão tirolês.

Talvez a festividade mais pitoresca seja a festa da cucanha da Colônia Tirolesa de Piracicaba, no estado de São Paulo, cujas origens foram contadas no Blog Tiroleses no Brasil. Para ler o texto, clique aqui.

===

Curiosidades…

Curiosamente, no carnaval brasileiro, o tirolês e a tirolesa são personagens tradicionais dos antigos blocos de rua do Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais.

tiroles-carnaval antigo
A fantasia de “Tirolês” no antigo carnaval carioca (Foto: Arquivo Nacional).

“Tirolesa”: antiga marcha de Carnaval de Dircinha Batista


Links:

Tradições carnavalescas do Tirol (em alemão e italiano)

2 comentários em “Tradições tirolesas de Carnaval”

  1. Everton e Misael, parabéns pela magnífica produção sobre o carnaval e tradições tirolesas, que enriquece em muito o conhecimento sobre nossas origens.

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s