140 anos de imigração?

fato realidade

Muitas pessoas que, de uma forma ou de outra, têm algum contato com o mundo da imigração “trentina”, receberam nesta semana alguns e-mails sobre a viagem ao Brasil do presidente (= governador) da Província Autônoma de Trento, Sr. Ugo Rossi, acompanhado de uma comitiva. O motivo? Comemorar os “140 anos da imigração trentina no Brasil”. Mas em quais fatos isso se baseia?

Vou me tornar teu inimigo porque te conto a verdade?

(Gálatas, 4:16)

 

No mês de julho deste ano, ocorreu na cidade de Levico Terme (Província de Trento) a Festa provinciale dell’emigrazione (“Festa provincial da imigração”), cuja propaganda oficial marcava o ano de 2015 como sendo aquele de “140 anos de imigração italiana e trentina no Brasil”.

Cartaz oficial da "Festa provincial da imigração 2015", realizada anualmente na Província Autônoma de Trento.

Cartaz oficial da “Festa provincial da imigração 2015”, realizada anualmente na Província Autônoma de Trento.

 

Tudo muito bonito, só não fosse por um equívoco – digamos – primordial: 1875 não marca o início da imigração “trentina” no Brasil. Na verdade, não marca nem mesmo o início da imigração italiana em nosso país.

Sem delongas, vamos às datas e aos fatos históricos.

Em primeiro lugar, ainda que haja uma intenção de se comemorar uma “imigração trentina” (e descontextualizá-la da imigração austríaca), o que ocorreu foi imigração tirolesa e o porquê disso é simples: os imigrantes se definiam Tiroleses, pois quando aqui chegaram (no século 19), um território chamado “Trentino” não existia. O que havia era a Província do Tirol, pertentence ao Império Austríaco e a parte meridional (de língua italiana) era chamada Tirolo Italiano ou Tirolo Meridionale (Südtirol, em alemão). Sobre o assunto, já tratamos em um post anterior intitulado “Os 140 anos da imigração que não foi”.

Já que se trata de imigração tirolesa porque saída do Tirol e feita com imigrantes que se definiam a si próprios como tiroleses, seria interessante consultar os fatos históricos para saber quando, de fato, teve início a imigração de tiroleses para o Brasil.

Desde já, advertimos: a imigração tirolesa não se iniciou em 1875.

O primeiro grupo de tiroleses a desembarcar em solo brasileiro chegou em 1859, na então província do Espírito Santo. Eram tiroleses de língua alemã e fundaram a Colônia Tirol em Santa Leopoldina, existente até hoje. Eram oriundos, sobretudo, dos vales setentrionais do Tirol.

Antes que algum desinformado de plantão queira argumentar que 1875 marca apenas o início da imigração de tiroleses de língua italiana, seria importante saber que a data também não é valida para tanto.

Site da prefeitura de Bento Gonçalves indicando que a cidade foi colonizada por Imigrantes "do Tirol Austríaco e do Vêneto".

Site da prefeitura de Bento Gonçalves indicando que a cidade foi colonizada por Imigrantes “do Tirol Austríaco e do Vêneto”.

Se, porventura, por conta das comemorações oficiais da imigração italiana no estado Rio Grande do Sul, alguém quiser indicar o ano de 1875 como “início da imigração tirolesa no Rio Grande do Sul” , lamentamos dizer que não será possível. Os estudos de Mario Gardelin junto ao Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul indicam o mês de outubro de 1873 como sendo aquele da chegada das primeiras famílias “italianas”, mas, na verdade, as famílias haviam chegado com passaporte austríaco e eram imigrantes oriundos do Tirol (provavelmente de Vallagarina).

Além destes, outros imigrantes tiroleses de língua alemã já haviam se instalado entre 1874 e 1975 em Nova Petrópolis, fundando ali a comunidade Nova Tirol (atual Temerária). Antes deles, demais austríacos de língua alemã (principalmente boemos) chegaram ao Rio Grande do Sul em 1869.

Em 1874, trezentos e oitenta e oito tiroleses de língua italiana (em sua maioria, camponeses da Valsugana e Primiero) e algumas famílias vênetas desembarcaram no Espírito Santo, trazidos por Pietro Tabbachi naquela que ficou conhecida como Spedizione Tabbachi (“Expedição Tabbachi”). Natural de Trento, o chefe da expedição  já se circulava por terras capixabas desde meados de 1850, após seus negócios terem falido em Trento, o que lhe causou sérios problemas com credores.

Passaporte de imigrante austríaco estabelecido em Santa Teresa.

Passaporte de imigrante austríaco estabelecido em Santa Teresa.

Os tiroleses estabelecidos na fazenda Nova Trento encontraram dificuldades e houve, inclusive, sérios problemas entre Tabbacchi e alguns colonos, chegando ao ponto de ser necessária uma intervenção da segurança pública local. Houve, além disso, um pedido de ajuda (atendido) pelo consulado austríaco instalado no Rio de Janeiro. Infelizmente, a chegada desses imigrantes austríacos ao Espírito Santo tem sido instrumentalizada como “início da imigração italiana no Brasil” pelo simples fato desses imigrantes  (aqui chegados com passaporte austríaco) falarem o idioma italiano. Sobre o assunto, conferir o post Comprovada a imigração que não foi.

Não há dúvida que, sobretudo a partir de 1875, o número de imigrantes austríacos de língua italiana (provenientes do Tirol, da Gorízia e do Friúli austríaco), bem como dos imigrantes italianos, tomou grandes proporções, mas não há – do ponto de vista histórico – como fixar a data como “início da imigração”, pois isso significaria apagar a história dos grupos que chegaram anteriormente e que são, realmente, os pioneiros.

No que se refere a um “início de imigração” de tiroleses, o ano de 1875 não representa absolutamente nada. Todavia, tem sua importância para as comunidades fundadas por tiroleses italianos naquele ano, como as cidades catarinenses de Nova Trento, Rio dos Cedros e Rodeio.

E quanto à imigração italiana no Brasil? Quando teve início?

Muito antes de 1875. A primeira experiência com imigrantes italianos ocorreu no longínquo 1836 com a fundação da Colônia Nova Itália em São João Batista, no estado de Santa Catarina, por 180 imigrantes vindos da Ligúria que sofreram, além da mudança de ambiente, com o ataque feroz de índios que habitavam a região. Naquele tempo, aquele se tornaria Reino da Itália ainda se chamava Reino da Sardenha e há certa confusão na interpretação do fato, de modo que alguns estudos dizem que os imigrantes eram da ilha da Sardenha.

Vista do Bairro Colônia em S. João Batista - SC, local da primeira colônia italiana do Brasil, fundada em 1836.

Vista do Bairro Colônia em S. João Batista – SC, local da primeira colônia italiana do Brasil, fundada em 1836.

 

Mal a colônia se iniciava, já em 1837, foi atacada pelos bugres, senhores daquelas terras. Os sacrificados pela fúria dos bugres foram Luigi Ratto, Giovanni Benotti, Giovanni Rilla e Bernardo Gambelli mais a mulher e um filho. (…) Como se não bastasse, em 1838, a colônia sofreu uma grande enchente no período de 9 a 11 de março que prejudicou muito a lavoura. (…) Em 1839, houve novo ataque dos bugres, desta feita matando 3 homens e 5 mulheres, deixando mutiladas 3 crianças”.

(MAURICI, 2008)

 

Em fevereiro de 1872, o imigrante italiano Salvino Tripotti chefiou a colonização da Colônia Alexandra na cidade paranaense de Morretes, trazendo consigo mais de 50 imigrantes vindos do Vêneto. Por conta de dificuldades, os colonos se transferiram em 1877 para uma nova colônia, na mesma cidade de Morretes, batizada “Nova Itália”.

Portanto, a imigração italiana no Brasil não se iniciou em 1875. E nem a imigração de “trentinos” porque fazem parte da imigração austríaca.

E para confirmar este segundo fato, bastaria conferir as estatísticas da imigração italiana que não incluem os imigrantes tiroleses por um motivo muito óbvio: a região de Trento pertenceu à Áustria até 1918. Conferir: http://it.wikipedia.org/wiki/Emigrazione_italiana#/media/File:%C3%89migration_italienne_par_r%C3%A9gions_1876-1915.jpg

 

Quais seriam, afinal, os reais motivos para tais “esquecimentos”?

Muito provavelmente, a insistência no ano de 1875 se deve ao fato de o Rio Grande do Sul recordá-lo como início da imigração italiana naquele estado.  De fato, especificamente no caso gaúcho, o ano de 2015 marca os 140 anos da imigração vêneta. O consulado italiano no Rio Grande do Sul lançou um selo comemorativo para recordar os 140 anos da imigração italiana. E o faz baseando-se corretamente na história da imigração italiana no RS.

Selo 140 anos Imigraçao Italiana

Selo oficial em comemoração aos 140 anos da imigração italiana no Rio Grande do Sul.

 

Acontece que os imigrantes tiroleses do século 19 não saíram do Vêneto e não chegaram com passaporte italiano.

Outra “peculiaridade” presente nos comunicados que começam a chegar ao Brasil sobre a “imigração trentina” é o uso da expressão emigrazione triveneta (“emigração trivêneta”). O que seria um Trivêneto e qual a origem do termo? Trata-se – infelizmente – de um termo utilizado pelo fascismo e que, ao que parece, ainda é utilizado na política italiana (inclusive com uma proposta recente de políticos que querem agregar regiões em macrorregiões). Em sua origem, o termo deriva de Venezia Tridentina proposto pelo linguista austríaco (de Gorízia) Isaia Graziadio Ascoli para enfatizar a latinidade das terras do império.

Venezia Tridentina ou Triveneto tornaram-se topônimos oficiais por meio de uma imposição governamental após o decreto fascista 12.637 de 8 de agosto de 1923, que proibia e punia (com prisão e multa) o uso do secular topônimo Tirol.

Decreto fascista de 1923 que proibia na região de Trento e Bolzano o uso do secular topônimo “Tirol” e impunha o uso de "Triveneto".

Decreto fascista de 1923 que proibia na região de Trento e Bolzano o uso do secular topônimo “Tirol” e impunha o uso de “Triveneto”.

 

Ao que parece, os reflexos deste triste período da história europeia atravessam ainda hoje o Oceano Atlântico e influenciam culturalmente a história da imigração no Brasil.

 

Pinocchio

Pinocchio em seu traje montanhês (Disney, 1940).

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3 comentários sobre “140 anos de imigração?

  1. Bravo Everton, muito esclarecedor. O fascismo realmente aniquilou a nossa cultura. Foi tão forte o fascismo, que mesmo aqui no estado de São Paulo, haviam movimentos politicos a favor, se reuniam e tratavam de seguir a cartilha imposta pelo “Duche”. No DOPS São Paulo, há registro de muitos, muitos italianos presos por disseminarem essa politica aqui, a partir de 1936 até 1945, no periodo da segunda guerra.

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    • Prezado Sr. Pedrotti:

      Não é intuito deste blog misturar a história da imigração austríaca (especificamente do Tirol) com questões de cidadania. Em nosso entender, obter uma segunda cidadania não implica em cancelar o passado. Acreditamos que seja, sim, importante reconhecer e respeitar o passado e o legado da imigração tirolesa no Brasil, que até 1918 foi autêntica imigração austríaca. Todavia, com base em sua pergunta:

      1 – Em senso puramente jurídico, não haveria sentido algum que a atual República Austríaca concedesse a cidadania austríaca a todos os descendentes de imigrantes do Império da Áustria-Hungria. Por que deveria reconhecer a cidadania austríaca para descendentes de imigrantes de territórios do antigo Reino da Hungria? Eram duas coroas distintas, unidas em um pacto político que uniu as coroas, mas não “fundiu” as nações. Nenhum imigrante de Trento era “austro-húngaro” ou de cidadania “austro-húngara”. Eram cidadãos austríacos, súditos do Império Austríaco unido ao Reino da Hungria.

      2 – A atual República Austríaca poderia reconhecer a cidadania aos descendentes de imigrantes austríacos saídos antes de 1918. Todavia, não o faz por causa de uma cláusula do armistício após a Primeira Guerra Mundial que impedia à república austríaca de conceder a cidadania a quem permanecesse nos territórios ocupados e anexados por outras nações. Só obteve tal direito quem optou por viver dentro das fronteiras da então constituída república austríaca. Vale lembrar, por exemplo, que Kurt von Schuschnigg, último líder do governo austríaco antes da anexação da Áustria pelo governo da Alemanha nazista, era nascido em Riva del Garda e estudou em Trento. Após a Primeira Guerra, viveu com a família na parte setentrional do Tirol.

      Att.

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