Ser ou não ser? Tola questão.

 

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Há alguns anos, moradores da Colônia Tirolesa de Piracicaba, no estado de São Paulo, têm assistido a discussões (por vezes estéreis) sobre sua “verdadeira origem” e sobre a história “válida” dos imigrantes fundadores. Há, ainda, quem se proponha a “sanar dúvidas”, esquecendo-se, porém, de levar em consideração o farto material bibliográfico e audiovisual sobre os bairros que compõem aquela comunidade tirolesa fundada no final do século XIX.

Com base em informações históricas, os autores deste blog acharam que seria oportuno “gerar dúvidas”.

Introdução: A Colônia Tirolesa de Piracicaba se localiza na zona rural e é formada por dois bairros: Santa Olímpia e Santana, originalmente duas antigas fazendas de café que foram compradas em conjunto respectivamente em 1892 e 1893 por imigrantes tiroleses originários do Vale do Rio Ádige (it. Valle dell’Adige, al. Etschtal).

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Anos mais tarde, uma terceira fazenda, vizinha à fazenda Santa Olímpia, foi adquirida pela família Negri, de modo que, atualmente, a comunidade é formada por dois bairros rurais: Santa Olímpia (à qual se une a Fazenda Negri) e bairro Santana. As famílias fundadoras eram originárias de vilarejos localizados nos arredores da cidade de Trento: de Romagnano (famílias Brunelli, Correr, Forti, Mosna, Pompermayer e Stenico/Steneck), de Sardagna (família Degasperi), de Cortesano (família Vitti), de Meano e Vigo Meano (famílias Christofoletti/ Cristofoletti e Vitti), bem como do vilarejo de Albiano (famílias Negri e Veneri), no Vale do rio Cembra (it. Valle di Cembra, al. Zimmerstal). Além dessas famílias mencionadas, demais famílias de imigrantes tiroleses também se instalaram em outras localidades de Piracicaba (como Stolf, Malusà, Rover, entre outros). Antes de instalarem em Piracicaba, os tiroleses trabalharam durante alguns anos na fazenda Sete Quedas, na cidade de Campinas, de propriedade de Joaquim Bonifácio do Amaral, o Visconde de Indaiatuba, conhecido abolicionista que, anos antes, contratara imigrantes alemães para trabalharem em sua fazenda.

 

“Verificada a guerra violenta da Alemanha contra a emigração de seus habitantes para o Brasil, esta fonte não poderia ter sido melhor substituída senão pelos habitantes das terras do Tirol. As famílias são autenticamente patriarcais, seja pela dimensão, seja pela moralidade, união e amor ao trabalho. Sendo certo que a colonização não deve ser afrontada unicamente como elemento de evolução material, (…) parece que a esse desejo melhor correspondem os emigrantes tiroleses”.

(Joaquim Bonifácio do Amaral, Visconde de Indaiatuba, 1879)

Tendo chegado ao Brasil entre 1877 e 1881, muito antes de sua terra de origem ser anexada ao território italiano, os tiroleses que seguiram para Piracicaba eram indiscutivelmente imigrantes austríacos e não se declaravam “trentinos” (sobre o assunto, ler este artigo).

 

Quando a identidade dos antepassados austríacos passou a ser questionada?

Vale lembrar que os imigrantes que se instalaram em Piracicaba saíram do Tirol quando todo o território ainda pertencia ao Império Austríaco. Tendo chegado no Brasil a partir de 1877, aquelas famílias não vivenciaram a Primeira Guerra Mundial, a anexação de sua terra natal ao Reino da Itália e a repressão fascista contra a cultura tirolesa.

Para se ter uma ideia do nível de repressão no Tirol, em 1923 o governo italiano proibiu o uso público da palavra “Tirol” e de suas variações, com multas e punições previstas (até mesmo prisão). A multa para quem se afirmasse tirolês era de 200 liras, ao passo que um trabalhador recebia em média 50 liras por mês – dinheiro suficiente para sustentar sua família. Mesmo após o final da Segunda Guerra Mundial (1945), a problemática tirolesa não se resolvia em nível nacional, de modo que a República da Áustria tomou providências junto às Nações Unidas (gerando problemas diplomáticos entre Roma e Viena) para que a questão sul-tirolesa, sobretudo para a população de língua alemã, fosse adequadamente resolvida com a concessão da autonomia para Trento e Bolzano. Até hoje, a República da Áustria exerce o papel (ao menos formal) de tutora da autonomia regional das províncias autônomas de Trento e Bolzano. Todavia, os resultados dessa opressão cultural são visíveis até os dias atuais.

Com a criação do Circolo Trentino di Piracicaba, na década de 1970, a vida cultural da Colônia Tirolesa passou por profundas transformações. Se, por um lado, aquela que até então era uma “comunidade fechada” passou a ter maior contato com a terra de origem, por outro lado passou a ver a identidade dos imigrantes e dos descendentes mais velhos ser cada vez mais questionada – e, por vezes, renegada – pelos representantes de entidades trentinas no Brasil.

De certo modo, a crise identitária vivida na Europa foi “importada” pelas organizações trentinas e passaram a fazer parte da realidade cultural das comunidades brasileiras de origem tirolesa. Os mitos criados pelo fascismo, tais como “tirolês é somente o habitante do Tirol na Áustria”, “trentinos não são tiroleses” ou “tiroleses falam alemão e trentinos falam italiano” foram trazidos e disseminados entre as comunidades tirolesas do Brasil que, até então, viviam e preservavam aquela velha identidade do Tirol Italiano, parte de uma província austríaca que – como a história demonstra – jamais tomou qualquer iniciativa para se separar do Tirol alemão ou do Império Austríaco. Sobre o assunto, recomendamos o seguinte texto.

 

Crise de identidade? Não entre os descendentes mais velhos.

Bastaria ouvir o que relatam os descendentes mais velhos para se ter uma noção da identidade dos imigrantes que fundaram a Colônia Tirolesa de Piracicaba. O vídeo abaixo dispensa comentários.

O próprio uso do termo “trentino” é bastante recente na comunidade, introduzido ali pelas entidades trentinas, isto é, pelo Circolo Trentino di Piracicaba, recentemente desmembrado para que fosse fundado o Circolo Trentino di Santa Olímpia. Ambas as entidades simplesmente aboliram o uso do termo “tirolês” em seus eventos (sempre no intuito de “agradar” os trentinos europeus). Todavia, os moradores da comunidade são conhecidos em Piracicaba simplesmente como “tiroleses”. Por qual motivo deveriam “mudar”?

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Livreto em comemoração aos 110 anos de fundação da comunidade de Santa Olímpia. Reparar que a palavra “trentina” foi adicionada posteriormente, dada seu total desuso entre os descendentes.

A identidade austríaca dos imigrantes tiroleses em Piracicaba também foi abordadas por um renomado descendente nascido naquela comunidade, o Prof. Guilherme Vitti (1915 – 2015).

Guilherme Vitti

Dos 124 anos passados desde a fundação da colônia, Guilherme vivenciou 100, de modo que sua experiência pessoal é indiscutivelmente válida. Era um autodidata que auxiliou na criação do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba e da Academia Piracicabana de Letras, e dedicou anos de sua vida ao Arquivo da Câmara de Piracicaba. O Prof. Guilherme Vitti escreveu uma obra importante intitulada En contadin de Meano che s’ha fat bon brasiliano (“Um camponês de Meano que se tornou bom brasileiro”), que narra em dialeto trentino (dialèt tiroles) oa chegada dos imigrantes ao Brasil e os primeiros anos na Colônia Tirolesa de Piracicaba, principalmente entre os membros da família de Bortolo Vitti e Maddalena Sartori Vitti, seus avós e “patriarcas” do Bairro Santana. A introdução demonstra o valor da obra do ponto de vista histórico:

“O estilo romanceado do trabalho não diminui seu valor, pois, os fatos e nomes dos biografados são todos de fundo real, já que a narrativa está baseada em documentos que me foram entregues por minha avó materna e também em informações conseguidas junto aos filhos de Bortolo, não esquecendo que os pormenores foram fornecidos por meus pais e tios mais idosos. (…) Para que eles não perdessem o conhecimento da história de seus antepassados, resolvi passar o original para o português, aliás a pedido deles”.

À página 2, Guilherme narra a preocupação da família Vitti em ver sua terra invadida por estrangeiros:

“Se não houvesse o perigo de guerra… Não ouviu esta noite como gritavam os italianos, lá no caminho: ‘O Tirol para a Itália, o Tirol para a Itália’…

Bortolo pensativo, não dormiu a noite toda”.

À página 3, Guilherme narra um desagradável episódio envolvendo Angelo, Giorgio e Beniamino Vitti, filhos de Bortolo. Eles tiveram parte das orelhas mutiladas por italianos (não se sabe se cidadãos italianos residentes no Tirol ou se por filo-italianos locais). Os assim chamados “carbonários” (nome de uma sociedade secreta que promoveu a unificação italiana no século XIX) tentaram forçar as crianças a dizer “abaixo a Áustria”.

“Quando João ia voltando, ouviu alguém chorar.

– Mas o que há?… Que fizeram, meninos?… Nossa Senhora, sangue?!… Angelo, Jorge, Benjamin… o que fizeram?

– Nada… foram os carbonários. Eles nos cortaram a ponta das orelhas porque não quisemos gritar: Abaixo a Áustria.

– Miseráveis… Porcos… Você tem razão, Bortolo… É melhor a gente ir embora…”

À página 16, lemos um relato da chegada dos imigrantes e um diálogo com um brasileiro:

“– Uma banana? Um vintém cada uma.

– É banana, rapaz… Vamos comer uma cada um?

– Dê-me cinco.

– Vocês são italianos?

– Não, não… Tiroleses…”

– Ah… sei, sei… Tome lá as bananas e o troco.

Os estudos de Guilherme Vitti sobre a inauguração da Igreja dos Frades em Piracicaba também retratam a antiga identidade austríaca de Santa Olímpia e Santana. O texto de Cecílio Elias Netto intitulado “Igreja dos Frades: arte e história de um dos mais belos templos paulistastraz informações importantes sobre a identidade dos imigrantes tiroleses que auxiliaram na construção da igreja:

“A inauguração da Igreja dos Frades foi, na verdade, uma ‘festa tirolesa’. Com a presença de autoridades civis e religiosas, benfeitores e o povo realizou-se grande almoço ao ar livre. O destaque foi a presença do cônsul da Áustria. Mas toda a alegria ficou por conta dos tiroleses que eram, então, colonos da Fazenda Monte Alegre. Cantaram músicas do Tirol e, de maneira entusiástica, o hino nacional do Império Austríaco”.

Obviamente, é necessário conhecer a atual realidade da terra de origem, mas sem deixar de entender que a região passou por duas guerras mundiais, pela repressão fascista e sofreu profundas mudança sociais após a migração de italianos que se transferiram para o Tirol (levados pelo governo no intuito de italianizar a região). A região vive hoje uma crise de identidade. Qual a vantagem em trazer essa problemática para o Brasil?

Por isso, os autores do Blog Tiroleses no Brasil acham oportuno “gerar dúvidas” e propõem uma reflexão com base nas perguntas abaixo:

1 – Visto que a comunidade viveu um século sem ter contato direto com a terra de origem dos imigrantes e preservou no Brasil características culturais anteriores à Primeira Guerra Mundial e à repressão fascista, por que essa identidade não pode ser considerada uma riqueza cultural a ser mostrada para a atual Província de Trento?

2 – Por que os descendentes de hoje têm de ser iguais aos atuais trentinos europeus? Respostas à atual crise de identidade dos trentinos europeus não estariam nas comunidades brasileiras que preservaram a memória e a cultura de seus antepassados longe de guerras e ditaduras do século XX?

3 – Por que a opinião de pessoas de lá teriam mais valor que a identidade herdada diretamente dos antepassados tiroleses? O fato de alguém viver hoje no local de onde saíram os imigrantes há mais de cem anos atrás não lhe dá qualquer autoridade para dizer sobre como os imigrantes se sentiam.

3 – Encontra-se muito mais coerência nos depoimentos dos filhos e netos de imigrantes, que conviveram com seus pais e avós, do que na opinião de trentinos europeus que vivenciam a crise de identidade gerada pelo fascismo. Os tiroleses brasileiros seriam “menos capacitados” para falar da própria história? 

Como de costume, deixamos a conclusão aos leitores.

“O ignorante afirma, o sábio duvida, o sensato reflete” (Aristóteles).

 ———————

Referências bibliográficas:

Altmayer, Everton L. O dialeto trentino da Colônia Tirolesa de Piracicaba: aspectos fonéticos e lexicais. (Tese de doutorado em Língua Italiana), USP, São Paulo, 2014. Link.

Girardelli, Sandra Regina. Santa Olímpia e Santana: trajetória social e memória. (Dissertação de mestrado em História), UNICAMP, Campinas, 1992.

Netto, Cecílio E. Igreja dos Frades: arte e história de um dos mais belos templos paulistas (Texto online). In A Província (08/12/2013). Link.

Vitti, Guilherme. En contadin de Mean che s’ha fat bon brasilian – Centenario dell’imigrazione dei tirolesi del Municipio di Piracicaba – Brasile 1877-1977 (texto apresentado como apêndice na dissertação de Grosselli, 1990). Trento: Provincia Autonoma di Trento, 1990.

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5 comentários sobre “Ser ou não ser? Tola questão.

  1. Do meu mel ponto de vista democrático, penso que quem opinou em adquirir o passa porte italiano, não pode ao mesmo tempo, dizer que é Alstriaco. Mesmo porque a Alstria nunca nos procurou para que isso, fosse possível, e nem se importou; com seus imigrantes.

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    • Caro Silvério, da nossa parte, acreditamos primeiramente que se sentir austríaco, tirolês ou italiano, independente da origem familiar, é prerrogativa de cada pessoa. É bom lembrar, inclusive, que antes de tudo, todos nós devemos nos sentir brasileiros, já que foi graças ao Brasil que nossos antepassados puderam sobreviver à miséria que sofriam na Europa.

      Porém, se puder comentar brevemente o que você coloca, gostaria de dizer o argumento do texto pouco tem a ver com o passaporte deste ou daquele país – inclusive, tem muito pouco a ver com as atuais República Italiana e República da Áustria. O Condado do Tirol, pátria secular dos nossos antepassados, não existe mais como entidade única. O Império Austríaco, a grande terra multiétnica dos nossos ancestrais, também não existe mais. A maioria dos nossos velhos – aqueles que ainda vivem – provavelmente nem sabem apontar a atual República da Áustria num mapa; mas lembram de ter ouvido dos seus avós as histórias de lá.

      Foi a realidade desse Império multiétnico que nossos bisnonni trouxeram para o Brasil. Naquele tempo, “ser austríaco” não era sinônimo de falar alemão, e “ser italiano” não era sinônimo de ser súdito do Reino da Itália. Portanto, o que hoje te parece impossível, naquele tempo era perfeitamente aceitável: nossos ancestrais eram italianos do Tirol, da Áustria, e isso eu ouvi dezenas de vezes das pessoas mais velhas aqui na minha cidade, Nova Trento. Foi sobre essa realidade que se construíram as colônias no Brasil e, na modesta opinião do Blog, é essa realidade, e não a realidade atual da Europa (em que “tirolês é somente o habitante do Tirol na Áustria”, “trentinos não são tiroleses” e “tiroleses falam alemão e trentinos falam italiano”) que deve ser cultivada e preservada entre os descendentes.

      Por isso, independente de qualquer pedaço de papel, eu particularmente me reservo o direito de me dizer “tirolês” (mas não do Estado do Tirol), “italiano” (mas não da República Italiana) e “austríaco” (mas não da República da Áustria) – embora eu seja, primeiramente e acima de tudo, brasileiro.

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  2. Belo trabalho. Particularmente eu, que descendo dos Degasperi pelo lado materno, este assunto parece que começa a “desanuviar”, pois informações esparsas diziam que havia alguma ligação maior com a Austria. A minha avó, por vezes usava um dialeto quase inaudível, para quem à época praticava uma mistura de dialetos italianos/nortistas. Eram um tanto estranhas as conversas que por vezes eles fazia, particularmente com o avô José Degasperi. Para corroborar com isto, vale a pena a história pessoal do Alcide Degasperi, que, resumindo, foi perseguido e preso pelos italianos e conseguiu apoio(de quem… da Itália ou da Austria?), para tornar-se o primeiro presidente do parlamento europeu, com sede em Viena(?).
    Enfim, é uma pena que esses velhinhos se foram, antes do despertar cultural que viceja atualmente.

    Deoclides J. Pedó

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  3. Meu nome Hugo Bonat Neto, quero congratular-me com os senhores por esse belissimo trabalho a respeito da imigração italiana que ao meu ver não é , pois ao analisar todos seus dissertamento sobre este assunto, acredito que realmente somos tiroleses, pois meu biz avo Pietro Bonat, veio para o Brasil e seu passaporte era austriaco, ele quando aqui chegou trabalhou n construção da estrada de ferro curitiba paranaguá, e posteriormente seguiu para o rio grande do sul onde se estabeleceu na colonia maciel municipio de pelotas , onde com seus patricios fundaram esta colonia que consta no livro tombo da paróquia santa ana ,seu nome Pietro seu Irmão Giorgio, e o cunhado de seu Irmão Noé Talamini, mais tarde meu biz avo Pietro voltou ao Paraná onde se estabeleceu difinitivamente. Minhas cordiais saudações aos senhores. Hugo bonat neto.

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